Prudens quid pluma niger secundum

* Viajando Sozinho

03/11/17 strange days ride

Era para ser só mais uma viagem de moto, coisa simples, uma voltinha qualquer para manter o ritmo e a mão firme.

Tanto tampo longe de Hellen Dawson que eu mesmo duvidava se ainda sabia se era a 1a para baixo e as demais para cima e só alegria.

Um breve conversa de boteco no Outbeth em Nacala-a-Velha com os companheiros portugueses, que também fizeram de Moçambique sua segunda casa, me demoveram da idéia de uma volta em Portugal com um pulo em Marrocos.

⁃ Fantini, ouve lá, novembro faz chuvas na terrinha, não há de ser bom.

Apesar de não me importar muito com chuva, eu bem preferia uma viagem à seco dessa vez. A Voortrekker já fora de bom tamanho para provar para mim mesmo de que chuva não é problema.

Para quem já me conhece, sabe o tanto que fiquei triste depois de tanto planejamento e verificação de hotéis, condições de estrada, onde comer bacalhau ao punho e todas as amenidades necessárias para viajar de moto.

Abri o browser e digitei: “onde viajar em novembro?”. Eu particularmente não sei como será o mundo do futuro, uma coisa para mim é certa, computadores saberão mais do que nós e lá na miríade de dados da nuvem a resposta era clara: dez opções diferentes de países que em novembro valeriam uma visita.

Lendo cada explicação dos porquês, clima, temperatura, comida, o que fazer, até um guia de expressões locais, me deparo com o Nepal na lista de países recomendados.

Entre tantas velharias que o Imperador me ensinou a escutar do velho e bom rock ‘n’ roll, Cat Stevens sempre foi algo bacana e eu viajava na música Katmandu:

⁃ Katmandu, I’ll soon be touching you. And your strange, bewildering time, will hold me down.

Fiz mais duas pesquisas (velho, num futuro próximo o próprio smartphone vai dizer: olha, achei essa passagem e essa empresa de aluguel de motos já que quer ir ao Nepal), e por mais incrível que possa parecer, achei passagem aérea num preço bom e três empresas diferentes de aluguel de moto. No Nepal!

Depois de algumas trocas de e-mail, a empresa Parikrama Treks & Expedition me chamou a atenção pela organização, referências e cordialidade. Uma rápida confirmação na Skyscanner e voi-a-la, tudo no esquema.

⁃ Como assim, tudo no esquema, Fantini? Cadê hotel, qual trajeto?

⁃ Velho, eu pedi para dar uma volta no Nepal de moto e a turma da Parikrama me perguntou se eu sabia pilotar, que o resto era com eles.

Sensacional. Aliás mais que agradecido ao Sr Kumar Basnet e ao companheiro de viagem Sr Sujan Basnet que me trataram como príncipe. Eles até comentaram que se tivesse vindo em Setembro, tem uma excursão que fazem todo ano para o Base Camp Norte do Monte Everest que se alcança através do Tibet. Sim, se chega lá de moto. O famoso Base Camp Sul do lado do Nepal, só na caminhada assassina morro acima de 8 dias com paradas para aclimatação e carregando suas tralhas nas costas.

Mas lá estava eu sentando no aeroporto de Nampula / Moçambique, esperando o tempo passar, duas pernas de vôo depois lá estava eu no terminal C do aeroporto de Dubai / EAR, esperando o vôo para Kathmandu. Que choque cultural ver aquela mistura de gente da India, Casaquistão, Rússia e toda a sorte de leste europeu, mundo árabe e Ásia. Quando falo que viajar é melhor que comprar sofá, é por causa desses momentos.

Em Kathmandu, o visto se faz no próprio aeroporto. Há vários terminais para emitir o pedido de visto na hora, uns caixas para pagar a taxa de usd25,00 e depois só se apresentar no guichê de imigração com todos os comprovantes. Processo simples, único porém que uma centena de gringos fizeram a mesma pergunta que eu sobre onde ir em novembro e também devem escutar Cat Stevens. Duas horas de fila para um esquema que se gastou 1 min efetivo em cada etapa, foi muito.

