Prudens quid pluma niger secundum

* Bate-Volta

15/12/13 o outro lado da mesma cidade

Para mais de 2 anos que moro em Vitória ES. Há lugares da cidade que nunca havia pisado. Sim, nossa vida corrida atual, compromissos ou simplesmente a comodidade de ficar dentro do círculo daquilo que é conhecido, nos retira oportunidades de novas perspectivas.

Vitória é uma ilha e o mapa indica avenidas suficientes para dar uma volta completa em seu entorno. Porque não?

IMG_6649
Só conhecia a metade de cá que tem vista para o mar. O outro lado, era um lado oculto, escondido na sombra do morro que toma grande parte do território da ilha.
Comecei pelo Sambão do Povo, uma miniatura da Sapucaí que se alcança ao não atravessar a 2a ponte. A partir daí os pontos turísticos são escassos e a placas não indicam claramente para onde se vai. Era melhor usar os instintos e manter o morro sempre a sua direita.

IMG_6652
Daí a pouco a saída para a Ilha das Caieiras, famoso pelos restaurantes que brigam entre si pelo título de melhor moqueca. Um deck de madeira a beira do rio, esquecido pelas autoridades públicas serve de palco para a fraterna disputa. Três garçonetes de uniforme diferente me abordam.
Me contentei com a que tinha o prato individual (encarar um moqueca sozinho seria tenso). Até porque sendo um domingo após sexta-feira treze, almoçar um filé de cação a treze reais seria mais que adequado.

IMG_6653

IMG_6654

IMG_6655

O “moleque” maior de idade que estava vigiando os carros me zoou quando fui pegar Srta. Hellen Dawson de volta.
– Doutor, gente passa a tarde inteira aí. O senhor comeu em pé?
Ri da molecagem, mas ainda havia mais um resto de desconhecido a desbravar.
Atravessei então um trecho em que a cidade deixava de ser cidade. Um completo oposto ao que se vê de prosperidade e avanços imobiliários.

IMG_6657
Era quase uma fazenda distante da concreta cidade. Onde ainda nenhuma torre de apartamentos apertados ousara nascer.
Veremos por quanto tempo restará assim.


06/06/13 bezerras me mordam!

A selva de pedra que é São Paulo a cada visita se torna ainda mais indefectível. Sempre se pode esperar que haverá trânsito, mesmo que seja numa quinta feira às 05:30 da matina. OK, trânsito ainda incipiente comparado com o que ocorre nos horários, digamos, mais comerciais (afinal já peguei trânsito aqui em pleno domingo a tarde), mas ainda assim surpreende nós, meros mortais, que vivemos em cidades mais provincianas.
Mas, Fantini, temos uma cidade 24hs, encontramos qualquer produto a qualquer hora. Isso, tenho que concordar, afinal como a cidade está sempre paralisada, realmente é preciso que o supermercado e a padaria estejam abertos em horários não ortodoxos, quando se consegue finalmente chegar em casa.
Só que meu destino naquele momento era outro. Desde a fatídica sexta feira santa, em que Srta. Hellen Dawson resolvera dar uma pane na bateria (somente porque o distinto aqui ficou com o farol ligado um bocado de tempo enquanto apanhava para montar o bagageiro) estava nos devendo uma visita a Garage Henn.

Garage Henn

Garage Henn

Nem era pela ladainha do Maia de que a moto ia andar mais, que dava para ganhar potência, que devia trocar até a rebimboca da parafuseta, que assim andaria mais que moto japonesa (opa, aposto que vai aparecer algum “entendido” para discutir, rsrs), mas queria somente e basicamente acertar a porcaria da mistura pobre de fábrica que a HD original tem para atender os limites de emissões e etc.
Nisso realmente invejo os amigos de carburadas, bastava regular eu mesmo o maldito carburador, mas com essa maldita injeção, era preciso remapear e por mais simples que isso parece depois que se ver fazer, o melhor é sempre levar em quem conhece e assim rumamos para Campinas SP pela Bandeirantes.
Sim, você que está rindo aí já imaginando: “nossa, será que o Fantini que tanto comenta do frio na estrada neste mês de junho, vai comentar da serração da Bandeirantes?”. Pode continuar rindo, porque não vou comentar. Frio do capeta!
Cheguei um pouco antes da hora da oficina abrir, o que permitiu tomar um café e comer um misto quente enquanto o Paulinho não aparecia.

– Você que é o Fantini?
– Sim.
– Você não é doido igual o Maia, é?
– Não, pode ficar tranquilo.

Revisão dos 32.000km

Revisão dos 32.000km

Depois de discutir as peripécias do Maia e decidir que não iria trocar a rebimboca da parafuseta, deixamos a moto para fazer a revisão dos 32.000km e no dia seguinte faríamos o remapeamento.

– Nossa, Fantini, para que gastar dinheiro com essa moto velha, 32.000km, nossa, que pena hein, que ano é? Não, não me diga, 500km por ano, bem, tem uns 60 anos, é? Você adaptou a injeção?

Deixei o “entendido” conversando sozinho e aceitei o convite do Paulinho para conhecer a cidade. Na verdade ele precisava verificar se achava um portão melhor para a câmara do dinamômetro e lá fomos parar num ferro velho tosco como sempre tem que ser. O Paulinho achou o portão que queria, mas estava sem dinheiro na hora.

– Uai, camarada, não seja por isso, eu te dou o portão e estamos quites no serviço da moto lá.

E assim, mais uma vez o motoqueirismo mostra sua verdadeira face, da camaradagem e da ajuda mútua. Ainda o acompanhei na compra de outras traquinagens tipo “do-it-yourself” que iria instalar lá na tal câmara do dinamômetro. E nisso temos que dar o braço a torcer para o camarada, humildade e simplicidade em pessoa.
A revisão terminou no final do dia e o remapeamento somente no dia seguinte. Resolvemos comemorar o portão novo num pub famoso de Campinas que fiz o favor de esquecer o nome. Mas, não tem erro, basta ir no que estiver mais cheio, é esse. E mais uma vez fico surpreso com a circularidade da vida.

– Fantini, você toma joaquim daniel?
– Uai, claro, não dispenso jamais.
– Então pega aí. O Maia que trouxe de presente.

gentileza gera gentileza

gentileza gera gentileza

Cai alho! O cara gastou tanto aqui que precisa esticar as prestações e rolar a dívida, e aí tem que mimar o credor. Olho com mais cuidado para garrafa, um legítimo Joaquim Gente Fina e, peraí, cai alho! Conheço esse Joaquim, havia dado para o Maia para pagar o que bebemos todo em Prado BA e olha só. Rsrsrs! Sim, gentileza gera gentileza, melhor ainda quando se trata do Joaquim Gente Fina. Nem precisa dizer o tanto que a noite foi boa.

preparativos

preparativos

No dia seguinte Srta. Hellen Dawson já estava sendo devidamente estuprada até o limite enquanto o breguete lá de remapeamento, o tal TTS Mastertune para quem queira saber, ia fazendo as leituras e equalizando os dois cilindros e corrigindo a mistura.

taca fogo na namaguideraz!

taca fogo na namaguideraz!

Três séries de ajustes depois, finalmente o motor pode respirar aliviado e entregar sua potência original e não aquela merrequinha estrangulada de fábrica. Mas sinceridade, tenha em mente que os freios das custom em geral e da HD inclusive não são aquela maravilha e seja consciente.

já dá para alcançar as japonesas

já dá para alcançar as japonesas

– Consciente? Você fala sobre os três limites e.. Fantini, Fantini, peraí!!!

Depois de uma voltinha de teste, despeço do Paulinho e equipe da Garage Henn, realmente mais que recomendado, não só pelo serviço impecável, mas pela pessoa que o camarada é. E isso faz toda a diferença. Fora que me custou apenas um portão usado. Fino!

Ligo para o Hellton:

O Fantini me ligou

O Fantini me ligou

– Frangolino, separa o colchão aí que estou chegando.
– Sério?! Bezerras me mordam!!!


03/02/13 a rota do lagarto e um pouco mais

Foi final de janeiro agora que a Brojeta, vulgo Juliana, prima do Brojo, aproveitou que pegaria um ponte aérea em VIX para retornar para Bhz depois de longos dias de parmegiana nas praias de Iriri e me chamou para um encontro à mineira, ou seja, num buteco.
– Fantini, esse doutorado ainda me mata, preciso achar alguma coisa que fale sobre as interações das pessoas no dia a dia das calçadas gerando conhecimento e, velho, porque estou perguntando isso a um engenheiro?
Pensei em dizer “já consultou o Mestre Grilo?”, mas estava inspirado:
– Já leu “Emergência – A dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares” de Steven Johnson? Tem um capítulo inteiro falando sobre isso aí.
Agradeceu, mas não pagou a conta do buteco. Mulheres.
Mais de semana depois, o Fernandinho da Ayso estava reclamando sobre o mal tempo e que estava foda de passear de moto. Mandei ele tirar a bunda mole do sofá e simplesmente pegar a moto e sair por aí. E a partir dessa rápida conversa e sem muita intenção, meio que surgiu a idéia de um pulo até a Rota do Lagarto em Pedra Azul.
– Você topa, Fantini?
– Uai, porque não? Marca aí.
De repente já tinha uns 15 caboclos confirmados e assim como Johnson comenta no livro, de uma interação simples começa a surgir uma ordenação complexa, sem que houvesse alguma liderança ali direcionando o caminho. E aí o que era uma volta até a Rota do Lagarto passou a ser um passeio completo com direito a Festa da Uva em São Bento de Urânia, almoço em Venda Nova do Imigrante e retorno através de Santa Tereza. Cai alho! Nada mal hein, Fernandinho?

