Prudens quid pluma niger secundum

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03/11/17 strange days ride

Era para ser só mais uma viagem de moto, coisa simples, uma voltinha qualquer para manter o ritmo e a mão firme.

Tanto tampo longe de Hellen Dawson que eu mesmo duvidava se ainda sabia se era a 1a para baixo e as demais para cima e só alegria.

Um breve conversa de boteco no Outbeth em Nacala-a-Velha com os companheiros portugueses, que também fizeram de Moçambique sua segunda casa, me demoveram da idéia de uma volta em Portugal com um pulo em Marrocos.

⁃ Fantini, ouve lá, novembro faz chuvas na terrinha, não há de ser bom.

Apesar de não me importar muito com chuva, eu bem preferia uma viagem à seco dessa vez. A Voortrekker já fora de bom tamanho para provar para mim mesmo de que chuva não é problema.

Para quem já me conhece, sabe o tanto que fiquei triste depois de tanto planejamento e verificação de hotéis, condições de estrada, onde comer bacalhau ao punho e todas as amenidades necessárias para viajar de moto.

Abri o browser e digitei: “onde viajar em novembro?”. Eu particularmente não sei como será o mundo do futuro, uma coisa para mim é certa, computadores saberão mais do que nós e lá na miríade de dados da nuvem a resposta era clara: dez opções diferentes de países que em novembro valeriam uma visita.

Lendo cada explicação dos porquês, clima, temperatura, comida, o que fazer, até um guia de expressões locais, me deparo com o Nepal na lista de países recomendados.

Entre tantas velharias que o Imperador me ensinou a escutar do velho e bom rock ‘n’ roll, Cat Stevens sempre foi algo bacana e eu viajava na música Katmandu:

⁃ Katmandu, I’ll soon be touching you. And your strange, bewildering time, will hold me down.

Fiz mais duas pesquisas (velho, num futuro próximo o próprio smartphone vai dizer: olha, achei essa passagem e essa empresa de aluguel de motos já que quer ir ao Nepal), e por mais incrível que possa parecer, achei passagem aérea num preço bom e três empresas diferentes de aluguel de moto. No Nepal!

Depois de algumas trocas de e-mail, a empresa Parikrama Treks & Expedition me chamou a atenção pela organização, referências e cordialidade. Uma rápida confirmação na Skyscanner e voi-a-la, tudo no esquema.

⁃ Como assim, tudo no esquema, Fantini? Cadê hotel, qual trajeto?

⁃ Velho, eu pedi para dar uma volta no Nepal de moto e a turma da Parikrama me perguntou se eu sabia pilotar, que o resto era com eles.

Sensacional. Aliás mais que agradecido ao Sr Kumar Basnet e ao companheiro de viagem Sr Sujan Basnet que me trataram como príncipe. Eles até comentaram que se tivesse vindo em Setembro, tem uma excursão que fazem todo ano para o Base Camp Norte do Monte Everest que se alcança através do Tibet. Sim, se chega lá de moto. O famoso Base Camp Sul do lado do Nepal, só na caminhada assassina morro acima de 8 dias com paradas para aclimatação e carregando suas tralhas nas costas.

Mas lá estava eu sentando no aeroporto de Nampula / Moçambique, esperando o tempo passar, duas pernas de vôo depois lá estava eu no terminal C do aeroporto de Dubai / EAR, esperando o vôo para Kathmandu. Que choque cultural ver aquela mistura de gente da India, Casaquistão, Rússia e toda a sorte de leste europeu, mundo árabe e Ásia. Quando falo que viajar é melhor que comprar sofá, é por causa desses momentos.

Em Kathmandu, o visto se faz no próprio aeroporto. Há vários terminais para emitir o pedido de visto na hora, uns caixas para pagar a taxa de usd25,00 e depois só se apresentar no guichê de imigração com todos os comprovantes. Processo simples, único porém que uma centena de gringos fizeram a mesma pergunta que eu sobre onde ir em novembro e também devem escutar Cat Stevens. Duas horas de fila para um esquema que se gastou 1 min efetivo em cada etapa, foi muito.

A equipe da Parikrama já estava a minha espera e me levaram ao hotel. No dia seguinte já me trouxeram a moto para um test-ride em Kathmandu: “para acostumar com o tráfego”, segundo Sujan. Velho, lembre de todos os vídeos de trânsito nos países asiáticos que já recebeu. Agora imagine-se dentro do trânsito. Agora está aqui o carismático Fantini, vivendo isso na real. Surreal. Não tem sinal, não tem placa, não tem preferência e ainda assim funciona e flui. Só na prática para compreender como é possível.

Ponto para a moto, uma Royal Enfield Classic 500cc. Confortável, robusta, leve e boa de conduzir. Apesar de seu visual clássico oriundo de design da época da guerra mundial, o conjunto é bem ágil e responde bem aos comandos, o que tornou um pouco menos apavorante a experiência do trânsito caótico.

Depois da devida introdução à milenar arte de usar um veículo automotor no trânsito asiático, começou o devido passeio. Arredores de Kathmandu e depois a estrada no dia seguinte, conhecendo as cidades e a cultura ancestral do Nepal. Suas belas paisagens cercadas de montanhas da cordilheira do Himalaia, caminhões coloridos com suas buzinas musicais, estradas vicinais subindo e descendo serras infinitas, estradas sem pavimento, toda a sorte de gente andando a pé ou tocando búfalos e cabras. Sim, búfalos, a vaca é um animal sagrado e substituíram por búfalos.

⁃ Mas não é praticamente a mesma coisa, Fantini?

⁃ Eu também acho, mas você realmente vai discutir a cultura milenar dos caboclos?

Em Kathmandu conhecemos o centro antigo Hanuman-dhoka Durbar Square com templos e “capelas” em toda esquina e o complexo Buddhapari. Uma pena que o terremoto de 2015 danificou muita coisa e destruiu completamente dois templos.

De Kathmandu partimos para Bhaktapur para conhecer a antiga capital também cheia de templos. De lá terminamos o dia em Nagarkot. Logo na chegada de Nagarkot, havia uma trilha para um templo, 20 min de pedras, valas e raízes e ainda me acostumando com a moto, carregando bagagem, me demoveram da ideia de continuar. Provável que tenha perdido algo espetacular, mas era melhor do que comprar terreno.