A equipe da Parikrama já estava a minha espera e me levaram ao hotel. No dia seguinte já me trouxeram a moto para um test-ride em Kathmandu: “para acostumar com o tráfego”, segundo Sujan. Velho, lembre de todos os vídeos de trânsito nos países asiáticos que já recebeu. Agora imagine-se dentro do trânsito. Agora está aqui o carismático Fantini, vivendo isso na real. Surreal. Não tem sinal, não tem placa, não tem preferência e ainda assim funciona e flui. Só na prática para compreender como é possível.

Ponto para a moto, uma Royal Enfield Classic 500cc. Confortável, robusta, leve e boa de conduzir. Apesar de seu visual clássico oriundo de design da época da guerra mundial, o conjunto é bem ágil e responde bem aos comandos, o que tornou um pouco menos apavorante a experiência do trânsito caótico.

Depois da devida introdução à milenar arte de usar um veículo automotor no trânsito asiático, começou o devido passeio. Arredores de Kathmandu e depois a estrada no dia seguinte, conhecendo as cidades e a cultura ancestral do Nepal. Suas belas paisagens cercadas de montanhas da cordilheira do Himalaia, caminhões coloridos com suas buzinas musicais, estradas vicinais subindo e descendo serras infinitas, estradas sem pavimento, toda a sorte de gente andando a pé ou tocando búfalos e cabras. Sim, búfalos, a vaca é um animal sagrado e substituíram por búfalos.

⁃ Mas não é praticamente a mesma coisa, Fantini?

⁃ Eu também acho, mas você realmente vai discutir a cultura milenar dos caboclos?

Em Kathmandu conhecemos o centro antigo Hanuman-dhoka Durbar Square com templos e “capelas” em toda esquina e o complexo Buddhapari. Uma pena que o terremoto de 2015 danificou muita coisa e destruiu completamente dois templos.

De Kathmandu partimos para Bhaktapur para conhecer a antiga capital também cheia de templos. De lá terminamos o dia em Nagarkot. Logo na chegada de Nagarkot, havia uma trilha para um templo, 20 min de pedras, valas e raízes e ainda me acostumando com a moto, carregando bagagem, me demoveram da ideia de continuar. Provável que tenha perdido algo espetacular, mas era melhor do que comprar terreno.

De Nagarkot seguimos para Bandipur, não sem antes me perder do Sujan no meio do trânsito caótico na saída para a rodovia. É muita poeira e caminhões e ônibus. Afinal, a aventura só começa quando algo dá errado. Dois telefonemas para confirmar se estava na direção certa, encontrei Sujan e alcançamos nosso destino. Bandipur é muito simpática e criaram um calçadão central onde não passa carros e tem vários restaurantes com comida típica. Gostei de lá, me trouxe lembranças das cidades do interior de Minas Gerais.

E tome cerveja local Gorkha (excepcional) e o tira gosto Sadeko, que pode ter várias opções de base (amendoim, grão de soja ou outra semente crocante) numa mistureba de tomate, pepino, cebola, alho, gengibre, coentro, pimenta, tudo picadinho e um sumo de limão por cima. Velho, cura gripe, sinusite, olho seco, afta, unha encravada, bico de papagaio, acorda defunto, entre outras coisas. O único efeito colateral é que arranca o couro da língua de tão apimentado que é.

De Bandipur partimos para Pokhara. Pokhara é a segunda maior cidade do Nepal e um hub turístico famoso. Realmente a cidade tem uma gama completa de passeios: um lago para pegar canoas, o topo de Sarangkot com vista espetacular do conjunto Annapurna, paraglide, ultraleve, helicóptero, trekking até Base Camp do Annapurna (só 5 dias de caminhada, fácil), no topo do outro morro uma das 70 Peace Pagodas que o zen budismo japonês construiu mundo afora, lojas e mais lojas.

Inclusive as lojas foram providenciais. As luvas da época de trilha que tenho a quase 10 anos, que estava usando junto com a velha jaqueta nas voltas malucas fora do Brasil, finalmente cederam a tanta estrada e poeira. Acabei encontrando um par de luvas confortável por usd6,00. Acho que no Brasil, só pela marca, cobrariam uns R$100,00.

E naturalmente que outra coisa boa era a quantidade de botecos. Começamos em um na beira do lago, partimos para outro na rua principal, desse atravessamos a rua para outro que tinha música ao vivo (banda muito boa com uma mescla de rock mundial e local) e de lá fechamos num pub com palco e tudo com outra banda tocando rock clássico. Fino.