O tempo estava ruim

O tempo estava ruim

Cheguei uns 15 minutos mais cedo no ponto de encontro em Camburi porque precisava abastecer a srta. Hellen Dawson, havia uns 4 caboclos que nunca vi mais gordos. E nem se podia dizer que era por causa do mal tempo de domingo. O que estava travando o povo em casa era mesmo o Sambão do Povo na noite anterior, até o Chico parecia japonês com os olhinhos fechados. E aí olho de novo (tudo bem que com 1 hora de atraso) e já estávamos sendo incomodados pelos frentistas porque praticamente fechamos o posto.
Aquilo me deu um frio na barriga lembrando do episódio em Ribeirão Preto SP, quando num ultra mega blaster super bonde de mais de 150 motos (eu no fundo como sempre), começa a chover e metade dos barrigas verdes me param no meio da rodovia para botar capa de chuva. Até hoje a cena de travar os freios da antiga companheira dona stefânia vendo no retrovisor o carro parar a um centímetro de nós me dá calafrios. Ainda bem que choveu canivete e já lavou a calça na mesma hora.

Querendo criar ordem na bagaça

Querendo criar ordem na bagaça

Apesar de confiar na ordem surgindo a partir da base, seguindo o mesmo Johnson, resolvi acrescentar mais umas pequenas regras na condução do grupo, basicamente o que interessa: onde seriam as próximas paradas e distribuição das motos para permitir quem quizesse esticar e quem quizesse andar mais tranquilo convivece em paz. Porque tinha de tudo ali, de CBR 1000 a Biz.
– Fantini, a Biz é da menina do caixa do posto.
– Uai, foi mal então. Essa jabiraca está aí no meio, também!
E assim nós fomos subindo a BR262. Segui atrás em praticamente toda a primeira perna do trajeto, fazendo questão de acompanhar os menos apressados para que não ficassem muito para trás. Primeira parada Posto do Café na entrada para Araguaia. Faltou café.

Faltou café

Faltou café

Passamos rapidamente em São Bento de Urânia para aproveitar um pouco da Festa da Uva. Tirando o fato de dois “guardinhas de trânsito” lá me importunarem enquanto parava a moto na sombra, valeu a visita pelo trecho de estradinha vicinal com curvas bem fechadas. Ainda mais agora que estou praticando as dicas da “Cornering Bible“. Sim, custom também faz curva se você aprender como.

Entrada para Rota do Lagarto

Entrada para Rota do Lagarto

Em seguida mais um trecho da BR262 até a entrada da Rota do Lagarto em Pedra Azul. Posso afirmar que chega a ser tão linda quanto o singelo trecho da Estrada Real entre Ouro Preto e Ouro Branco em Minas. Mas os 30km da estrada real tem algo que aqui em Pedra Azul não tem, tem Minas. E aí já viu, mineiro é patriota até sob tortura. Mas recomendo demais a estradinha da Rota do Lagarto, inclusive vou lá novamente com calma para tirar algumas fotos. Para quem como eu acha que moto foi feita para rodar em qualquer canto, a saída até a BR262 está sendo recapeada e então está só no cascalho. Fino!

Venda Nova do Imigrante

Venda Nova do Imigrante

Voltamos em seguida para a BR262 para alcançar Venda Nova do Imigrante e parar para o almoço. Nesse ponto, parte do comboio debandou, alguns voltando direto para Vitória, outros almoçando em outro ponto. Mas grande parte ficou e fomos então em direção a Santa Tereza. Este trecho de estrada vicinal estava fantástico. Curvas na dose certa com raios variando entre médios e fechados. Não suportei, deixei o espírito tiozão para trás junto com a poeira na cara dos pobres colegas de bonde e fui avançando com srta. Hellen Dawson até a cabeça do comboio. Andei um bom trecho forçando o contra esterço e o controle de aceleração até onde as plataformas permitiam. Diversão garantida. Mas aí percebi que estava abusando andando junto com os mais empolgados e voltei para o segundo grupo onde estavam as trails. O Well do Vitória MC ficou pasmado com o fato de eu conseguir gastar toda a circunferência do largo pneu traseiro. Sim, o pneu largo deixa a dirigibilidade em segundo plano em nome da estética. Com um pouco de paciência e muita prática, dá para se conviver com os dois. Mas, caros companheiros de leitura, não tentem isso em casa, é perigoso para cai alho!

O Well ficou com as pernas bambas

O Well ficou com as pernas bambas

Paramos em Santa Maria de Jetibá porque parte do povo havia ficado muito para trás (viu porque não pode se sair correndo por aí se achando o rei da cocada preta?). Depois viemos a saber que a moto de alguém tinha soltado a corrente. Resolvemos esperar um pouco apesar de que havia chegado a notícia para seguirmos viagem.

Santa Maria de Jetibá

Santa Maria de Jetibá

Nisso um camarada nativo se aproxima e faz a pergunta óbvia que já deixa a gente tenso porque lá vem enxurrada de perguntas esdrúxulas:

– É quantas cilindradas?
– Corre muito não é? Alcança qual velocidade?
– É correia ao invés de corrente, que coisa estranha!
– Tenho um terreno de 250m2 para vender. 65mil. Interessa?

boy that escalated quickly

boy that escalated quickly

– O que?! Cai alho! Boy, that escalated quickly.

Nisso resolvi assaltar o posto onde estávamos, de repente consigo dar uma entrada no terreno que o cara ofereceu.

tentando me tornar 1%

tentando me tornar 1%

Como o povo cuja moto parou não vinha de jeito nenhum e a tentativa de assalto foi frustada porque de 1% não tenho nem o patchzinho, resolvemos pegar estrada e retornar para Vitória. Acabou que passamos direto por Santa Tereza. Direto por assim dizer, porque vai ter que fazer zigue zague assim lá na casa do capeta! O caras querem mesmo que a gente conheça a cidade.
Chegando em Vitória cada um indo para seu bairro, exceto o colega do Vitória MC, Courrier salvo engano, que teve que voltar à barreira policial para pegar o documento da moto porque foi fichado em função do farol de xenon da naked dele. E srta. Hellen Dawson nos sacolejos lá da saída da Rota do Lagarto tinha queimado novamente a porcaria da lanterna traseira (vou ter que botar um led) passou batido. Ninguém pára moto custom. Foi mal aí.

Amigos e iniciativa, não precisa mais nada

Amigos e iniciativa, não precisa mais nada

E assim aquilo que era só para ser uma voltinha com os amigos acabou se transformando num grande passeio e certeza de outros mais a seguir. Steven Johnson tinha razão.


16/12/12 alguem tem que ficar de boa

Semana passada havia vindo sozinho até o Posto do Café no que podemos dizer ter sido o debut de srta. Hellen Dawson, a americazinha que usurpou o lugar de dona stefânia. Hoje voltei novamente com o companheiro Chico, afinal ele precisava de um esticada de moto, porque vai gostar de trabalhar.
Saímos por volta de 09:30 lá do bairro República em Vitória para alcançar o Posto do Café que fica na beirada da BR262 e marca a saída para as cidades de Araguaia e Alfredo Chaves. O interessante do Espírito Santo é que com pouco mais de 50km sai da região litorânea e se emburaca numa região serrana de clima mais ameno.

Portal para a região de Araguaia e Alfredo Chaves

Ainda bem, pois como na semana anterior, hoje também o clima estava agradável. Agradável se você for de alguma espécie animal de sangue frio, porque estava tenso manter a temperatura normal de 36oC ao custo de muito suor. Como eu sou um camarada que acredita que se deve andar protegido, passei um protetor solar, porque jaqueta sem chance. Além do que, sempre se pode usar um protetor da linha baby cujo cheiro agradável até disfarça o cheiro de gasolina típico após um voltinha dessas.

Exemplo das curvas da região

Exemplo das curvas da região

Enquanto tomávamos um suco de laranja para rebater a perda de líquidos e aproveitávamos o pão de sal com queijo minas passado na chapa, decidimos descer a estradinha vicinal até Alfredo Chaves, passando por Araguaia e com um pulo em Mathilde. Além de uma paisagem agradável de serra, ainda tinha uma série de curvas típicas para treinar o braço.

Estação abandonada de Mathilde antes da reforma

Paramos em Mathilde para ver a antiga estação ferroviária. Reformada e transformada num espécie de memorial e homenagem aos antigos funcionários da rede. Boa mesmo é uma foto antiga com um tiozão oferecendo uma dose de cachaça no meio do povo que estava em frente a estação.

Estação após reforma

Estação após reforma

Desde 1925, bebe inferno!

Desde 1925, bebe inferno!