De Nagarkot seguimos para Bandipur, não sem antes me perder do Sujan no meio do trânsito caótico na saída para a rodovia. É muita poeira e caminhões e ônibus. Afinal, a aventura só começa quando algo dá errado. Dois telefonemas para confirmar se estava na direção certa, encontrei Sujan e alcançamos nosso destino. Bandipur é muito simpática e criaram um calçadão central onde não passa carros e tem vários restaurantes com comida típica. Gostei de lá, me trouxe lembranças das cidades do interior de Minas Gerais.

E tome cerveja local Gorkha (excepcional) e o tira gosto Sadeko, que pode ter várias opções de base (amendoim, grão de soja ou outra semente crocante) numa mistureba de tomate, pepino, cebola, alho, gengibre, coentro, pimenta, tudo picadinho e um sumo de limão por cima. Velho, cura gripe, sinusite, olho seco, afta, unha encravada, bico de papagaio, acorda defunto, entre outras coisas. O único efeito colateral é que arranca o couro da língua de tão apimentado que é.

De Bandipur partimos para Pokhara. Pokhara é a segunda maior cidade do Nepal e um hub turístico famoso. Realmente a cidade tem uma gama completa de passeios: um lago para pegar canoas, o topo de Sarangkot com vista espetacular do conjunto Annapurna, paraglide, ultraleve, helicóptero, trekking até Base Camp do Annapurna (só 5 dias de caminhada, fácil), no topo do outro morro uma das 70 Peace Pagodas que o zen budismo japonês construiu mundo afora, lojas e mais lojas.

Inclusive as lojas foram providenciais. As luvas da época de trilha que tenho a quase 10 anos, que estava usando junto com a velha jaqueta nas voltas malucas fora do Brasil, finalmente cederam a tanta estrada e poeira. Acabei encontrando um par de luvas confortável por usd6,00. Acho que no Brasil, só pela marca, cobrariam uns R$100,00.

E naturalmente que outra coisa boa era a quantidade de botecos. Começamos em um na beira do lago, partimos para outro na rua principal, desse atravessamos a rua para outro que tinha música ao vivo (banda muito boa com uma mescla de rock mundial e local) e de lá fechamos num pub com palco e tudo com outra banda tocando rock clássico. Fino.

De Pokhara seguimos para Lumbini. Seria o trecho mais longo. Mais de 5h para fazer uns 200 e poucos km. Curvas e mais curvas numa estrada de serra infinita. Literalmente contornamos todas as montanhas possíveis. E lógico que rolou aquele caminho errado básico quase chegando. Dai só mais 1h para encontrar o hotel. Mas compensou demais, pedaço de estrada muito fino.

Lumbini é conhecida por ser a cidade onde nasceu Siddhartha Gautama, sim o Buddha. Para ser sincero, não tem nada na cidade, nem traços do reino que ele renunciou. O único passeio é um complexo de templos e monastérios budistas dentro de um parque fechado. O cansaço foi mais forte e preferi um boteco de leve.

De Lumbini seguimos para Chitwan, como estávamos na parte baixa do Nepal, dessa vez praticamente só retas no trecho e foi possível verificar a velocidade final da Royal Enfield alcançar a marca de 100km/h, onde a estabilidade fica bem comprometida e é possível sentir princípios de chimada. Além disso, a própria condição da estrada, trânsito, animais, pessoas e outros obstáculos na pista, indicavam a cautela de manter a máxima em 80km/h.

Em Chitwan há uma reserva nacional para proteção da floresta. Ponto alto para o passeio de canoa no rio com crocodilos descansando nas margens, alheios (ainda bem) à nossa presença, e o passeio de elefante floresta adentro. Bacana demais, inclusive com a oportunidade de ver 3 rinocerontes asiáticos ali de boa. Faltou o tigre, apesar de vários sinais de sua presença próxima.

De Chitwan partimos para Gorkha, cidade encravada no topo de outra montanha.

Neste trecho tivemos a pior estrada de toda a viagem. Um trecho de 50km do total de 160km estava completamente sem pavimento, o que não era bem o problema. O tenso foi o trânsito parado neste mesmo trecho em ambas as pistas. Foram 3h de muita poeira, ziguezagues infinitos, atravessando “acostamento”, buscando espaços inexistentes nos corredores. Com o cansaço, a tensão, o calor, consegui perder o equilíbrio em dois ziguezagues em baixa velocidade que apesar do tombo, não houve nenhum estrago, a não ser um espelho retrovisor.

Já o pobre Sujan não teve a mesma sorte e numa ultrapassagem entre a fila de carros e motos, pegou uma sequência de valas e caiu feio. Quebrou somente o farol, um empeno no pedal e uma leve luxação no tornozelo que não impediram de seguirmos viagem. Felizmente.

Principal atração em Gorkha é o antigo palácio do rei que unificou o Nepal, até então vários reinos separados, em um único reino de onde o país se originou.

⁃ Ah, Fantini, achei que a atração seria a fábrica da cerveja Gorkha que comentou.

⁃ Eu também, que decepção!

De Gorkha seguimos para Daman em outro topo de montanha. Assim pegamos mais um maravilhoso trecho de serra e estradas vicinais com suas curvas infinitas.

O único porém foi um desinfeliz de um policial que numa barreira improvisada pouco após sairmos de Gorkha, apesar de ter reduzido bem a velocidade, o desinfeliz me entra na frente da moto, de costas para mim, caminhando de boa. Na frenagem para evitar atropelar o boca aberta, os freios travaram e fui ao chão. Bom, só o susto e leve escoriação, com certeza teria sido mais grave se atropelasse o infeliz.

Em Daman, além de uma vista panorâmica da cordilheira do Himalaia, finalmente tivemos frio de verdade na viagem toda. Realmente novembro é uma boa época para visitar o Nepal, com temperaturas amenas na manhã e noite e dias ensolarados.

Daman foi a última cidade dessa peripécia asiática. Havia mais um destino, mas verificações prévias indicando falta de condições do trecho para transitarmos, nos obrigou a eliminar a opção da lista. Assim voltamos a Kathmandu em 25km de muita emoção, com direito àquele trânsito divertido de chegada de cidade, mas sem pavimento, sem placa, sem sinal. Se você acha a Marginal Tietê tenso, você ainda não conheceu esse trecho que faria Freddie Kruger se deliciar em opções para a hora do pesadelo. De qualquer maneira os 10 dias conduzindo a Royal Enfield nas mais diversas condições me deixou menos barriga verde e foi possível acompanhar o Sujan no trânsito caótico sem o perder de vista.