De Pokhara seguimos para Lumbini. Seria o trecho mais longo. Mais de 5h para fazer uns 200 e poucos km. Curvas e mais curvas numa estrada de serra infinita. Literalmente contornamos todas as montanhas possíveis. E lógico que rolou aquele caminho errado básico quase chegando. Dai só mais 1h para encontrar o hotel. Mas compensou demais, pedaço de estrada muito fino.

Lumbini é conhecida por ser a cidade onde nasceu Siddhartha Gautama, sim o Buddha. Para ser sincero, não tem nada na cidade, nem traços do reino que ele renunciou. O único passeio é um complexo de templos e monastérios budistas dentro de um parque fechado. O cansaço foi mais forte e preferi um boteco de leve.

De Lumbini seguimos para Chitwan, como estávamos na parte baixa do Nepal, dessa vez praticamente só retas no trecho e foi possível verificar a velocidade final da Royal Enfield alcançar a marca de 100km/h, onde a estabilidade fica bem comprometida e é possível sentir princípios de chimada. Além disso, a própria condição da estrada, trânsito, animais, pessoas e outros obstáculos na pista, indicavam a cautela de manter a máxima em 80km/h.

Em Chitwan há uma reserva nacional para proteção da floresta. Ponto alto para o passeio de canoa no rio com crocodilos descansando nas margens, alheios (ainda bem) à nossa presença, e o passeio de elefante floresta adentro. Bacana demais, inclusive com a oportunidade de ver 3 rinocerontes asiáticos ali de boa. Faltou o tigre, apesar de vários sinais de sua presença próxima.

De Chitwan partimos para Gorkha, cidade encravada no topo de outra montanha.

Neste trecho tivemos a pior estrada de toda a viagem. Um trecho de 50km do total de 160km estava completamente sem pavimento, o que não era bem o problema. O tenso foi o trânsito parado neste mesmo trecho em ambas as pistas. Foram 3h de muita poeira, ziguezagues infinitos, atravessando “acostamento”, buscando espaços inexistentes nos corredores. Com o cansaço, a tensão, o calor, consegui perder o equilíbrio em dois ziguezagues em baixa velocidade que apesar do tombo, não houve nenhum estrago, a não ser um espelho retrovisor.

Já o pobre Sujan não teve a mesma sorte e numa ultrapassagem entre a fila de carros e motos, pegou uma sequência de valas e caiu feio. Quebrou somente o farol, um empeno no pedal e uma leve luxação no tornozelo que não impediram de seguirmos viagem. Felizmente.

Principal atração em Gorkha é o antigo palácio do rei que unificou o Nepal, até então vários reinos separados, em um único reino de onde o país se originou.

⁃ Ah, Fantini, achei que a atração seria a fábrica da cerveja Gorkha que comentou.

⁃ Eu também, que decepção!

De Gorkha seguimos para Daman em outro topo de montanha. Assim pegamos mais um maravilhoso trecho de serra e estradas vicinais com suas curvas infinitas.

O único porém foi um desinfeliz de um policial que numa barreira improvisada pouco após sairmos de Gorkha, apesar de ter reduzido bem a velocidade, o desinfeliz me entra na frente da moto, de costas para mim, caminhando de boa. Na frenagem para evitar atropelar o boca aberta, os freios travaram e fui ao chão. Bom, só o susto e leve escoriação, com certeza teria sido mais grave se atropelasse o infeliz.

Em Daman, além de uma vista panorâmica da cordilheira do Himalaia, finalmente tivemos frio de verdade na viagem toda. Realmente novembro é uma boa época para visitar o Nepal, com temperaturas amenas na manhã e noite e dias ensolarados.

Daman foi a última cidade dessa peripécia asiática. Havia mais um destino, mas verificações prévias indicando falta de condições do trecho para transitarmos, nos obrigou a eliminar a opção da lista. Assim voltamos a Kathmandu em 25km de muita emoção, com direito àquele trânsito divertido de chegada de cidade, mas sem pavimento, sem placa, sem sinal. Se você acha a Marginal Tietê tenso, você ainda não conheceu esse trecho que faria Freddie Kruger se deliciar em opções para a hora do pesadelo. De qualquer maneira os 10 dias conduzindo a Royal Enfield nas mais diversas condições me deixou menos barriga verde e foi possível acompanhar o Sujan no trânsito caótico sem o perder de vista.