Passamos ainda por dentro da cidade, onde há ainda um pequeno balneário no rio que corta a região. Infraestrutura bacana que vale pena curtir num fim de semana com direito a chalé e tudo. Mas como Mathilde é uma cidade de primeira, quando engatamos a segunda, já havia acabado.
E desembocou numa bela de uma estrada de terra. Meus olhos até brilharam, afinal eu sou da turma que “mete bem na terra”. Mas como o Chico trocou recentemente de moto, largando uma trail para tirar onda de esportiva, teve que pagar pau e demos meia volta. Cai alho! Voltarei aqui sozinho só para descobrir até onde a estrada vai.

Para quem mete bem na terra

Para quem mete bem na terra

Voltamos para a estrada vicinal e logo alcançamos Alfredo Chaves e em seguida a BR101 já próximo ao trevo de Guarapari de onde pegamos a Rodovia do Sol e o calor escaldante. Almoçamos já de volta em Vitória.
Como o Chico tinha que trabalhar, resolvi pegar um refrescante no Bar do Pezão. Afinal, alguém tem que ficar de boa nessa vida.


27/10/12 pontes

Escrevi recentemente para um irmão a respeito da importância da criação de pontes entre as pessoas e como admirava essa capacidade nele. De uns tempos para cá tenho batalhado muito esse tipo de coisa e tenho certeza que o motoqueirismo tenha facilitado desenvolver essa faculdade em quem, como eu, não nasceu com ela.
Eu queria e precisava simplesmente retirar a cera dos sapatos novos de dona stefânia. Realmente a inveja mata, mas no caso foi só o bom exemplo do Christian que me deixou com vontade de aproveitar a necessidade de troca dos pneus para colocar um par de faixas brancas. Christian, meu muito obrigado por me deixar na pilha ao ver o resultado na sua moto. E dona stefânia também agradece.
E lá estava eu confabulando para onde ir, tinha planos de ver uns negócios em Sampa e aproveitar para visitar o velho Ghan e de quebra o casal Tavares (nossos irmãos de clã), mas precisaria de mais prazo. Havia ainda um pequeno encontro aqui em Vitória mesmo para ir com o Chico. Ou o churrasco da Pagu. E finalmente tinha o Outubro Negro, festa do calendário oficial do clã em Bhz.
O que quero dizer é que se não estivesse exercitando a difícil mas necessária arte de construir pontes, é provável que teria que ir somente ali no posto do café sozinho mesmo.
Assim resolvi fazer uma surpresa ao irmão Nuanda, indo de supetão para Bhz, afinal somente 600km, viagem rápida. E com certeza teria bastante asfalto para tirar a cera do pneu novo de dona stefânia. A surpresa quase deu certo (houve boatos da minha ida), mas no final vendo a alegria do Nuanda com minha presença compensou ficar só no refrigerante e água para ter condições de voltar no dia seguinte. Isso mesmo, sai sábado cedo, fui na festa, voltei para Casa do Imperador, dormi, domingo cedo já estava voltando. Atravessando pontes estrada afora e pavimentando mais ainda a que tenho com meu querido irmão de clã.


E naturalmente que reencontrar todos os demais irmãos do clã também foi especial, mas azar o de vocês, o aniversário era dele.
Mas como sempre tem algo de inusitado para tornar as viagens mais divertidas, logo na primeira parada em Ibatiba, observando dona stefânia com suas meias de seda, sexy e bandida, vi que os retentores das duas bengalas estavam melejando. Maravilha, aquele buraco subindo a serra doeu mais que na minha coluna. Após alguns cálculos resolvi seguir viagem. Na ida nem atrapalhou muito, exceto em algumas curvas do trecho entre João Monlevade e Bhz, onde percebia que a suspensão já estava um pouco dura para as manobras.
Na volta é que foi a sensação. Lembrei de um outro camarada reclamando sobre dor nas costas. Acho que ele teria morrido no meu lugar. O asfalto da BR381 / BR262 em Minas foi recapeado recentemente e não tem buracos, mas as costelas, invisíveis a olho nu, mas bem sensíveis numa moto custom com perda de óleo nas bengalas, estavam demais. Eu fui contando os solavancos e acho que atingi um recorde pessoal de 35 solavancos por quilômetro. A certo momento pensei até que estava montado na dorothéia e não em dona stefânia. A coisa só melhorou quanto alcancei o Espírito Santo. Com menos trânsito de caminhões, o asfalto está menos desnivelado e assim consegui reduzir a média de solavancos.
Enfim, não foi necessário nenhum analgésico para minha grata surpresa. Tudo bem que tem a praia para dar uma boa relaxada pós viagem, ainda mais nesse calor e com horário de verão.
Ou talvez seja só resultado da sensação de atravessar as pontes que criamos com as pessoas que amamos de coração.


Nota

22/09/12 quando o vento não vem

Antes de iniciar a leitura carregue: show me how to live

Esse fim de semana, como fazemos religiosamente toda terceira sexta de todo santo mês dos últimos doze anos, o povo do clã se encontrou no Bar do Repa na República Federativa do Estado Independente do Marajó. Nossa liturgia mensal carrega muita história de uma amizade que ultrapassou qualquer explicação lógica para aqueles que não tem amigos de verdade.

bar do repa

bar do repa

Morando em Vitória ES nos últimos 12 meses e até um pouco distante da RFEIM, o que me obriga a chegar bem mais tarde do que gostaria devido aos contantes atrasos da malha aérea (rsrs, sim eu também uso avião de vez em quando), lá estava eu com aqueles que a ferro e fogo conquistei e vice e versa. Bem sabe o McGuila.
O companheiro Garga me chega a plena 01:00 da matina para avisar: “meu pessoal do Rasta vai batizar novos integrantes, você tem que estar presente, já falei com o Nuanda também”. Uai, uma grande honra, afinal o pessoal do Rasta Brasil MC tem nosso maior respeito por sua história verdadeira de clube e irmandade.
– Quando? Que eu me programo para vir com dona stefânia.
– Amanhã. 08:00 a gente encontra na boca do anel ali no viaduto São Francisco.
– Cai alho!!!
Não se pode negar um convite de um irmão, ainda mais quando é o Garga, afinal ele é uma grande pessoa. Grande mesmo e não vale a pena contrariar.
Uma dose e meia de café preto depois lá estava eu no sábado pela manhã seguindo o Garga e o Jamaica em direção a Ipoema MG. No caminho os demais integrantes do Rasta se juntaram a nós. Peraí, Fantini, você veio de avião. Então traiu o movimento motoqueiro e trouxe dona stefânia de carreto? Claro que não! Fui de carro alugado mesmo.

o carro alugado, um estranho no ninho

o carro alugado, um estranho no ninho

Para quem não conhece (como eu também só tinha ouvido falar), Ipoema MG é um distrito de Itabira MG na beira (por assim dizer) da BR381. Cara, que lugar lindo. Serra e mais serra e mais serra. O distrito em si é bem simples, mas quem está interessado nisso quando se tem um pedaço tão representativo do que é Minas e seus mares de morro e suas cachoeiras para passear?

o mar de morros sem fim

o mar de morros sem fim

coisa comum para os lados de cá

coisa comum para os lados de cá

esse trem desse tamanho já não é tão comum, mas é bão também

esse trem desse tamanho já não é tão comum, mas é bão também

E nesse mar de morros nos infurnamos numa estrada de terra sem fim e sem… Peraí, Fantini, moto na terra, tô com nojinho. Problema seu.

você também devia experimentar

você também devia experimentar

Porque nesse infindável mar de poeira paramos numa ponto qualquer para que a cerimônia de batismo ocorresse. Sem bandas, sem brindes, sem alvoroço. Uma cerimônia verdadeira de uma irmandade verdadeira.
um ponto qualquer, mas não qualquer ponto

um ponto qualquer, mas não qualquer ponto

Como representante da outra irmandade verdadeira, nosso querido clã, tive que manter a compostura. Por fora não havia vento ao meu redor, mas por dentro um turbilhão de emoções em função daquele singelo ritual me faziam lembrar de todos que eu tenho na mais alta estima e consideração.

quando o vento não vem

quando o vento não vem

Um muito obrigado aos nossos irmãos do Rasta Brasil MC por nos lembrar do que realmente importa.


15/07/12 não dá para defender

Sábado passado e neste domingo resolvi dar umas esticadas rápidas com dona stefânia já que não tinha como ir muito longe devido a outros compromissos. E falo de passeio curto mesmo, 70km subindo a BR262 até o Posto do Café no sábado e hoje um tiro de 50km até o trevo de Guarapari para tirar uma foto ao lado da emblemática e praticamente esfinge placa indicando que por uma estrada vicinal se chega a Buenos Aires! Decifra este vórtice espaço temporal.