Nos dois dias que restaram da programação, aproveitei para fazer o Mountain Flight e pegar uma vista de cima do Himalaia, que espetáculo, e perambular pelas ruas do famoso bairro Thamel, lotado de lojas e mais lojas de bugingangas e lembranças. Fechamos a viagem com um boteco nesse bairro com mais uma banda tocando o bom e velho rock ‘n’ roll. Aí tira gosto de leve, algo similar ao nosso frango a passarinho, pego um pedaço de pimenta sem ver. Velho, até chorei. Ainda bem que tinha Gorkha.

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Mais de 24h de viagem entre Moçambique e Nepal, atravessando 4 aeroportos, 3 fusos horários, 14 dias, 9 cidades, 952km, um zilhão de curvas fechadas. Nepal, território anexado. RFEIM / CdGP / DACS.

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17/05/16 novas pontes

Para mais de ano, comentei aqui sobre a importância da construção de pontes nas nossas relações sociais. Alguém mais afobado vai dizer que isso é muito fácil em se tratando do Fantini. Não só veemente nego, como assumo que isso faz parte de uma decisão pessoal de transformação. Eu era um cara fechado e resolvi não ser mais e sei como não é fácil criar pontes.

Mas você já está aí encucado porque queria ler alguma aventura ou peripécia após longo tempo sem que o humilde aqui escrevesse uma frase sequer é dá de cara com esse papo furado de livro de auto-ajuda.

Pois bem, existe todo o mito de que andar de moto transforma a pessoa. Posso afirmar que te transforma numa pessoa mais suja depois de 1h debaixo de chuva com caminhões levantando água suja na Serra do Cafezal na Regis Bittencurt ou mais fedorenta após 1h no asfalto escaldante da região sul de minas quando entre 11:00 e 14:00 você está lá no meio da Fernão Dias.

Dizer que andar de moto vai te tornar uma pessoa mais legal, somente porque agora tira fotos de tirar o fôlego na estrada. Fotos são para ter boas lembranças, mesmo se for usar os filtros de algum aplicativo para melhorar as fotos de celular.

Foto de paisagem e comida. Duas vezes mais hipster.

Foto de paisagem e comida. Duas vezes mais hipster.


Depois desse tempo razoável sobre duas rodas (e desejo que ainda continue por muito mais tempo, afinal temos que alcançar o Ghan), descobri que ando de moto é para atravessar pontes e alcançar algum amigo, antigo ou novo, que o caminho da vida foi me apresentando para filar comida. Sério.

O famoso Ghan, reza a lenda que aprendou o sorriso interior em Cleveland

O famoso Ghan, reza a lenda que aprendou o sorriso interior em Cleveland

Em todas as viagens e passeios em que não estava caçando alguma estrada nova (onde normalmente estou sozinho), foi para visitar alguém e filar um rango, uma cama e uma ducha. Agora eu lhe pergunto: isso é realmente uma tremenda cara de pau que inventei ou porque tive a felicidade de encontrar pessoas que o santo bateu?

É assim vamos tocando a toada, fazendo aquilo que o ser humano como ser social sempre fez: se relacionar, receber e ser recebido, pavimentando pontes através do respeito, mas que para os habitantes das grandes cidades é a última novidade ou trend, porque essa vida corrida e isolada os fez esquecer disso.

Um agradecimento especial a todos os amigos que me receberam nos últimos dias: Guy Correa em Formiga MG, Tiago Conte em Conselheiro Lafaiete MG, Ghan e família em São José dos Campos SP e Agnelli Cordeiro em Curitiba PR. E naturalmente desculpas aos que não pude visitar neste mesmo período. Não faltarão oportunidades!

Com a benção daquele que tem a pena preta!

Com a benção daquele que tem a pena preta!


Foram 1 semana e alguns dias, 3 estados, 7 cidades, 10 rodovias, mais de 3.000km.

01/01/15 The voortrekker 06

Acordei por volta de 09:00 do dia 01/01 e depois da tarefa indelegável e de um bom banho, arrumei as tralhas e já estava de partida por volta de 11:00. Não vi o Chico e só mais tarde trocamos mensagens, mas fica aqui o abraço e agradecimento pela estadia.

Saída para a estrada N1

Saída para a estrada N1

A estrada N1 que liga Cape Town e Joanesburgo tem aproximadamente 1.400km e por mais que a oportunidade de um “iron butt” era interessante, estava meio tarde para tanto. E se dessa vez não teve chuva, a volta do calor quase de deserto tornou a estrada infindavelmente reta um desafio a mais.

Logo na saída de Cape Town, se atravessa uma região de montanhas

Logo na saída de Cape Town, se atravessa uma região de montanhas

Esse é um dos motivos pelos quais considero viajar de moto algo espiritual. Não se sabe o que teremos pela frente. Ok, tudo aqui era novidade, não é isso. Mesmo em estradas conhecidas, o clima, a estrada em si, que tipo de paisagem, tudo isso ocorre ao largo de nosso controle e exceto pelo destino que se aponta e pela hora que se decide partir, tudo o mais existe indiferente da nossa presença. E isso, em minha pequena opinião, é uma grande lição de humildade.

O kilométrico túnel sob as montanhas

O kilométrico túnel sob as montanhas

 

Região das vinículas

Região das vinículas

 

Outra vinícula. Engraçada que nenhuma tinha o nome para saber qual vinho produzia

Outra vinícula. Engraçada que nenhuma tinha o nome para saber qual vinho produzia

 

Um reta sem fim e o tempo quente e seco

Um reta sem fim e o tempo quente e seco

Aproveitando para fugir do calor por alguns instantes

Aproveitando para fugir do calor por alguns instantes

 

 

 

A preocupação é genuína, muito calor na estrada

A preocupação é genuína, muito calor na estrada

 

As nuvens esqueceram de fazer sombra e queriam somente aparecer na foto

As nuvens esqueceram de fazer sombra e queriam somente aparecer na foto

Paisagem agreste

Paisagem agreste

Mas com sua beleza própria

Mas com sua beleza própria

Já eram mais de 17:00 e o sol castigando como se fosse meio dia

Já eram mais de 17:00 e o sol castigando como se fosse meio dia

A única nuvem que teve pena deste humilde vivente

A única nuvem que teve pena deste humilde vivente

A sombra comprida sinalizava a chegada do pôr do sol

A sombra comprida sinalizava a chegada do pôr do sol

E assim tivemos um belo pôr do sol na estrada por volta das 19:30 e finalmente pousamos na cidade de Colesberg.