Nos dois dias que restaram da programação, aproveitei para fazer o Mountain Flight e pegar uma vista de cima do Himalaia, que espetáculo, e perambular pelas ruas do famoso bairro Thamel, lotado de lojas e mais lojas de bugingangas e lembranças. Fechamos a viagem com um boteco nesse bairro com mais uma banda tocando o bom e velho rock ‘n’ roll. Aí tira gosto de leve, algo similar ao nosso frango a passarinho, pego um pedaço de pimenta sem ver. Velho, até chorei. Ainda bem que tinha Gorkha.

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Mais de 24h de viagem entre Moçambique e Nepal, atravessando 4 aeroportos, 3 fusos horários, 14 dias, 9 cidades, 952km, um zilhão de curvas fechadas. Nepal, território anexado. RFEIM / CdGP / DACS.


17/05/16 novas pontes

Para mais de ano, comentei aqui sobre a importância da construção de pontes nas nossas relações sociais. Alguém mais afobado vai dizer que isso é muito fácil em se tratando do Fantini. Não só veemente nego, como assumo que isso faz parte de uma decisão pessoal de transformação. Eu era um cara fechado e resolvi não ser mais e sei como não é fácil criar pontes.

Mas você já está aí encucado porque queria ler alguma aventura ou peripécia após longo tempo sem que o humilde aqui escrevesse uma frase sequer é dá de cara com esse papo furado de livro de auto-ajuda.

Pois bem, existe todo o mito de que andar de moto transforma a pessoa. Posso afirmar que te transforma numa pessoa mais suja depois de 1h debaixo de chuva com caminhões levantando água suja na Serra do Cafezal na Regis Bittencurt ou mais fedorenta após 1h no asfalto escaldante da região sul de minas quando entre 11:00 e 14:00 você está lá no meio da Fernão Dias.

Dizer que andar de moto vai te tornar uma pessoa mais legal, somente porque agora tira fotos de tirar o fôlego na estrada. Fotos são para ter boas lembranças, mesmo se for usar os filtros de algum aplicativo para melhorar as fotos de celular.

Foto de paisagem e comida. Duas vezes mais hipster.

Foto de paisagem e comida. Duas vezes mais hipster.


Depois desse tempo razoável sobre duas rodas (e desejo que ainda continue por muito mais tempo, afinal temos que alcançar o Ghan), descobri que ando de moto é para atravessar pontes e alcançar algum amigo, antigo ou novo, que o caminho da vida foi me apresentando para filar comida. Sério.

O famoso Ghan, reza a lenda que aprendou o sorriso interior em Cleveland

O famoso Ghan, reza a lenda que aprendou o sorriso interior em Cleveland

Em todas as viagens e passeios em que não estava caçando alguma estrada nova (onde normalmente estou sozinho), foi para visitar alguém e filar um rango, uma cama e uma ducha. Agora eu lhe pergunto: isso é realmente uma tremenda cara de pau que inventei ou porque tive a felicidade de encontrar pessoas que o santo bateu?

É assim vamos tocando a toada, fazendo aquilo que o ser humano como ser social sempre fez: se relacionar, receber e ser recebido, pavimentando pontes através do respeito, mas que para os habitantes das grandes cidades é a última novidade ou trend, porque essa vida corrida e isolada os fez esquecer disso.

Um agradecimento especial a todos os amigos que me receberam nos últimos dias: Guy Correa em Formiga MG, Tiago Conte em Conselheiro Lafaiete MG, Ghan e família em São José dos Campos SP e Agnelli Cordeiro em Curitiba PR. E naturalmente desculpas aos que não pude visitar neste mesmo período. Não faltarão oportunidades!

Com a benção daquele que tem a pena preta!

Com a benção daquele que tem a pena preta!


Foram 1 semana e alguns dias, 3 estados, 7 cidades, 10 rodovias, mais de 3.000km.