Viagem de moto é isso, curtir a estrada, sem estresse, sem compromisso, ir a um lugar para tomar um suco e comer um pão com queijo quente ou simplesmente pousar naquela referência improvável que você passa várias vezes em função de alguma outra viagem.
Na semana passada, assumo que resolvi subir para o posto do café de última hora. Estava na loja do Chico, vou lá quase todo sábado bater um papo com o amigo e ver as motos em exposição. Sai de lá por volta de 11:00 e resolvi ir tomar o bendito suco. A questão é que como não estava nada programado (exatamente do jeito que eu gosto), estava somente de jeans surrado e camiseta. Confesso que no meio da subida, quando o clima da serra aperta, dá vontade de dar um tapa na própria cara por ser tão estúpido de estar sem jaqueta. Não por causa da proteção, mas por causa do frio mesmo.
Passa por mim uma leva de “motociclistas”, com suas máquinas maravilhosas de mais de 1.000cc e suas parafernálias de segurança. Todos esbaldando as marcas coloridas das jaquetas e calças e botinas e capacetes. E eu lá com o jeans surrado e camiseta. Passaram por mim de nariz em pé, se sentindo os deuses do olimpo. Até que um deles, perceptivelmente barriga verde e ainda mais travado com tanta roupa erra uma aproximação da fila de carros, quase cai e derruba todo mundo como num boliche.
Em seguida vem uns dois ou três “motoqueiros”, no mesmo estado que eu, jeans, camiseta, um moletom surrado por serem mais espertos, nas suas CGzinhas ou BROSzinhas com a namorada subindo a serra provavelmente para visitar algum parente ou coisa que o valha. Exceto pelo fato de não terem condição de fazer uma ultrapassagem mais rápida, estão ali, rodando seus kms e ouso dizer que somam mais kms nas costas do que muito dito “motociclista” que se faz questão de não ser colocado no mesmo, digamos, patamar que a turma da baixa cilindrada.
Tenho certeza que a turma das motos grandes que passou por mim deve ter achado um absurdo eu estar numa rodovia só de camiseta. Eu já acho um absurdo um camarada botar na cabeça de um conhecido que este deve comprar moto e toda a sorte de badulaque de “segurança” para começar a viver e as vezes o sujeito nem leva jeito para coisa. Deve ter sido o caso do distinto lá que quase jogou a turma toda no chão. E nessa hora, não é capacete e jaqueta cara que te salva.
Quer ter segurança ao andar de moto? Respeite os limites da estrada, os limites da sua máquina e os limites do seu corpo. Sai mais barato que muito badulaque de grife que tem por aí e posso afirmar que funciona muito mais.
Mas aí hoje no domingo, já voltando do passeio até a placa que indica que Buenos Aires é logo ali pegando uma estrada vicinal no trevo de Guarapari, venho pelo BR101 já em Cariacica. Novamente só de jeans e camiseta. Vi o motoqueiro com sua CG guerreira a minha frente. Vi também uns cachorros meio que perdidos, como sempre ficam tentando atravessar a pista. Já diminui para dar espaço para o camarada a minha frente diminuir, o básico de sempre.
Ele passa os cachorros, eu também, aí ele quase pára, no meio da rodovia e olha para trás para xingar os cachorros. Isso mesmo. Xingar os cachorros! Como bem imaginou o Nelo, deve ter sido algo do tipo: “O CACHORRO DO CARALHO, SAI DA PISTA, A CADELA DA SUA MÃE NÃO TE EDUCOU?” ou coisa que o valha. Cai alho!
Acredito que se fossem os distintos “motociclistas” da semana passada a minha frente, teríamos um belo de um engavetamento, por todos, o “motoqueiro” e os “motociclistas” que cito, não estarem e nem se preocuparem em estar preparados para situações como essa. Ou mais ainda, devidamente atentos e com habilidade necessária para não criar situações como essas. Ainda bem que os velhos e bons reflexos do tempo de trilha fizeram seu papel de anjo da guarda novamente e consegui sair de fino do maldito a minha frente. Mas como passei pela esquerda dele e com uma urrada forte da dona stefânia para ter tração suficiente para equilibrar a manobra, é provável que ele tenha caído na rodovia com o susto.
Alguém deve querer saber: “Mas ele caiu mesmo, Fantini?”
Não sei. Eu não olho para trás para xingar.


Sobre Alfenas e Superação

Não irei aqui tentar definir o que nos prende a determinado lugar. Pensarei mais no que nos motiva a conhecer outras terras, assumir que o mundo é vasto, mas sempre (ou não) com o pensamento fixo no ponto de onde partimos – precisamos sempre determinar uma referência baseada num esquadro, para então batermos o prumo e tirarmos o nível. Se pensarmos bem, mesmo a vastidão mais nebulosa pode estar a poucos quilômetros de distância. No caso do último final de semana, a exatos 335km (da porta de casa até a garagem da casa dos pais do Camarada Helton, em Alfenas).

Quinta-feira, 14 de julho de 2011. Recebo uma ligação interestadual do Camarada Helton me dizendo que sua sogra, digníssima mãe da querida Gisele – e que mora em BH – , havia confeccionado para mim um cachecol (nota de rodapé: quando estive em SP para buscar a moto, ambos me questionaram quanto a cor do então cachecol atual: “Precisava ser lilas???”). A Gisele é uma figura querida, a qual conheço faz pelo menos 14 anos e cultivo imenso afeto. O Helton eu conheci já casado com ela, e gostei dele de cara. Mas só recentemente pudemos nos aproximar mais. Fiquei realmente muito feliz com a ligação, e também com o carinho que acompanhou a notícia do cachecol, e perguntei a ele o que iria fazer no final de semana. Ele disse que estaria no dia seguinte indo para Alfenas, sua cidade natal e onde residem os seus pais. Praticamente me convidei, disse que seria  mais ou menos o meio do caminho entre SP e BH. Levei a garrafa de cachaça da boa como ingresso simbólico, e deixei para trás toda a programação já acertada do final de semana em BH.

Arrumei a “mochilinha” como diz Mr. Mumu, me programei rapidamente e, no sábado de manhã, saí de BH rumo a Alfenas. Enchi o tanque, peguei a Amazonas sentido Contagem / Betim (depois 381, depois Fernão Dias) e só parei para abastecer em Perdões, após exatos 205km. Pode parecer pouca coisa, mas, se existe algo que aprendi recentemente, é que a superação é solitária. Explico: você nunca supera outras pessoas – você só deve superar a si mesmo. Na vida, o esquadro que gera o alinhamento do prumo e do nível é a sua consciência, sua trajetória. Exatamente o lugar no qual nós devemos nos concentrar. Eu nunca havia ficado 2h30 sem parar sobre a moto. Muito menos percorrido tal distância sem parar. Por mais simples que possa parecer, toda autosuperação é valorosa, e por isso eu gritei um “U-hu” bem gritado logo após sair do posto de abastecimento. Enquanto isso via, sob a viseira escura do capacete, o sol do meio do dia torrando o asfalto de uma das dezenas ou centenas excelentes curvas da Fernão Dias.

A manhã pedia aquela frase já recorrente nos meus posts: “It´s a nice day for a ride”. Mas todo o contexto ajudava. Na sequência fiz uma parada mais demorada, e finalizei os 335km em 4h e 30, acho. No final já nem contei tanto. A estradinha que sai de Lavras rumo a Alfenas é também acima dos padrões – só se deve prestar atenção aos motoristas imprudentes, à falta de acostamento, ao gado e aos cachorros suicidas que teimam em surgir latindo do meio do mato na direção de uma moto a 130km p/h.

Sobre Alfenas nem irei comentar muito: Sul de Minas, fazendo nesta época calor agradável durante o dia e frio durante a noite. A família do Helton é sensacional, me acolheu excepcionalmente, e tive o prazer de compartilhar com eles horas e horas de conversas sobre os mais variados assuntos. Sem falar na degustação de pimentas!

Enquanto o Hellton não pega a moto...

A primeira falha no parco planejamento da viagem veio ainda no domingo cedo (e ainda bem que veio!!): eu deveria ter saído de lá por volta das 13h, no máximo. No entanto, um passeio descompromissado pela manhã na agradável feira de domingo da cidade me atiçou os instintos, e não resisti em, alí mesmo e com ajuda de todos, pensar num cardápio para o almoço e já comprar os ingredientes a preços impensáveis de tão baixos se compararmos com BH. Com isso todos se reuniram para cozinhar, e acabei saindo tarde (16h) da cidade.

Às 18h15 havia percorrido 170km, e, sinceramente, até então eu tinha certeza de que conseguiria tocar a volta até BH no mesmo ritmo da ida, mesmo precisando percorrer metade da distância à noite. No entanto, dois deslizes em duas curvas relativamente bestas me fizeram assumir que uma limitação realmente me atrapalha (quando falo de pilotar moto): o meu astigmatismo realmente compromete muito a minha direção noturna. Não tive outra opção a não ser pousar no meio do caminho. Como diz o Fantini, sou motociclista mas não sou louco!!! Mas foi divertido, e não entrarei em maiores detalhes por sairem um pouco do tema. No entanto, este volta à tona (ou ao tema) quando penso na terra desconhecida que conheci por acaso e que me deu abrigo.

Segunda, 5h30 da manhã. Acordo, me armo e pego novamente a estrada – já cheia de caminhões insanos, que me travam e obrigam a diminuir o ritmo, mas nada demais – pelo menos para alguém que, mesmo ainda com muito a aprender, aprendeu com os camaradas e na estrada que prudência é fundamental. E aí vale uma observação com cara de conclusão:

A sobrevivência na estrada não deveria passar por asfaltos esburacados, motoristas imprudentes, carretas entrando do nada e sem avisar na sua frente para ultrapassar a 130km p/h caminhões que já estão a 110km p/h, pseudos “qualquer coisa” em suas Tucsons que sobem uma reta vagarosamente a 80km p/h e aceleram para 150km quando você, prudentemente, empreende sobre eles uma ultrapassagem. Isso tudo é o que eu vejo nas estradas (acima da média em termos de projeto e conservação quando falamos de Brasil – nada perto dos relatos do Camarada Fantini). Mas é uma realidade.