O primeiro pôr do sol do ano

O primeiro pôr do sol do ano

Pôr do sol na estrada é sempre algo mágico

Pôr do sol na estrada é sempre algo mágico

No dia 02/01, mais uma madrugada insone para assistir a aurora e de energia renovada alcançar Joanesburgo por volta de 11:00.

Saindo de Colesberg

Saindo de Colesberg

A caminho de Johanesburgo

A caminho de Johanesburgo

O prazer de ver uma aurora, não importa onde se está

O prazer de ver uma aurora, não importa onde se está

O majestoso sol iniciando um novo dia

O majestoso sol iniciando um novo dia

Novamente a paisagem agreste

Novamente a paisagem agreste

De volta à província de Gauteng

De volta à província de Gauteng

Após um providencial almoço, devolvi a moto para o pessoal da Motorrad Executive Rentals e descobri que fui um dos clientes que mais rodou em tão pouco tempo ao redor da África do Sul. Nada mal. Agora é pegar o ônibus de volta a Maputo, de lá o vôo para Nampula e finalmente a van até Nacala.

O pessoal não acreditou quando falei que ia rodar muito com a moto

O pessoal não acreditou quando falei que ia rodar muito com a moto

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Três rodovias nacionais, cinco cidades, sete províncias, dez dias, 4.266km. África do Sul, território anexado. RFEIM / CdGP / DACS.

29/12/14 The voortrekker 05

Ainda eram umas 14:00 do dia 28/12 quando cheguei em Cape Town e larguei as tralhas no Atlantic Point. Depois de um banho quente, aproveitei a boa localização do hostel e dei um pulo a pé em Cape Waterfront.

Me lembrou, guardadas as devidas proporções, o conceito de renovação do Cais das Docas em Belém do Pará. Enquanto lá aproveitaram um dos galpões para criar um misto de lojas e botecos, aqui pegaram praticamente todo o porto antigo (há um novo construído bem ao lado) e transformaram em atração turística para todos os gostos.

Shoppings, lojas de artesanato, restaurantes, mercado, botecos, prédios antigos restaurados, passeios de barco e helicóptero, tinha até pedinte e ripongas. Ah, os ripongas eram turistas também, nem me ofereceram artesanato.

Prédio do antigo posto de administração do porto

Prédio do antigo posto de administração do porto

No dia 29/12 resolvi rodar de moto até a Table Mountain e descobri que o topo mesmo só no bondinho (fila impossível) ou trilha (estava sem roupa adequada) e me contentei com a vista ali do meio do morro que já era surreal.

No pé da Table Moutain

No pé da Table Moutain

Para chegar no topo tinha que pegar o bonde

Para chegar no topo tinha que pegar o bonde

Lion's Head e Signal Hill

Lion’s Head e Signal Hill

Aproveitei para ir na Signal Hill, onde há um mirante bacana e de lá aprumei para Camps Bay, a praia badalada da cidade (não, não entrei no mar, rsrs). A noite foi reservada para a tal Long Street e seus botecos na companhia do povo do hostel.

Vistas de Cape Town

Vistas de Cape Town

Vistas do Estádio e Water Front a partir da Signal Hill

Vistas do Estádio e Water Front a partir da Signal Hill

Table Moutain a partir da Signal Hill

Table Moutain a partir da Signal Hill

Caminho alternativo para Camps Bay

Caminho alternativo para Camps Bay

 

Vistas de Camps Bay

Vistas de Camps Bay

 

Camps Bay

Camps Bay

 Dia 30/12, o Chico mais um casal de brasileiros chamaram para ir ao World of Birds em Hout Bay, na ida de ônibus vi aquela paisagem de filme com um estrada cortando o morro na beira do mar (já tinha passeio no dia seguinte). Fechamos com o pôr do sol em Camps Bay (fodástico) e um churrasco leve no hostel.

 

Paisagem de filme

Paisagem de filme

 

Relativa longa caminhada

Relativa longa caminhada

 

Travessia estelar

Travessia estelar

 

No ninho da coruja

No ninho da coruja

Qual é?!? Me deixa aqui de boa.

Qual é?!? Me deixa aqui de boa.

 

Pôr do sol em Camps Bay

Pôr do sol em Camps Bay

Acho que não dá para ver isso do sofá da sala

Acho que não dá para ver isso do sofá da sala

Dia 31/12 era a despedida, portanto tinha vários pontos a visitar. Comecei com a estrada entre Camps Bay e Hout Bay, só para ficar lá babando. Em seguida peguei o caminho para o Parque de Cape Point, onde fica o famigerado Cabo da Boa Esperança e na outra ponta o farol que separa os dois oceanos, Atlântico e Índico. Lugares fantásticos. O parque todo inclusive.

A caminho de Hout Bay a partir de Camps Bay

A caminho de Hout Bay a partir de Camps Bay

A caminho de Hout Bay

Vista de Hout Bay

Hout Bay

Noordhoek Beach

 

De repente estamos no interior de Minas de novo.

De repente estamos no interior de Minas de novo.

Simon's Town, já quase na boca do Parque de Cape Point

Simon’s Town, já quase na boca do Parque de Cape Point

Resolvi pegar uma rota alternativa

Resolvi pegar uma rota alternativa

 

Sim, você está vendo uma bateria anti navios

Sim, você está vendo uma bateria anti navios

Uma base da marinha

Uma base da marinha

De volta ao vórtice espaço temporal Minas Gerais

De volta ao vórtice espaço temporal Minas Gerais

Portão principal do parque

Portão principal do parque

Paisagem "continental" do parque

Paisagem “continental” do parque

Seguindo em direção ao farol

Seguindo em direção ao farol

 

Subindo um zilhão de degraus até o farol

Subindo um zilhão de degraus até o farol

E ainda falta mais degrau até o farol

E ainda falta mais degrau até o farol

 

Aí você descobre que o farol não funciona, o real é outro mais além.