01/01/15 The voortrekker 06

Acordei por volta de 09:00 do dia 01/01 e depois da tarefa indelegável e de um bom banho, arrumei as tralhas e já estava de partida por volta de 11:00. Não vi o Chico e só mais tarde trocamos mensagens, mas fica aqui o abraço e agradecimento pela estadia.

Saída para a estrada N1

Saída para a estrada N1

A estrada N1 que liga Cape Town e Joanesburgo tem aproximadamente 1.400km e por mais que a oportunidade de um “iron butt” era interessante, estava meio tarde para tanto. E se dessa vez não teve chuva, a volta do calor quase de deserto tornou a estrada infindavelmente reta um desafio a mais.

Logo na saída de Cape Town, se atravessa uma região de montanhas

Logo na saída de Cape Town, se atravessa uma região de montanhas

Esse é um dos motivos pelos quais considero viajar de moto algo espiritual. Não se sabe o que teremos pela frente. Ok, tudo aqui era novidade, não é isso. Mesmo em estradas conhecidas, o clima, a estrada em si, que tipo de paisagem, tudo isso ocorre ao largo de nosso controle e exceto pelo destino que se aponta e pela hora que se decide partir, tudo o mais existe indiferente da nossa presença. E isso, em minha pequena opinião, é uma grande lição de humildade.

O kilométrico túnel sob as montanhas

O kilométrico túnel sob as montanhas

 

Região das vinículas

Região das vinículas

 

Outra vinícula. Engraçada que nenhuma tinha o nome para saber qual vinho produzia

Outra vinícula. Engraçada que nenhuma tinha o nome para saber qual vinho produzia

 

Um reta sem fim e o tempo quente e seco

Um reta sem fim e o tempo quente e seco

Aproveitando para fugir do calor por alguns instantes

Aproveitando para fugir do calor por alguns instantes

 

 

 

A preocupação é genuína, muito calor na estrada

A preocupação é genuína, muito calor na estrada

 

As nuvens esqueceram de fazer sombra e queriam somente aparecer na foto

As nuvens esqueceram de fazer sombra e queriam somente aparecer na foto

Paisagem agreste

Paisagem agreste

Mas com sua beleza própria

Mas com sua beleza própria

Já eram mais de 17:00 e o sol castigando como se fosse meio dia

Já eram mais de 17:00 e o sol castigando como se fosse meio dia

A única nuvem que teve pena deste humilde vivente

A única nuvem que teve pena deste humilde vivente

A sombra comprida sinalizava a chegada do pôr do sol

A sombra comprida sinalizava a chegada do pôr do sol

E assim tivemos um belo pôr do sol na estrada por volta das 19:30 e finalmente pousamos na cidade de Colesberg.

O primeiro pôr do sol do ano

O primeiro pôr do sol do ano

Pôr do sol na estrada é sempre algo mágico

Pôr do sol na estrada é sempre algo mágico

No dia 02/01, mais uma madrugada insone para assistir a aurora e de energia renovada alcançar Joanesburgo por volta de 11:00.

Saindo de Colesberg

Saindo de Colesberg

A caminho de Johanesburgo

A caminho de Johanesburgo

O prazer de ver uma aurora, não importa onde se está

O prazer de ver uma aurora, não importa onde se está

O majestoso sol iniciando um novo dia

O majestoso sol iniciando um novo dia

Novamente a paisagem agreste

Novamente a paisagem agreste

De volta à província de Gauteng

De volta à província de Gauteng

Após um providencial almoço, devolvi a moto para o pessoal da Motorrad Executive Rentals e descobri que fui um dos clientes que mais rodou em tão pouco tempo ao redor da África do Sul. Nada mal. Agora é pegar o ônibus de volta a Maputo, de lá o vôo para Nampula e finalmente a van até Nacala.

O pessoal não acreditou quando falei que ia rodar muito com a moto

O pessoal não acreditou quando falei que ia rodar muito com a moto

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Três rodovias nacionais, cinco cidades, sete províncias, dez dias, 4.266km. África do Sul, território anexado. RFEIM / CdGP / DACS.


29/12/14 The voortrekker 05

Ainda eram umas 14:00 do dia 28/12 quando cheguei em Cape Town e larguei as tralhas no Atlantic Point. Depois de um banho quente, aproveitei a boa localização do hostel e dei um pulo a pé em Cape Waterfront.