Ao mesmo tempo, se não citarmos isso tudo, não poderíamos chamar de sobrevivência. Pode parecer piegas, mas, sempre que sei que um amigo está na estrada, não torço para que ele não encontre essas situações – torço para que ele as encontre sim, mas também que sempre as supere. Ou melhor, que supere a si mesmo e cada vez mais as tire de letra.


02/07/11 consulta rápida no dentista

Fazem quinze dias que mudei de estado e cidade, vindo parar em Vitória no Espírito Santo. Vamos ver se dessa vez eu paro quieto num canto, empresa nova, vida nova, mas não vem ao caso. Havia trago boa parte da mudança (algumas coisas foram parar em Bhz porque na nova república já havia alguns móveis), mas dona stefânia, tadinha ficou para traz em Mariana. Não satisfeito em abandoná-la a própria sorte durante esses quinze dias, ainda moveram a coitada de garagem, porque na antiga república, a dona resolvera reformar a alvenaria e terminar o revestimento. E eu aqui na fila do embarque para pegar o avião para Bhz com toda a parafernália – capacete, jaqueta, coturno, alfoje, fora o kit de sobrevivência ao relento – protagonista de cenas insólitas, ao menos que você, caro amigo, já tenha visto algum motociclista nesta situação desconfortável. No check-in aceitaram que eu levasse as tralhas como bagagem de mão, menos mal. Depois de um pequeno atraso, embarque. Tive que pedir desculpas aos demais passageiros porque não conseguia enfiar o maldito alforje no compartimento de bagagem e antes que a comissária reclamasse, enfiei ele entre as pernas. O que já é desconfortável, ficou mais ainda. Seriam os 50min mais longos de minha vida, não fosse a sorte de sobrar um assento exatamente ao meu lado! Ser motociclista com fama de mal encarado, tem suas vantagens! Então fomos nós, eu e meu alforje, cada um em seu assento devidamente alojados. No desembarque pai estava lá para me dar carona, bem, quase, perdera o celular que achamos em seguida e sumiu lá no saguão. Encontramos com a mãe do Hugo, ele estava chegando para férias em Bhz (consegue estar mais distante que eu morando no Acre) e não podia deixar de esperar para dar um abraço no velho amigo. Puta coincidência. Igual uma vez em Iriri. Bem, essa de Iriri, foi mais coincidência ainda (mas é outro causo). Retorno para Bhz, família junta, uma visão geral das reformas lá em casa e se esbaldar na melhor feijoada da cidade que fica no quarteirão seguinte lá da rua. Além de bom, é barato. E ainda temos que brigar com a cozinheira para ela colocar pouca comida no prato feito. Muitos amigos já penduraram as chuteiras depois do prato cheio. Pena que o prazo era pouco para ainda pegar um trupico. Pai me levou até Mariana e a ansiedade já era grande. “Acha que ela vai funcionar?” perguntou com seu sutil sarcasmo de sempre. “Cai alho! Claro que vai.” Na verdade gastei mais tempo chamando a proprietária do estacionamento onde dona stefânia estava, do que tentando ligá-la depois dos quinze dias apagada. Uai, ela ligou depois de seis meses sem minha presença enquanto estava no Pará e dessa vez só engasgou para fazer charme. Maravilha de ronco em seguida! Despedi de pai e fui para São João Del Rey. Já havia solicitado um canto no terraço da casa do Daniel Spectro, do Filhos da Revolução, e apesar do incômodo durante o translado aéreo, o kit relento viria bem a calhar. Viria nada! O desinfeliz não deixou eu curtir o espírito da coisa e me alojou num quarto com chuveiro quente e tudo. Muito agradecido, como sempre, pela hospitalidade do companheiro e família. A única ressalva era trazê-lo de volta hoje, porque ontem tinha chegado cedo de Tiradentes, cinco da matina. “Ao menos traz o pão da próxima vez”, reclamaram seus familiares. Depois do café e prosa, fomos para Tiradentes. Estava bombando, estava cheio, estava demais. Achei o povo do Clã por telefone, estavam no Dona Xepa esperando a bóia, cai alho, já era mais de oito da noite, aonde é que eu estava que gastei tanto tempo para chegar? Tentei falar com o Macedo por telefone e nada, só caixa postal, então galera do Rio, fica para próxima. Achei o Billy e o 02, do Banished, e o Peralta do Dogs. O Peralta estava tomando coca-cola! Cara consciente, mas reza a lenda que a cada latinha que comprava, ganhava dois misteriosos copinhos de dose. Galera de sampa, desculpe o pouco tempo de prosa, mas tinha que encontrar com o povo do Clã. Lá estavam Hermano João, Broto “Billie Jean” Jr e Nuanda e suas respectivas. Bom, Broto Jr com sua respectiva baixa resistência ao alcóol protagonizando nossa felicidade. Diga-se de passagem que o tal estabelecimento Dona Xepa é muito bom, bom demais se seu objetivo é ficar mais de hora esperando uma porção de batata frita, linguiça e costelinha. Tudo bem que o evento estava lotado, mas dentro da bodega estava vazio. Com essa demora também, está explicado. Até o chopp já chegava quente na mesa após 5min de translado entre a bomba e a mesa. Todos comidos, fomos para a tenda da Krug Bier, onde o camarada de 4 anos seguidos faz seu show de voz e violão interminável e sem intervalos. O cara deve ter um pacto com algum santo para conseguir ficar direto sem parar, muito bom e o repertório atendia, conforme Hermano João, “gregos e troianos”. “Espartanos também” acrescentei. Ainda encontramos o Ebin, do Rasta Brasil. Saudade quando esse cara tinha moto! “Vamos esperar até janeiro”, frisou comigo. Ademais, estava excepcional! Mesmo para mim que foi uma consulta rápida ao dentista, no dia seguinte cedo viria para Vitória. E quem não foi, simplesmente perdeu! Ah! E o Daniel Spectro sumiu no meio da multidão, minha sorte é que ele resolveu chegar logo depois de mim e evitou que seu pessoal puxasse minha orelha. Eta rapaz danado esse! Born to be uai!