Aí você descobre que o farol não funciona, o real é outro mais além.

O farol real lá no pé da encosta do outro lado

O farol real lá no pé da encosta do outro lado

Mas a vista compensou. Para se ter uma idéia, cheguei por aquela estrada no canto direito

Mas a vista compensou. Para se ter uma idéia, cheguei por aquela estrada no canto direito

Quando se tenta bancar um fotógrafo e tirar uma foto para postal

Quando se tenta bancar um fotógrafo e tirar uma foto para postal

A trilha segura até o farol real. Me lembrou algumas trilhas que fiz de moto em Macacos MG

A trilha segura até o farol real. Me lembrou algumas trilhas que fiz de moto em Macacos MG

O outro lado do farol antigo

O outro lado do farol antigo

Quase um "tilt shift" sem querer não fosse o dedo do fotógrafo

Quase um “tilt shift” sem querer não fosse o dedo do fotógrafo

Chega de farol e vamos para o Cabo da Boa Esperança

Chega de farol e vamos para o Cabo da Boa Esperança

Estradinha na beira do oceano. De leve.

Estradinha na beira do oceano. De leve.

Olha ele aí, Cabo da Boa Esperança

Olha ele aí, Cabo da Boa Esperança

E você achava que só ia vê-lo nos livros de geografia e história

E você achava que só ia vê-lo nos livros de geografia e história

Despedindo do parque de Cape Point, lugar fantástico

Despedindo do parque de Cape Point, lugar fantástico

 

Voltando para Camps Bay pela Chapman's Peak Road

Voltando para Camps Bay pela Chapman’s Peak Road

E você achava que só veria estrada assim em filme

E você achava que só veria estrada assim em filme

 

Olha aonde a estrada passa, surreal

Olha aonde a estrada passa, surreal

Hout Bay lá no fundo

Hout Bay lá no fundo

 Voltei pois tinha comprado um ticket do bonde da Table Mountain e não ia perder essa. De certa maneira, noves fora e tudo o mais, cheguei no final do dia para poder acompanhar o espetáculo do ultimo pôr do sol do ano, do topo da montanha e com o sol se pondo no mar. Eu nem tenho palavras.

Esperando o bondinho para subir a Table Moutain

Esperando o bondinho para subir a Table Moutain

 

Vista da Lion's Head e Signal Hill de dentro do bonde

Vista da Lion’s Head e Signal Hill de dentro do bonde

Maquete da Table Mountain

Maquete da Table Mountain

Vista de Cape Town a partir da Table Mountain

Vista de Cape Town a partir da Table Mountain

Vista de Camps Bay a partir da Table Mountain

Vista de Camps Bay a partir da Table Mountain

O último pôr do sol do ano

O último pôr do sol do ano

 

Fechando com chave de ouro

Fechando com chave de ouro

 Ainda cheguei a tempo de acompanhar o povo do hostel para a virada do ano. Eu já estava satisfeito e com a cabeça no retorno, mas já que o Chico conseguiu uma mesa de graça num boteco próximo, custava nada ir lá devolver o agrado pagando a bebida.

Como diria Maquiavel, “la virtù, la fortuna”.

Continue seguindo a saga The Groot Trek aqui.

28/12/14 The voortrekker 04

Você acorda com aquele cheiro de mofo no quarto de quinta categoria e agradece por ao menos ter uma cama para descansar. São 04:00 da matina de 28/12 e depois de organizar as tralhas, você repara no tempo nublado e já espera outro dia debaixo de chuva.

Ao menos posso contar vantagem que passei frio na África do Sul e ninguém vai acreditar.

Saída de Port Elizabeth

Saída de Port Elizabeth

Seriam mais 770 km ainda na N2 entre Port Elizabeth e Cape Town (o destino final dessa empreitada). E em pouco tempo já estava encharcado novamente e concentrando todo o meu ki para suportar o frio sem tremedeira.

Para os mais puritanos não foram exatamente o ABS ou o controle de tração da BMW os principais responsáveis pela segurança nestes dois trechos debaixo de chuva, mas sim a manopla com aquecimento. Lembro do caboclo da Motorrad Executive Rentals sendo categórico de que eu não precisaria deste item.

Mas o real desconforto que a chuva trouxe foi impedir apreciar com mais calma a paisagem em volta, ouso dizer uma das estradas mais bonitas em que pilotei. Em vários pontos foi impossível parar para tirar mais fotos e se for para alguma vez reclamar de chuva na estrada, essa seria uma.

Um dos viadutos sobre as encostas do Parque Tsitsikamma

Um dos viadutos sobre as encostas do Parque Tsitsikamma

Reza a lenda que o povo faz bungee jumping nesse penhasco.

Reza a lenda que o povo faz bungee jumping nesse penhasco.

Aproveitando os poucos trechos em que a chuva deu trégua

Aproveitando os poucos trechos em que a chuva deu trégua

A grama do vizinho não é tão verde assim.

A grama do vizinho não é tão verde assim.

No pé da última serra.

No pé da última serra.

E o tempo ruim foi nos acompanhando até subir e atravessar a ultima serra para finalmente encontrar o poderoso céu azul nos últimos 50 km até Cape Town. Provavelmente não teria o mesmo sentimento de “chegar num lugar fantástico” não fosse a chuva nos últimos dois dias. Até porque bastou 15 min para ficar completamente seco.

Tchau chuva!

Tchau chuva!

Talvez isso explique porque vale a pena viajar de moto debaixo de chuva.

Talvez isso explique porque vale a pena viajar de moto debaixo de chuva.

A famigerada Table Mountain

A famigerada Table Mountain

Mandei uma mensagem para o Chico, o amigo de Belo Horizonte que resolveu passar um meio ano sabático em Cape Town. Ele acabou angariando uma vaga no hostel onde está trabalhando, o Atlantic Point Backpackers, e assim cancelei a reserva que havia feito em outro hostel.

Fantini, dessa vez você teve sorte. Nada. Até agora, toda a sorte de acontecimentos foram dominados e transformados em oportunidades.

Encontrando com o Chico

Encontrando com o Chico

Bom e Cape Town? Cape Town vale toda e qualquer artimanha que você crie para vir aqui visitar, seja meio ano sabático, seja aproveitar que já está por estas bandas. Recomendo.

