Prudens quid pluma niger secundum

Próximo do céu escarlate: 23/09/19 Kyirong a Kathmandu

O café começou por volta de 08:00. A priori vamos sair às 09:00, pois a fronteira abre as 10:00. Em teoria vamos passar sem problema. As motos talvez seja um pouco mais embaçado.

O dia amanheceu bem fechado e tudo indica que teremos chuva nos 30km até a fronteira. Achei que ficaria molhado. No final era apenas uma neblina e exceto pela canela que ficou úmida, nada de mais.

A estrada entre Kyirong e a fronteira é realmente muito bonita. Uma pena estarmos focados em chegar logo na fronteira para resolver a papelada, então não pude parar para tirar umas fotos. De qualquer maneira, a paisagem de descida de serra, contornando a montanha e sua floresta, com algumas cachoeiras alimentando o rio abaixo, foi uma despedida única.

Na fronteira, como de praxe, consome um bom tempo e ficamos em torno de 1,5h para fazer todo o processo no lado chinês. Do lado nepalês, macio como mel, enquanto fazíamos um lanche e aguardávamos o carro de apoio para pegar a bagagem.

Então saímos para pegar a versão do inferno aqui na terra. Se no Tibet, poucos trechos tinham asfalto ruim, no Nepal nem pavimento tem direito. Foram 75km da mais pura imersão em enduro. A questão é que a Royal Enfield Classic 500 não é a melhor escolha para off road. Exceto se você quer passar pela experiência dos motociclistas na segunda guerra mundial.

Pouco depois de avançarmos, assim como na vinda em que bati o fundo da moto e quebrei o pedal do freio traseiro, consegui fazer a mesma coisa novamente. Só que dessa vez a alavanca ficou atrapalhando a condução.

Parei para arrancar aquele trem fora, no melhor estilo ordinary mechanical class. Já o maldito fuso que faz o link com o freio da roda não saia de jeito nenhum. Até o momento em que apelei, empenei o maldito na mão, amarrei na balança da suspensão com a cordinha que veio na chave da moto e assim fomos.

A melhor parte de fazer enduro, com moto baixa e muita lama, é não ter freio traseiro. Como estava esperando, em um dado momento em que usei o freio dianteiro, a roda travou e lógico, lá fui eu comprar um terreno. De boa, só o susto.

A paisagem compensava o desafio da estrada

Na sequência, num trecho em que só passava um veículo por vez, duas coisas boas aconteceram: a) a turma do Nepal não sabe fazer o básico pare e siga para evitar travar tudo e b) o exército resolveu do nada fazer um exercício e tinha só 30 caminhões do exército na estrada.

Ficamos agarrados por pelo menos 30 minutos até resolvermos tomar conta do trânsito e fazer um pare e siga. Foi a única maneira de conseguirmos liberar e poder avançar.

Tudo agarrado até a gente ajudar organizando uma pare e siga

Um pouco mais à frente, era o ponto onde houve o deslizamento. Bom, onde a estrada desapareceu. Estavam consertando e estava bem avançado com as máquinas trabalhando e colocando enrocamento. Num dado momento em que as máquinas liberaram para gente passar, avançamos, só para descobrir que não estava liberado e lá estou eu no meio da lama, sem conseguir mover e a escavadeira dando ré para cima de mim.

Bom, com a ajuda dos peões da obra consegui tirar moto do caminho e daí a pouco continuamos na estradinha sem pavimento.

Hora era lama, hora era enxurrada, hora eram pedras, hora era só trânsito que não se sabe de onde vem. Quando finalmente acabou o trecho em que não tinha pavimento, descemos a serra em infinitas curvas. Já estava cansado, meio puto por ter comprado terreno antes, molhado de chuva (sim no trecho sem pavimento resolveu chover do nada). Quando estou lá de boa fazendo uma curva fechada, me aparece um maldito caminhão do nada, sem buzinar. Foi o tempo de empurrar a moto para um lado e rolar para o outro. O caminhão parou antes de acertar a moto no chão e eu rolei para dentro da vala da drenagem. Sorte que estava sem água nesse trecho.

Depois de conseguir traduzir para o motorista que estava bem, continuei descendo a serra. Um pouco mais emputecido. E nem sinal da turma, já que tinha ficado para trás.

Já lá embaixo, quando estava começando a duvidar se estava no caminho certo, apareceu um colega da equipe da Parikrama Treks de moto, estavam a minha procura. Ele me levou para abastecer a moto. Dos sete companheiros, dois estavam com ele. Os outros quatro já tinha sumido na nossa frente em direção ao hotel.

Após explicar sobre minha decisão imobiliária no Nepal e indicar o freio traseiro quebrado, insistiram para eu pegar a Royal Enfield Himalayan para terminar a viagem, já que o trânsito nos arredores de Kathmandu seria terrível.

Sendo bem sincero, porque não peguei esse modelo antes? Outra moto, conjunto bem mais equilibrado, acelerador curto, torque, suspensão. Tornou o último trecho até Kathmandu bem mais palatável.

Isso porque é incrível a quantidade ônibus, caminhões, carros e motos que surgem do nada nos arredores da cidade e tornam algo com 25 ou 30 km a maior missão impossível possível. Não satisfeito com o excesso de trânsito, o asfalto danificado levanta uma poeira infinita e num dado momento você se imagina atravessando uma cortina de fumaça daquelas bombas que ninjas jogam no chão para desaparecer em seguida.

Sério, eu já havia comentado sobre isso na viagem de 2017 e hoje só confirmou, você reclama do trânsito de São Paulo porque não sabe de nada, inocente.

As 21:30 alcançamos o hotel, parte da turma já estava lá, comemorando com Gorkhas, fui obrigado a comemorar também.

Realmente eu merecia uma Gorkha estupidamente gelada
Que viagem sensacional, com pessoas maravilhosas, sempre dispostas a ajudar no que foi preciso.

Alguns fusos horários depois, dois países, não sei quantos vilarejos, perdi a conta dos kms, noites mal dormidas, frio de verdade, muita emoção e gargalhadas.

Monte Everest, Tibet, território anexado.

RFEIM / CdGP / DACS

Veja a peripécia de ontem aqui.

Uma resposta

  1. Pingback: Próximo do céu escarlate: 22/09/19 Tingri a Kyirong | Clã do Gallo Preto

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