04/06/11 visita ao juquinha

Quase teríamos um bonde antológico subindo para Serra do Cipó para um bate e volta sugerido pelo Hermano João a mais tempo. Tudo combinado, deixei os apetrechos organizados para partir sábado de manhã de Mariana para Bhz. Toda vez me lembro do comentário de um camarada a meu respeito: “Fantini, você é o único cara que eu conheço que viaja para viajar de moto”. Ele tem razão, toda vez que combino com alguém, tenho que me deslocar primeiro, para depois realmente passear.
Para o diabo! Mesmo o conhecido trajeto pela MG356 cortando o caminho para Ouro Preto, somado ao aumento de volume de trânsito com a interdição da saída da BR262/381 em Bhz com a queda da ponte sobre o Rio das Velhas, ou o frio cortante que fazia às 07:00 da matina, não impedem de considerar o deslocamento inicial parte do passeio.
E ainda aproveitei, já que o trecho é conhecido, para aprimorar o contorno de curvas com a utilização de contra-esterço e controle da aceleração. Se você ainda não faz isso e acha que é só subir numa moto e pronto, considere aproveitar todo e qualquer trecho para treinar e aprimorar sua condução. Seu anjo da guarda agradece.
O Nuanda já tinha avisado que compromissos de trabalho haviam reduzido seu fim de semana a somente o domingo. Mas foi chato receber a mensagem do Broto Jr indicando que não poderia vir mais devido a falecimento de um parente. Não pode nem se apresentar no tradicional café da manhã na padaria em frente ao Condomínio JK na Rua Timbiras – tradicional porque era de lá que partíamos para as trilhas e nossa farra na lama.
A atendente perguntou ao Nuanda se queria beber alguma coisa e ele: “pode deixar, vou pegar uma coquinha”. Voltou com um pet de 2 litros. Cai alho!
Partimos eu e Hermano João em direção a Lagoa Santa. Perguntou se iríamos pela Pedro I, mas sugeri irmos pela Cristiano Machado mesmo, até porque precisava abastecer porque meu passeio tinha iniciado a 130km atrás. O trânsito na Praça Raul Soares e depois no pequeno trecho da Andradas / Teresa Cristina até o Complexo da Lagoinha foi tranquilo. Na Cristiano Machado, o que incomoda mesmo é a obrigação de manter a velocidade no máximo a 60km/h. Não rende.
Pegamos a Linha Verde (antiga MG10) e assim pudemos sentir o vento no peito e o cheiro de asfalto. Apesar das críticas e das reclamações inerentes de quem foi expulso da região da Savassi para os lados de cá, ainda acho que o Centro Administrativo Trancredo Neves é uma obra a ser aplaudida pela sua beleza. Acho que um dia vou marcar um passeio só para tirar umas fotos com o imponente conjunto servindo de pano de fundo.
Chegamos a Lagoa Santa e me lembrei de sua aparência de cidade satélite pacada da época em que trabahava na região a bem mais de 9 anos atrás. Hoje tomada pela explosão imobilária de condomínios verdes e pelo trânsito de sitiantes de fim de semana, sua travessia para finalmente pegar a estrada para Serra do Cipó é um certo incômodo. Não importa, o destino justificava qualquer incômodo.
Serra do Cipó. O clima, a beleza natural, as corredezas sobre pedras do rio logo na entrada da região, a imponente serra. Um espetáculo a parte. Uma pena que seria somente um bate e volta, aqui merece um bate e fica para aproveitar o movimento noturno (tinha até um boteco que teria um show de jazz). Bom, mas aí lembrei do trânsito em Lagoa Santa na saída no domingo, rsrsrs e achei melhor o bate e volta saindo no sábado num horário atípico ao rush.
Subimos um trecho da serra para tirar fotos nos mirantes. Não é só as fotos que se tira. É também de se tirar o fôlego! Não, não tivemos que empurrar as motos por pane seca (abastecemos na saída de Bhz), mas a vista é maravilhosa e o mar de morros se estende até aonde a vista alcança.
Já era mais de meio dia e achamos prudente almoçar para voltar em seguida, pois havia a festa junina do Thiago Aguiar a noite. Resolvemos pegar o frango com quiabo a R$10,00 na Taberna do Léo. Recomendo demais. Eu e Hermano João comemos, comemos, empurramos comida para dentro e ainda sobrou. E além de farto, delicioso. Nada a se comparar com a minguada refeição em Honório Bicalho de outras desaventuras.
Mas além do ótimo prato e excelente atendimento, o ponto alto seria a chegada de três pseudos em suas máquinas cromadas e personalizadas com peças originais de fábrica. Tinha um que ostentava jaqueta, capacete, calça, bota, camiseta, bandana e até cueca da marca. Sinceridade, está para nascer gente mais caricata! É capaz de nunca terem pegados um viagem longa, afinal a discussão deles era que a jaqueta esquentava demais. Cai alho! Se eu fosse contar que já torrei debaixo de sol quente para em seguida atravessar 100km debaixo de chuva era capaz de me dizerem que isso não é motociclismo. Rachei! Mas gosto é gosto.
Após o kilo e alguns comentários sobre uma possível visita a Blumenau na Oktober Fest, voltamos e a estrada novamente nos apresentou sua singela combinação de fundo azul escuro com linhas amarelas e brancas. Às vezes numa reta a se perder de vista, em outras logo se perdia o que havia adiante no contorno da curva, até que o belo horizonte surgisse a nossa frente.
Beleza, mas e o Juquinha? Esqueceram de visitá-lo, não? Pois é, não achamos o dito cujo, teremos que voltar a Serra do Cipó outro dia.


09/04/11 o que te faz motociclista

Basta comprar uma moto e pegar uma estrada, certo? Apesar de ter feito exatamente esta dobradinha fundamental, para mim ainda faltava alguma coisa.
E esta alguma coisa era a experiência visceral de uma viagem de moto em seus fundamentos: o destino é a estrada e não o lugar. Afinal não deve haver lugar para ir, deve haver apenas o trajeto. Qual trajeto afinal? Nenhum. Apenas pegue a moto e vá e foi o que eu fiz.
Quando estava saindo, mandei uma mensagem para um amigo de Petrópolis, avisando que passaria por lá. No primeiro abastecimento, já distante do ponto de partida, vi uma mensagem dele de que não estava em casa. Comecei a achar a coisa interessante.
O intento, mesmo com a pouca bagagem, era aproveitar a cidade do companheiro, sua presença e tornar as coisas mais fáceis. Opa! Isso não é visceral! Então o simples fato de ele não poder me receber, tornou a viagem única. E assim me fui. Era uma estrada que ainda não conhecia e desta vez nem verifiquei no mapa possíveis postos de combustível. Estava disposto a enfrentar o que o destino me apresentasse.
Começou a esfriar e o tempo ficara nublado. Adivinha se eu trouxe algo além da roupa que usava: a segunda pele (ok, não tão hardcore), o jeans, a jaqueta, o coturno comum e uma muda de cueca e meias? Isso mesmo, não trouxe. Apenas toalha e sabonete (rsrsrsrsrsrsrs, só faltou o petit gateau).
E nisso me dou conta que nenhum posto de combustível surgiu até agora. Mais de 215km desde a última parada, começo a ficar preocupado. Engraçado que nas outras viagens já estaria dando sinais de precisar da reserva. Vou verificar a torneira de combustível, estava na posição de reserva. Diacho! Tudo bem que estava disposto a tudo, mas rezei para não ter pane seca.
Finalmente o posto no início do RJ. O frentista me pergunta se também vou a Rio das Flores, já que havia um encontro de motos lá. Nem sei onde fica a cidade. Como se chega? Ah, volta até a divisa com MG, pega a saída, depois mais 50km na estrada vicinal. Parecia uma boa idéia e tinha tudo a ver com o objetivo do fim de semana.
Só que queria ver Petrópolis assim mesmo, voltaria em seguida para a tal Rio das Flores. O frio começou a incomodar na região serrana de RJ. Cheguei ao centro histórico de Petrópolis e achei um tanto bucólico. Pensei novamente sobre o encontro em Rio das Flores ou se desceria mais um pouco e em seguida emburacasse para SP.
Resolvi ir para o encontro, fiz meia dúzia de contas e fui sem reabastecer. Peguei a tal saída na divisa com MG. Já era fim de tarde. Agora ao frio, somou-se o lusco-fusco e uma garoa. Basta botar capa de chuva. Qual? Esqueceu que não trouxe? Sim, neste momento senti o espírito da coisa. Somente eu e dona stefânia, num lugar desconhecido e em condições adversas e novamente o risco de pane seca. Motociclismo de verdade.
Consegui chegar a Rio das Flores. No posto me aproximo de outros motociclistas. E o tal encontro, onde é? Tem pousada aqui perto? Olharam para mim e perguntaram atônitos:

– Mas você está sozinho?
– Uai, estou.
– Veio de onde?
– Estou rodando desde ontem, comecei em Mariana, fui a Bhz, sai para a Estrada Real, passei ali em Petrópolis e me deram a dica desse encontro aqui.
– Você é doido?
– Não, sou motociclista.

Nossa risada foi sensacional. Estava finalmente batizado.