Vistas do Water Front

Vistas do Water Front

Passeando pelo Water Front

Passeando pelo Water Front

A proposta de renovação do antigo porto foi muito interessante

A proposta de renovação do antigo porto foi muito interessante

Prédio do antigo posto de administração do porto

Prédio do antigo posto de administração do porto

Torre do relógio do porto

Torre do relógio do porto

Table Mountain com seu forro de nuvens

Table Mountain com seu forro de nuvens

Capitão Michael Jakson

Capitão Michael Jakson

Da série somente em Cape Town

Da série somente em Cape Town

Para fechar o dia

Para fechar o dia

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27/12/14 The voortrekker 03

Havia chovido bem na noite anterior e o tempo amanheceu nublado no dia 27/12. O trecho de hoje entre Durban e Port Elizabeth seria o mais comprido, com praticamente 900 km e um clima mais ameno era bem-vindo. Novamente acordo 04:00 da matina e antes das 05:00 já estava na estrada N2 rumo ao meu destino.

Partindo pela manhã

Partindo pela manhã

Para minha ingrata surpresa começou a garoa fina, dai a pouco a chuva e finalmente chuva forte. Ao longo da viagem toda ficou variando entre nublado, chuva fina e chuva forte. O incauto já deve estar pensando aí o saco de parar toda hora para colocar e tirar a capa de chuva. E aí que lhe pergunto: “Que diabos de capa de chuva?!? Tipo a que está guardada lá em Vitória?”

Tempo nublado

Tempo nublado

De vez em quando a chuva dava uma trégua

De vez em quando a chuva dava uma trégua

E assim em cada parada para abastecer e comer alguma coisa, eu era a atração geral, com a menina da faxina secando o chão por onde eu caminhava. Quase ofereceram uma placa de “cuidado, piso escorregadio” para eu levar comigo.

E quando eu ia praguejando o frio úmido, na subida de uma serra desce aquela neblina fechada. Não sei se foi mais difícil adivinhar o que havia a frente ou segurar a tremedeira para não desequilibrar a moto. E para você que ao passar por isso, estaciona a moto, desiste e clama pelos deuses porque amarga sina, continuei um pouco mais somente para encontrar a visão do paraíso.

Paisagem insólita

Paisagem insólita

Sim, bem aqui no meio da África do Sul tinha aquilo que qualquer mineiro mais se alegra, um’paisage assim iguazin mina’geraes, sô. Iguazin dimai’da’conta. Trem’bão’dimais, ten’basi’naun!

Uai, sô, só’faltô us’cumpadi, u’forn’di’lenha i daquel’amarguinha. Ai’ia’cê assim, bão’dimai’da’conta.

África Gerais

África Gerais

Minas do Sul

Minas do Sul

A partir daí, recarregada a energia com aquela insólita paisagem, que se dane o trânsito caótico em três cidades de beira de estrada (igualzin Manhuaçu, Uai) e a chuva que nos acompanhou até pouco antes de chegar a Port Elizabeth por volta de 17:30. Pensei naquele banho quente e encontrar um boteco bacana.

Na boca de Port Elizabeth

Na boca de Port Elizabeth

Primeiro hotel que o GPS indicou não existia. O segundo lotado. Assim o terceiro, o quarto, o quinto, o quinto dos infernos, todos lotados. Tentei os hostels e nada. Que diabo de lugar é esse?!? Parece que a reforma da beira da praia deu um glamour e virou a febre do momento.

Nisso já era quase 19:00 e eu lá sem um pouso. Resolvi procurar nos hotéis mais distantes e lá fui seguindo o GPS que me entregou numa boca de fumo do capeta. Tenso. Procurei outros hostels nesse pedaço mais afastado e nada, nisso volta a chuva.

Confesso que fiquei preocupado e depois de mais algumas tentativas em vão, achei um motel tosco, chamado Hunter’s Retreat, numa estrada vicinal, não fazia a mínima idéia de onde estava e foi lá que fiquei já por volta de 21:00 todo encharcado.

Para minha alegria não tinha chuveiro, somente uma banheira tosca. Enchi ela de água quente e mergulhei no banho turco. A roupa não teve jeito, muito encharcada, torci do jeito que deu já sabendo que não secaria (ao menos tinha outra muda de calça jeans e camisa).

É meu amigo, vá jogar banco imobiliário no conforto de casa, viajar de moto é mais tenso que cair no Jardim Europa com 04 hotéis. Pensando bem, ao menos no banco imobiliário teria hotéis.

De Durban a Port Elizabeth

De Durban a Port Elizabeth

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26/12/14 The voortrekker 02

Johanesburgo e a África do Sul em geral são locais de disparidade social profunda e mesmo que Mandela tenha feito realizações importantes ao acabar com o apartheid, fica claro que ainda há um longo caminho entre o conforto de Sadton e a decadência do velho centro.

O importante é que a organização herdada dos ingleses é algo muito útil ao país e é visível o tanto que as coisas funcionam bem. Ponto para as estradas, tudo bem que peguei as três principais nessa aventura, N1, N2 e N3, mas as secundárias não deixam a desejar conforme relatos de outras pessoas.

Então vamos a estrada de vez? No dia 26/12, agradecido pela acolhida do Tinoco e família, acordei as 04:00, juntei as tralhas na moto e fui. O destino do dia seria a cidade de Durban através da N3, onde há a maior população indiana fora da Índia. A explicação? Na época os ingleses precisavam de trabalhadores nas fazendas de cana de açúcar e os africanos se recusaram, resultando numa das primeiras importações de mão de obra da história.

Saída para Durban

Saída para Durban

Diante do calor razoável, a paisagem ia se abrindo a minha frente. Confesso que levou algum tempo para cair a ficha: “estou pilotando pela África do Sul, cai alho!”. E o misto de crença e descrença, sonho e realidade, se materializavam em morros nunca vistos e um tapete de asfalto cinzento.

Morros nunca vistos até então

Morros nunca vistos até então

E nessa batida, lá ia eu em meio as caravanas de picapes, vans, ônibus, todos puxando um trailler ou carretinha. A turma aqui gosta mesmo dos esquemas aventura no meio do mato. Inclusive, não faltam lojas com esta finalidade. Prato cheio para quem curte um camping.

