Já fazia algum tempo que não viajava em grupo, mas a galera que conheci aqui do Ayso Motociclismo e do Vitória MC estava insistindo para ir no encontro em São Mateus que é um dos principais no Espírito Santo. Para ser sincero isso para mim é de menos, importa sempre é a desculpa para pegar uma estrada, seja qual for. Mas estava um pouco apreensivo por pilotar com quem eu não sei como se comporta na estrada.
Não estou sendo rancoroso ou rotulando ninguém, mas no fim das contas cada um tem seu ritmo. E de tão mal acostumado por viajar sozinho, pensava se eu mesmo não seria uma má companhia. Bom, má companhia não fui, mas trouxe a chuva.
Combinamos de encontrar às 14:00 de sexta. Negociei uma folga no serviço, o tempo estava bom. Mas foi chegar no local de concentração e desce aquela garoazinha chata. O Chico me pergunta se não vou colocar capa de chuva. Cai alho! Esqueci em casa, deixa. Mas insistiu tanto que fui lá buscar e aproveitei para trocar o jeans surrado pela calça de cordura para evitar muita sujeira. Evitar mesmo nada, mas fica mais fácil de limpar depois.
Saímos de Vitória debaixo daquela garoa chata, mas nada impossível de sobreviver. De capa? Eu não. É engraçado que quando levo acabo não usando. E fomos até chegar em Fundão, uns poucos kms depois subindo a BR101. E o tempo secou. Maravilha, pensei, esse clima mais ameno e sem chuva. Perfeito, apesar do tempo ainda fechado.
Paramos uns 100km depois na metade do caminho. Teria ido direto se estivesse sozinho, mas é como falei, cada um tem seu ritmo e em grupo tem que respeitar o que o grupo decide.
Chegamos em Linhares e para nossa desagradável surpresa, a chuva resolveu apertar novamente. Dessa vez foi daquelas chuvas finas, que se acredita que não vai fazer diferença. E daí a pouco nada de diminuir a chuva. E depois escurece de vez. E aí caminhão jogando spray de lama na fuça. Bom, nessa altura do campeonato você que está aí se contornando no sofá pensando: “eu até queria comprar um moto”, vou ser sincero, não compre.
Mas como eu acho cada desaventura dessa um motivo para rir depois, lá estava eu e os demais completamente encharcados, se perguntando se não seria melhor fazer igual o camarada do sofá. Não seria não cai alho! Tomei vacina contra gripe exatamente para sobreviver nessas situações.
Chegamos e São Mateus estava debaixo d’água. As ruas onde estava o encontro alagadas. As ruas da pousada alagadas. Conseguimos chegar na pousada usando as calçadas porque na rua só de jetski. Diversão garantida. E chegar e ver o Viana sentado na varanda da pousada enrolado num cobertor foi o máximo. Depois de botar as roupas num varal improvisado e usar a água que ficou no coturno para encher a piscina, juntamos na entrada da pousada e improvisamos um churrasco, além de conhecer outros camaradas que também estavam na mesma pousada.
Por mim já estava de bom tamanho porque curto mesmo é a bangunça com a turma. Mas no dia seguinte, no sábado, fomos para o encontro, o tempo já estava firme lá em São Mateus. Quem veio de Vitória logo cedo nem pegou chuva, mas ao longo do dia ia chegando cada um mais ensopado que o outro devido a chuva na estrada. “Fantini, está chovendo para cacete!”. Tive que responder que ele não viu nada. Chuva de dia é mamão com açucar, de noite e com carreta, já é outro nível.
O encontro estava muito bem organizado, realmente faz jus a fama. Vale a pena. Bandas boas. Muita moto, muita loja de buginganga, muita gente. Muito bom. Saimos umas 10:00 da pousada e só voltamos às 03:00 da matina.
No domingo o povo me acorda desesperado. “Vamos embora mineiro que já são 10:00!”. Levantei correndo, tomei banho correndo, arrumei as coisas correndo, montei tudo na moto correndo e vendo todo mundo de boa, nenhuma moto montada, desconfiei. Olho o relógio, nem 08:30. Cai alho! Mas também tinham combinado de sair logo cedo por volta de 09:00.
O tempo estava agradável, nublado, mas sem chuva, temperatura no ponto. Vínhamos na maciota, 90-100km/h. Daí o estômago começou a reclamar da corrida na pousada para sair no horário. Devia ter me livrado de todo mal por lá mesmo. E agora ali no meio do nada em lugar algum. Segurei, mas não teve jeito, naquele ritmo de viagem e com a tarefa indelegável e a cada momento mais inadiável, não tinha jeito. Acelerei e deixei o povo para trás.
Encontrei um posto uns bons 50km depois. Suando frio. Aquela cara de mal encarado. É provável que o povo que estava no posto pensou, fudeu, o caboclo veio para quebrar a cara de alguém. Nem dei trela, corri para o banheiro e a vida ficou tranquila novamente. Lembrei do companheiro Nuanda e suas últimas crises de tarefa indelegável. Não é algo que se deseje ao seu pior inimigo.
Voltei para a estrada e fui reencontrar com o povo quase de volta em Vitória. Me desculpei por sumir do nada, mas depois de explicar o motivo entenderam. Ainda fechamos com um churrasco em um buteco de bairro.
Mas fique tranquilo que eu já estive sentado no sofá pensando em se comprava uma moto. A cada peripécia como as desse fim de semana, confirmo que foi uma boa decisão que tive.