25/06/10 de volta ao dentista

A região da Estrada Real, que concentra as cidades históricas de Minas da época do ciclo do ouro, tem um clima muito interessante no inverno. Por incrível que pareça faz calor durante o dia, a ponto de incomodar ficar exposto ao sol. Já à noite, a temperatura cai bruscamente e, ao arrepio de alguns amigos meus, faço uso do velho e bom cachecol. Considerando esse clima e não podendo perder o Tiradentes Motorfest no fim de semana (afinal seria um revival da primeira viagem com dona stefãnia), me programei para encontrar com amigos de Bhz, Nuanda, Ebin e Broto Jr, no sábado de manhã e descer para o dentista por volta de 09:00 no Posto Chefão na saída para o RJ. No final do dia subiria para Itaúna, pois também estava devendo uma visita (só tem quase um ano) a outro amigo, Flávio, que mora lá. Sexta logo cedo, aguardando reunião no escritório da empresa em Bhz (a unidade que trabalho fica em Mariana e nem precisa comentar que sai de madrugada de carro para estar cedo em Bhz), me aparece mensagem do Nuanda: “Fui”. Ca ialho, pensei, foi para onde diabos? Liguei para perguntar, não atendeu, mesmo depois de três tentativas. A resposta só vim a saber no meio da reunião com outra mensagem dele: “Tiradentes está demais, gente bonita e chopp da Krug. Se eu fosse você viria agora também”. A vantagem de nossos amigos e que podemos maldizê-los sem que isso gere qualquer intriga, portanto maldito Nuanda, isso lá é mensagem que se manda para alguém que está no meio de uma reunião discutindo um bocado de assuntos, menos moto? Depois ainda insistiu: “Já arrumei um quarto barato para passar a noite. Vem hoje mesmo”. Cai alho, vou dizer que foi um dos dias mais longos que já passei no escritório. Nem o interlúdio com aquela pelada que a seleção fez contra Portugal salvou. Finalmente 17:00 e estou livre. Livre? Bom, livre para voltar para Mariana. Uma ducha rápida (na verdade um chuveiro quente porque já estava frio), separa o essencial na bolsa de sissy-bar, três cuecas, quatro pares de meia, moleton, cachecol (lógico) e umas duas mudas de roupa. Armadura no corpo e pé na estrada. Já eram umas 20:00 quando sai de Mariana em direção a Tiradentes. Tanto o trecho da Estrada Real entre Ouro Preto e Ouro Branco e depois a interligação entre Congonhas e São João Del Rey, são estradas lindas com uma paisagem merecedora de muitas fotos. Bom, isso de dia, a noite e nesta época do ano, eu me perguntava se seria possível o Motul 5100 deixar de ser sintético e dona stefânia voltasse a ferver debaixo das minhas pernas como na época do Yamalube. Tudo bem, tudo bem, não serei tão rabugento, a lua cheia estava linda e era a cereja do bolo. OK, do sorvete. Em compensação acho que estou preparado para qualquer incursão ao Sul do país. Fora que companheiro cornija ficou lá encolhido, praguejando o frio, e nem me incomodou. Mais de 22:00 e chegava em São João Del Rey. Confirmei com o Nuanda onde encontrá-lo em Tiradentes e para lá fui, pela estrada velha mesmo, para o arrepio dos meus ossos que na conjunção do frio com os solavancos realmente pareceu que partiriam a qualquer momento. Tudo bem, o abraço do velho amigo ao encontrármos resolveu o problema. Tiradentes estava demais e principalmente a tenda da Krug Beer estava demais. Podem nossos amigos paulistas exaltar o Pinguim ou nossos companheiros cariocas aplaudir a Devassa, mas Krug Beer é cosa nostra! Chopp perfeito. Fora o camarada na voz e violão que estava muito engraçado com um repertório bem variado, passeando por vários clássicos. Ficamos lá com uma galera que o Nuanda conheceu durante o dia, pessoal muito bacana que vieram de speed. Antes disso, ainda vi o Tuí e o Alexandre Moreira lá na tenda da Motostreet. Por volta das 02:30 consideramos que já era hora de dar um tempo, mesmo porque o show acabara. No caminho para ir embora, não é que vemos novamente o Alexandre, agora acompanhado do Russo. Conseguiram nos segurar até depois de 04:00 da matina contando as peripécias do Russo para sair de Riberão Preto até Tiradentes. Não sei como ele conseguiu, mas deu uma boa volta por dentro da Lagoa de Furnas (até usou balsa), ficou perdido em estrada de terra, uma piada. Estava com a menina que conheçou em Riberão da época do passeio Dragueiro em Jardinópolis. Dois ótimos camaradas. Sábado de manhã, por volta de 07:30 fui agraciado com uma ligação do serviço bem no meio do meu sono embelezador. Informação sobre como estava o andamento de uma obra da empresa. A boa educação me impediu de falar que não queria saber daquilo naquele exato momento, mas foi uma informação pertinente. Segundo tempo de sono, 09:30 liga o Ebin: “Aqui, o Broto Jr não apareceu, como fazemos?”, “Larga a franga para trás” respondi e desliguei. Novamente a vantagem dos amigos é que podemos desligar na cara que ninguém deixa de te pagar cerveja por causa disso. Acordei mesmo por volta de 10:00. Banho e a surpresa de um super café na porta do quarto. Até que a “pousada” que o Nuanda arrumou era muito fina. No outro quarto tinha uma camarada com uma BMW, gente fina, mas não guardei o nome. Voltamos para o encontro e daqui a pouco esbarro com o Peninha, que estava meio com pressa e desapareceu na multidão. Mais um pouco e lá está o Ajota perdidão no meio do povo. Grande Ajota, companheiro de estrada e de muito encontros. Me confidenciou que já estava de olho numa moça de Goiânia. “Mas, Ajota, e a moça de Uberlândia?”, “Fantini, motociclista gosta de uma estrada, temos que ter vários destinos”. Realmente ele tem razão. Demos uma volta pelo evento e como eu disse o calor do dia começou a incomodar. Nenhuma notícia do Ebin ainda. Liguei, fizeram um pit-stop em São João Del Rey. Encontramos novamente a galera de speed de ontem. Vim a saber que uns deles queria mais que todo mundo se fodesse, explico, é dono de motel. Pouco depois de 14:00 despedimos do pessoal, dei um último abraço no Ajota e eu e Nuanda pegamos estrada. Ele tinha compromisso em Bhz e eu ainda tinha mais um asfalto até Itaúna. De dia a vista da estrada entre são João Del Rey e Congonhas é um espetáculo, viemos até num ritmo mais lento, lembrei-me do PE-49. Fomos assim até pouco depois de Lagoa Dourada, onde aceleramos o ritmo pois havia ficado um pouco tarde para nossos objetivos finais. Como ainda estava sem almoço um pequena parada em Congonhas para um pão de queijo. Despedi do Muamba, apesar que ainda dividiríamos a BR040 até o Anel Rodoviário, onde eu desceria para a Cidade Industrial e depois pegaria a Fernão Dias e ele desceria direto para Bhz pela Nossa Senhora do Carmo. Já sozinho na Fernão Dias, passei pelo velho caminho de sempre até Itaúna, passando por Igarapé e depois Itatiauçu. Quando parei para reabastecer na saída de Bhz, o frio já começara a cortar e melhorei minha condição térmica com um cachecol (sim, já deve ter alguém comentando: “cai alho de cachecol, Fantini”, mas faz muita diferença no frio). Cheguei na casa do amigo Flávio e a festa de aniversário da filha dele já estava bombando. O bom foi rever a Michele, uma amiga lá de Itaúna, linda como sempre. Aliás ela estava muito arrumada no vestido de festa e o brutamontes de jardim aqui (no alto dos meus 1,67m) com a armadura toda imunda por uma chuva de barro que tomei de uma carreta na estrada. Um cena típica de qualquer ser motoandante. Muita cerveja depois e ao fim da festa, lá estava eu capotado na cama improvisada na sala da casa. Tudo perfeito. Assisti aos dois excelentes jogos do domingo. Alemanha e Inglaterra, para mim até o momento o melhor jogo da Copa, e Argentina e México. Em seguida despedi do Flávio e família, missão Itaúna cumprida. Novamente a solidão do asfalto em direção a Mariana. Solidão? Lá estava eu com dona stefânia e companheiro cornija, este impagável e novamente praguejando o frio. Emprestei para ele o cachecol.


15/08/09 royal highway

Olha só como é a vida. O que estava combinado era somente rodar quase sem destino no sábado – na verdade tinha programado finalmente fazer o trecho da estrada real entre Ouro Branco e Ouro Preto – junto com o grande Broto Jr que ainda está se acostumando com sua imperial Viragosa 535.

Bem, cumprindo com minha vida de morador do interior, viajei para Bhz na sexta. Daí a pouco o Broto Jr me liga. Já imaginei: “lá vem ele mijar para trás de novo”. Qual nada, um amigo nosso ia tocar com sua banda no covil dos Vutu’s e não podíamos perder. Quem sou eu para discutir com um amigo, também motociclista, e que ainda me chama para um show de rock numa sede de Motoclube?

Chegamos lá e tenho que reconhecer que o local está muito fino, parabéns para a galera do Vutu’s. Para quem quiser conferir, fica na R. São Paulo 1480 próximo a Av. Bias Fortes no centro. A parte divertida é que o local era uma antiga boite (ou puteiro para os mais ávidos). Sou suspeito para falar do show, afinal a banda Metalzone é de pessoal amigo de longa data, mas para quem curte um black sabbath ou um motorhead pode ir no próximo show de olhos vendados.

Antes de meia noite Broto Jr decide ir embora: “Vou descançar para amanhã.” Até mais e fiquei pensando… Amanhã? E o que diabos tem amanhã? Cai alho, o passeio na estrada real. Acho que as doses de guaraná antartica me deixaram meio grogue. O melhor era ir para casa também e descançar para o sábado.

Às 08:00 em ponto, conforme combinado, lá estava o Broto Jr na porta de casa (quero dizer casa dos meus pais). Logo de cara vi o cabo do hodômetro da Viragosa solto e providenciei o reparo. “Pô, Gustavo, começamos bem, hein?”. Calma, Deus cuida bem dos seus bons filhos, e toda a má sorte foi descarregada neste cabo solto que já está OK. Partimos para a estrada.

Subimos a BR040 em direção a Ouro Branco. Primeiro pit-stop no Topo do Mundo na Serra da Moeda para uma sessão de fotos. Volto a recomendar pela vista e pelo clima. Bom, para aqueles que andam reclamando da rebeldia dos cabelos (saem e não voltam), recomendo não retirar o capacete ou ainda treinar com seu mestre jedi para retirar o capacete e colocar imediatamente um boné. O vento que no local é excelente para a prática de paraglide, também é conhecido por levar os cabelos embora. Sinceridade, se amarrasse uma pipa no sissy bar, era capaz de levantar a dona stefânia.

Voltamos para a estrada, deixamos para a trás a maravilhosa vista e trocamos o vento de arrancar os cabelos pelo vento no peito. Se bem que somente eu troquei, afinal Broto Jr colocou uma bolha na Viragosa. Não sei se dona stefânia ficaria bonita com uma, mas eu prefiro mesmo o vento no peito.

No Viaduto das Almas, as obras para algum dia ligar o novo viaduto já pronto com a pista da BR040 (dizem que entregam em 2010) atrasam um pouco a viagem. Eu não ligo, afinal se já é perigoso de carro passar próximo a caminhões e escavadeiras, de moto então. Já imaginou tomar uma conchada de escavadeira bem no meio da viseira? Fria.

Finalmente Congonhas e logo em seguida a saída para Ouro Branco. Em Ouro Branco um necessário pipi-stop. E então a parte mais esperada, o minúsculo, mas fantástico trecho de 30km da estrada real entre Ouro Branco e Ouro Preto. Reduzimos a marcha e fomos tranquilamente nos atentando a cada detalhe. A vista é algo a parte e a estrada através da serra é um espetáculo.