Depois que a ficha cai, ainda é surpreendente

Depois que a ficha cai, ainda é surpreendente

Pilotando na mão inglesa

Pilotando na mão inglesa

Meu tapete vermelho é o asfalto

Meu tapete vermelho é o asfalto

O GPS (assim como na Malásia, preferi o ajudante para indicar o caminho dentro das cidades) me entregou no centro de Durban e infelizmente não consegui um ponto para parar e tirar fotos dos prédios. Havia gente demais nas ruas, bem como carros e vans (o transporte público daqui) demais e estava perigoso. Uma pena, é uma arquitetura que merecia registro para ajudar a lembrança depois, paciência. Achei uma das praias sem querer e peguei um hambúrguer de lanche. O Dedé vai reclamar, mas não, não entrei no mar. Ainda precisava achar uma cama e assim encontrei o Smith’s Cottage num topo de morro. Lugar simpático e os donos muito atenciosos. Até ganhei uma lavagem grátis das roupas.

Na orla de Durban

Na orla de Durban

Aproveitei o resto de tempo livre (já tinha decidido por acordar cedo no dia seguinte e continuar viagem) para conhecer um ótimo restaurante italiano e um pub fino nos arredores.

Smith's Cottage

Smith’s Cottage

Da série em Durban e nunca mais

Da série em Durban e nunca mais

Boa também

Boa também

 Tinha saído por volta de 05:00 da manhã de Joanesburgo e alcancei Durban por volta de 15:00, uns 575 km depois.

De Johanesburgo a Durban pela N3

De Johanesburgo a Durban pela N3

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22/12/14 The voortrekker 01

Já era 30/12 quando uma das hóspedes do hostel em que estava em Cape Town viu minha tatuagem no braço esquerdo e perguntou o que significava. Embora ela não conhecesse “O Príncipe” de Nicolai Maquiavel, compreendeu o motivo da tatuagem indicar “La Virtù, La Fortuna”, ou a virtude e a sorte. Maquiavel, embora mal interpretado, é claro ao dizer que ao príncipe virtuoso não importa a sorte, ele dominará qualquer oportunidade.

E assim lá estava eu, vindo a trabalho em Moçambique, um país ainda em construção, não teve como retornar ao Brasil no período de Natal e Ano Novo. Mas como precisava carimbar o meu visto e assim sair do país, estava lá uma oportunidade a ser dominada.

Naturalmente que você já sabe que o Fantini planeja em detalhes toda e qualquer viagem de moto, tipo aproveito uma data, vejo quantos dias disponíveis, olho o mapa, quantos km e pronto.

Mas e o hotel?!?! E a moto?!? Detalhes. Para quem conhece a sina de mochileiro, sabe muito bem que não faltam albergues com uma cama disponível, mesmo no feriado mais badalado e mesmo para um destino muito procurado. Assumo que só fiz a reserva em Joanesburgo e Cape Town por insistência de um amigo e a contra gosto. Já as demais cidades do caminho, mantive o que sempre fiz, chego lá e procuro um lugar para dormir. Particularmente só tive dificuldade em Port Elizabeth.

A moto foi outra história e ponto para o pessoal da Motorrad Executive Rentals, não só atenderam meu pedido de última hora, como me entregaram uma moto em perfeitas condições. Uma BMW F700GS, que de início me senti desconfortável, mesmo sendo o modelo rebaixado de fábrica, por não conseguir apoiar bem os pés. Ao longo da viagem, se mostrou um conjunto excelente de mecânica e para o desespero do Nuanda, sim, recomendo a moto para todos, mas continua minha preferência por Srta Hellen Dawson.

A viagem começou mesmo no dia 22/12 em Nacala, pegando a van de madrugada para o vôo de ligação entre Nampula e Maputo que seria somente a tarde. Em Maputo peguei ônibus da Intercape para Joanesburgo (esse quase perdi por atraso do vôo e teimosia do taxista). No dia 23/12 de madrugada estava no centro velho de Joanesburgo e de lá um taxi para o Monte Fourways Hostel.

Descansei um pouco e peguei a moto ainda de manhã. Aproveitei para comprar uma rede elástica para prender a bagagem, pois o bauleto seria insuficiente (mesmo que tenha trago somente a mochila e uma bolsa pequena).

Companheira da vez

Companheira da vez

Em seguida encontrei com o colega da empresa que conheci em Nacala e por estas inexplicáveis razões, o santo bateu e assim fora convidado a passar o Natal com a família dele. Até que tem explicação, o caboclo é carioca, viveu em JNB devido ao emprego numa empresa de mísseis e casou com uma indiana nascida na África do Sul e hoje trabalha na mineração, improvável assim, o santo tem que bater mesmo.

Monte Casino - misto de casino, hotel e shopping

Monte Casino – misto de casino, hotel e shopping

Loja de motos em Johanesburgo

Loja de motos em Johanesburgo

Um das várias pilhas de estéril da minas de ouro em Johanesburgo

Um das várias pilhas de estéril das minas de ouro em Johanesburgo

Soccer City

Soccer City

No final, longe de casa, tive a oportunidade de passar um excelente Natal com a família do Tinoco, conhecendo um pouco da história dos indianos na África do Sul e experimentando os sabores típicos de seus temperos (ok, a língua continua queimada devido ao curry picante).

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01/02/14 desdobramentos de uma ida à padaria mais próxima

Basicamente já passou de um ano que Hellen Dawson tem sido minha companheira de desventuras, ao invés do malfadado sofá da sala. Na verdade foi em dezembro agora, mas entre outros compromissos e a agitada agenda de festejos de fim de ano, não foi possível dar a menina uma comemoração digna.

Semana passada observei que a padaria da esquina havia passado por uma reforma, bem, pensei com meus botões, vamos lá conferir. Assim sábado cedo, preparei toda a parafernália e aproveitando que Hellen Dawson finalmente tomara um banho (acho que tinha uns 2 ou 3 meses que não lavava), lá me fui em direção à padaria. Como Bilbo Baggins bradei: “I’m going on an adventure!”.

O ronco alto perturbou os vizinhos, o cheiro de gasolina se espalhou pelo ar e passados exatos dois quarteirões ou algo em torno de uns 300m, alcançava meu lendário destino. E para minha grata surpresa, a padaria agora tinha um buffet de café da manhã! Não preciso mais correr o risco de me deslocar para outro bairro onde havia uma padaria mais chique conforme dica de um amigo ortopedista.

Um pão francês com presunto e queijo e uma água de coco depois, acabara-se minha saga. Sim, completada esta árdua missão, me sentido um grande homem, olhei para Hellen Dawson e quase me emocionei! Que grande motociclista eu sou!

Mas aí a ficha caiu e me voltei a minha insignificância de motoqueiro. Sabe, daqueles que usam a moto. Lembrei da última ida ao Bad Service comentando sobre a visita ao Mosteiro Zen em Ibiruçu (comentaremos a respeito em seguida), o Marcelão me deu a dica de que em Buenos Aires havia também uma bela subida de morro onde se tinha uma boa vista da orla de Guarapari. Você não leu incorretamente, estamos falando daquele vórtice espaço temporal que existe no trevo de Guarapari na BR101 que te leva a Buenos Aires.

A 1a visita a Buenos Aires

A 1a visita a Buenos Aires

Resolvera ir pela orla mesmo, ao invés do já batido caminho passando pela Rodovia do Contorno. E lá fui eu já a pleno sol escaldante de 10:30 atravessando trânsito daqui de Jardim Camburi até a Segunda Ponte. E você achando que o trânsito no centro de Vitória seria o ápice, encontra a BR262 em manutenção e meia pista. Dessa vez foi tenso, afinal, além da temperatura ambiente, ainda havia a temperatura do motor rodando sem vento suficiente. Seria um problema, mas, bom, ao menos dois médicos que eu conheço, esse ortopedista e outro psiquiatra, indicam moto como um excelente tratamento para a maioria das doenças e eu não vou discutir com especialistas.

De volta a BR101 e lá vamos nós entre os caminhões e carros que insistem em rodar num sábado, se bem que o país não pode parar e nem todo mundo pode se dar o luxo de largar a visita à padaria para trás. Apesar do calor infernal, o verão trás cores novas à paisagem local e as várias fazendas que marginam a BR101 estavam exuberantes, assim como os conjuntos de morros estilo “pão de açúcar” típicos da região. A energia é fantástica e você compreende porque seus dois amigos médicos recomendam andar de moto.

Chego ao trevo onde se encontra o vórtice temporal e pego a estrada vicinal em direção a Buenos Aires. Que estrada bacana e que paisagem espetacular. Primeira parada em frente a Pedra do Elefante, achei fantástico. E voltamos a estrada vicinal e lá vamos subindo morro. Não é nenhuma serra assassina, mas tem lá seu charme. Fiquei encucado, afinal onde estava a tal vista da orla de Guarapari. Que se dane, tudo em volta já compensava, paisagem muito bacana.

Dentro do vórtice

Dentro do vórtice

Pedra do Elefante

Pedra do Elefante

E assim cheguei na cidade. E vejo uma placa indicando o caminho para uma cachoeira. Nesse calor, boa pedida. Enveredei mais uns 3km de estrada de terra batida de leve e cheguei na trilha que levava até a cachoeira.

já que a moto estava limpa

já que a moto estava limpa

logo ali

logo ali

A cachoeira

A cachoeira

Depois de ficar ali somente apreciando a natureza e o som revigorante da queda d’água e lembrar de outras aventuras nas entranhas de Minas visitando cachoeiras desconhecidas, tive que voltar a realidade e caçar algum lugar para comer porque já era quase 13:00. Mas e o café da manhã, Fantini? Bom, ficou lá na padaria e depois de uns 70km de estrada, eu mereço almoçar, também sou filho de Deus. Lembrei que havia um restaurante bacana um pouco antes da cidade e me encaminhei para lá. Como sábado, domingo e feriado é dia de almoçar tira-gosto conforme o sábio conselho de Dr. Hugo, fiquei na porção mesmo. Recomendo demais o local.

sábado, domingo e feriado é dia de almoçar tira-gosto

sábado, domingo e feriado é dia de almoçar tira-gosto

Em seguida peguei o caminho de volta e para minha grata surpresa fui presenteado com a vista da orla de Guarapari, linda. Pena que não dava parar por falta de acostamento e ser uma descida. Bom, isso significa que se você quiser ver também, esqueça as fotos dos outros, pare de comer essa coxinha aí na padaria e venha ver com seus próprios olhos.

15/12/13 o outro lado da mesma cidade

Para mais de 2 anos que moro em Vitória ES. Há lugares da cidade que nunca havia pisado. Sim, nossa vida corrida atual, compromissos ou simplesmente a comodidade de ficar dentro do círculo daquilo que é conhecido, nos retira oportunidades de novas perspectivas.

Vitória é uma ilha e o mapa indica avenidas suficientes para dar uma volta completa em seu entorno. Porque não?

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Só conhecia a metade de cá que tem vista para o mar. O outro lado, era um lado oculto, escondido na sombra do morro que toma grande parte do território da ilha.
Comecei pelo Sambão do Povo, uma miniatura da Sapucaí que se alcança ao não atravessar a 2a ponte. A partir daí os pontos turísticos são escassos e a placas não indicam claramente para onde se vai. Era melhor usar os instintos e manter o morro sempre a sua direita.

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Daí a pouco a saída para a Ilha das Caieiras, famoso pelos restaurantes que brigam entre si pelo título de melhor moqueca. Um deck de madeira a beira do rio, esquecido pelas autoridades públicas serve de palco para a fraterna disputa. Três garçonetes de uniforme diferente me abordam.
Me contentei com a que tinha o prato individual (encarar um moqueca sozinho seria tenso). Até porque sendo um domingo após sexta-feira treze, almoçar um filé de cação a treze reais seria mais que adequado.

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O “moleque” maior de idade que estava vigiando os carros me zoou quando fui pegar Srta. Hellen Dawson de volta.
– Doutor, gente passa a tarde inteira aí. O senhor comeu em pé?
Ri da molecagem, mas ainda havia mais um resto de desconhecido a desbravar.
Atravessei então um trecho em que a cidade deixava de ser cidade. Um completo oposto ao que se vê de prosperidade e avanços imobiliários.

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Era quase uma fazenda distante da concreta cidade. Onde ainda nenhuma torre de apartamentos apertados ousara nascer.
Veremos por quanto tempo restará assim.