Paramos próximo a uma das antigas pontes de pedra da estrada original (ficam fora do asfalto para o trãnsito não danificar) para uma sessão de fotos. Se não me engano são no total 5 pontes. Se considerar que foram erguidas a uns 300 anos atrás e ainda estarem lá, temos que respeitar a capacidade dos antigos arquitetos e operários. Eu particularmente acho algo para se orgulhar do ser humano, apesar de todos os nossos defeitos e pecados.

Em seguida passamos em frente a saída para Lavras Novas e continuamos em direção a Ouro Preto. Um novo pit-stop na Praça Tiradentes. Atenção dessa vez foi só pit-stop, não venham nos chamar de vândalos e pessoas sem pudor que se aliviam num patrimônio histórico. Tinha uma galera grande lá também a passeio de moto, provavelmente a caminho de um moto encontro que estava tendo em Ponte Nova.

Seguimos para Mariana onde almoçamos para repor a energia. Como eu tinha que participar de um seminário no domingo e segunda em Bhz e não podia ir com dona stefânia, deixei ela em Mariana e subi de volta para Bhz, acompanhando Broto Jr de picareta.

Com a vontade satisfeita com relação ao passeio na estrada real, ficou uma sensação de que deixamos algo para trás… Ah, é! Foi a má sorte lá no cabo do hodômetro solto.


01/07/09 aquele que anda sozinho

Alguém aí deve ter ficado curioso com a história das 3 motos com pane no meio da trilha às 18:00, então lá vai.

Domingo, em algum momento entre julho e setembro de 2008.

Saí de Itaúna de manhã cedo e busquei o Nuanda na casa dele em Bhz. Café tomado, fomos para o hotel de motos no Vale do Sereno (Seis Pistas). Umas 08:00 da manhã. Colocando a armadura no vestiário do hotel de motos quando o Nuanda solta aquela musiquinha evangêlica:

– Sai, sai, sai / sai do meu caminho / eu ando com jesus / satanás anda sozinho.

Não aguentei e comecei a rir e ele me perguntando porque, eu disse:

– Já imaginou, a gente no meio da trilha, vem um camarada esquisito numa moto monstra, fedendo a enxofre e a gente comenta: ‘Aí doidão, quer andar com a gente’, e ele responde:

– EU ANDO SOZINHO.

Piadinha rídicula daquelas que você tem que passar para outra pessoa para ela também ficar com raiva. Encontramos com os outros dois companheiros, Bernardo e Bruninho, que iriam conosco e soltei o causo do cara que anda sozinho. Zoação geral. A cada momento na trilha a gente comentava rindo: “Cuidado depois dessa curva para não bater de frente com o cara que anda sozinho”. Uma farra só.

Nessa época as trilhas LAIR e ROGERINHO ainda estavam abertas. São duas trilhas que existem a séculos, mas tiveram a boa idéia de construir um condomínio em volta e os inquilinos resolveram fechar as duas trilhas e expulsar os trilheiros de lá. Assim começamos pela PERDIDAS / DESAPARECIDAS, a partir do condomínio Vila Del Rey, saída para Nova Lima, cujos moradores não são tão estressados. Parada na Barraca da Mama Jack, uma maluca que vendia salada de fruta, água de coco, etc num entroncamento das trilhas. De lá resolvemos pegar a ROGERINHO que é uma trilha bacana e muito bonita por ser dentro de uma mata. Por essa trilha a gente chega em Honório Bicalho, distrito da região de Nova Lima. Tudo perfeito.

Chegamos a Honório e rodando pela cidade resolvemos bater um almoço num restaurante / boteco bacana a beira do Rio das Velhas. A partir daí começou a desandar.

Vi no cardápio Costelinha com Ora pro Nóbis, demorou, pedi na hora. Daí a pouco volta a garçoa: “Acabou a costelinha, o Sr. gostaria de pedir outro prato?”. Depois de confabular com a galera, outro prato especial: frango com quiabo. Esse tinha. Ficamos esperando e esperando e esperando, mais alguns comentários esdrúxulos sobre o cara que anda sozinho, e nada de frango com quiabo. Nessa hora resolvo ir ao banheiro. Quando eu volto, finalmente tinha chegado o frango com quiabo. Fiquei puto com o povo, afinal só tinha sobrado quiabo na panela de pedra.

– Pô, galera, sacanagem, comeram o frango todo.
– Espere a segunda panela para você ver, responderam.

Puta sacanagem, pensei. Tudo bem, atacaria a segunda panela. E veio ela. Mas cadê o frango. Uma baita panela, lotada de quiabo e nem meia dúzia de uns cotocos de frango a passarinho. Só podia ser zoeira. Aí fui entender porque era para eu ver a próxima panela. O frango com quiabo, na verdade era quiabo com essência de frango.

Emputecimentos a parte, fechamos a conta, todos insatisfeitos com o frango com quiabo, e zarpamos para subir a trilha ao ponto de origem por volta das 15:00. Daí a pouco a moto do Bernardo do nada simplesmente trava. Não ia para frente nem para trás, desandou. Verifica daqui, verifica de lá, primeira opção de pane, quebrou a caixa e travou engatada. Beleza, vamos arrancar a corrente, deixar roda livre e rebocar. Ao iniciar o desmonte da corrente pudemos verificar que na verdade era um dos parafusos da coroa que havia soltado e estava travando a roda. Parafuso arrancado, nós arrancamos de volta para trilha.

Mais uns buracos e pedras após, a moto do Nuanda trava sem força numa raiz. Fica ele lá acelerando, acelerando e a moto sem força para passar. Uns 5 minutos de tentativas depois perguntei:

– Será que está difícil engatar a primeira?
– Já está de primeira, cai alho! – respondeu

Beleza, verifica daqui, verifica de lá, embreagem foi para o saco. Dessa vez não tinha jeito, reboque mesmo. Peraí, alguém tinha corda. Não, nínguém. Dividimos então em dois grupos, fiquei com o Nuanda esperando, enquanto o Bernado e o Bruno voltavam para Honório para conseguir uma corda emprestado.

Uma hora depois, voltam o dois. Beleza. Segundo plano, Bruno vai rebocando Nuanda para Honório, enquanto eu e Bernardo, voltamos para Bhz, largamos as motos, pegamos as picapes e buscamos os dois em Honório (tem um acesso via asfalto antes que alguém pergunte como iámos passar pela trilha de carro). Até aí tudo bem. Em meia hora, assim do nada, pow! Caiu a noite. Acho que nenhuma expressão caiu tão bem quanto essa naquele momento. Breu total. Aí alguém vai pensar, beleza, liga o farol auxiliar e boa. Que farol auxiliar? Nem farol principal a gente tinha.

Falei com Bernardo que era melhor a gente também descer para Honório, porque a distância era bem menor e o trecho até lá menos rasgado, do que voltar pela trilha até o Vila Del Rey e ainda de noite. De lá a gente arrumava uma carona até Bhz e voltava com as picapes para resgastar as quatro motos. Ele concordou, quem não concordaria nesta situação? Sem farol apelei para meu celular Sony Ericsson. Hoje recomendo a todos os celulares da sony, a luz da câmera integrada que pode ser usada como lanterna, salva demais nestas situações.

De repente escuto um baque e o Bernardo grita. Tinha comprado terreno. Ajudei ele a levantar, pegamos a moto e pimba: manete da embreagem quebrada. Perfeito. Encaixou do jeito que deu e assim era possível acionar a embreagem e andar com a moto devagar do jeito que a gente estava indo. Daí a pouco encontramos com o Nuanda e o Bruno, perdidos no meio da escuridão, pedindo salvação para a luz do meu celular.

E assim fomos os quatro, andando quase parando, torcendo para mais nada dar errado. Por volta de umas 20:30 chegamos novamente em Honório. O Bruno foi atrás do cara que tinha emprestado a corda para ver se ele arrumava uma carona para gente. Conseguiu uma kombi e o camarada cobrou somente R$50,00 para levar eu e Bernardo para Bhz, onde pegaríamos as picapes. Agradeci por ainda ter uma onça no bolso. E assim fomos na kombi, movida a gás que fazia a incrível velocidade máxima de 20km/h. 1h e meia depois finalmente Bhz, agradecemos, arrancamos a roupa suja (a armadura já tinha ficado em Honório), pegamos as picapes e voltamos para Honório.

O mesmo trecho sem correria em apenas 20min. É foda. Chegamos a Honório, já estava bastante frio, Bruno e Nuanda haviam improvisado uma fogueira. Subimos as motos para as caçambas e alguém me solta:

– Mas de tampa aberta a polícia da barreira vai parar a gente.

Preferi correr o risco. E não é que passamos na barreira sem problemas? Mesmo porque se fossemos parados, acho que o policial ia entender nosso dilema. Quase meia noite e descarregamos a motos, tomamos um banho, trocamos de roupa e fomos embora. Deixei o Nuanda em casa e subi para Itaúna. Cheguei lá depois de 02:00 da matina. Perfeito. Segunda é um novo dia.

Apesar do cara dizer: “EU ANDO SOZINHO”. Nesse domingo ele resolveu andar com a gente.