Me lembrou, guardadas as devidas proporções, o conceito de renovação do Cais das Docas em Belém do Pará. Enquanto lá aproveitaram um dos galpões para criar um misto de lojas e botecos, aqui pegaram praticamente todo o porto antigo (há um novo construído bem ao lado) e transformaram em atração turística para todos os gostos.

Shoppings, lojas de artesanato, restaurantes, mercado, botecos, prédios antigos restaurados, passeios de barco e helicóptero, tinha até pedinte e ripongas. Ah, os ripongas eram turistas também, nem me ofereceram artesanato.

Prédio do antigo posto de administração do porto

Prédio do antigo posto de administração do porto

No dia 29/12 resolvi rodar de moto até a Table Mountain e descobri que o topo mesmo só no bondinho (fila impossível) ou trilha (estava sem roupa adequada) e me contentei com a vista ali do meio do morro que já era surreal.

No pé da Table Moutain

No pé da Table Moutain

Para chegar no topo tinha que pegar o bonde

Para chegar no topo tinha que pegar o bonde

Lion's Head e Signal Hill

Lion’s Head e Signal Hill

Aproveitei para ir na Signal Hill, onde há um mirante bacana e de lá aprumei para Camps Bay, a praia badalada da cidade (não, não entrei no mar, rsrs). A noite foi reservada para a tal Long Street e seus botecos na companhia do povo do hostel.

Vistas de Cape Town

Vistas de Cape Town

Vistas do Estádio e Water Front a partir da Signal Hill

Vistas do Estádio e Water Front a partir da Signal Hill

Table Moutain a partir da Signal Hill

Table Moutain a partir da Signal Hill

Caminho alternativo para Camps Bay

Caminho alternativo para Camps Bay

 

Vistas de Camps Bay

Vistas de Camps Bay

 

Camps Bay

Camps Bay

 Dia 30/12, o Chico mais um casal de brasileiros chamaram para ir ao World of Birds em Hout Bay, na ida de ônibus vi aquela paisagem de filme com um estrada cortando o morro na beira do mar (já tinha passeio no dia seguinte). Fechamos com o pôr do sol em Camps Bay (fodástico) e um churrasco leve no hostel.

 

Paisagem de filme

Paisagem de filme

 

Relativa longa caminhada

Relativa longa caminhada

 

Travessia estelar

Travessia estelar

 

No ninho da coruja

No ninho da coruja

Qual é?!? Me deixa aqui de boa.

Qual é?!? Me deixa aqui de boa.

 

Pôr do sol em Camps Bay

Pôr do sol em Camps Bay

Acho que não dá para ver isso do sofá da sala

Acho que não dá para ver isso do sofá da sala

Dia 31/12 era a despedida, portanto tinha vários pontos a visitar. Comecei com a estrada entre Camps Bay e Hout Bay, só para ficar lá babando. Em seguida peguei o caminho para o Parque de Cape Point, onde fica o famigerado Cabo da Boa Esperança e na outra ponta o farol que separa os dois oceanos, Atlântico e Índico. Lugares fantásticos. O parque todo inclusive.

A caminho de Hout Bay a partir de Camps Bay

A caminho de Hout Bay a partir de Camps Bay

A caminho de Hout Bay

Vista de Hout Bay

Hout Bay

Noordhoek Beach

 

De repente estamos no interior de Minas de novo.

De repente estamos no interior de Minas de novo.

Simon's Town, já quase na boca do Parque de Cape Point

Simon’s Town, já quase na boca do Parque de Cape Point

Resolvi pegar uma rota alternativa

Resolvi pegar uma rota alternativa

 

Sim, você está vendo uma bateria anti navios

Sim, você está vendo uma bateria anti navios

Uma base da marinha

Uma base da marinha

De volta ao vórtice espaço temporal Minas Gerais

De volta ao vórtice espaço temporal Minas Gerais

Portão principal do parque

Portão principal do parque

Paisagem "continental" do parque

Paisagem “continental” do parque

Seguindo em direção ao farol

Seguindo em direção ao farol

 

Subindo um zilhão de degraus até o farol

Subindo um zilhão de degraus até o farol

E ainda falta mais degrau até o farol

E ainda falta mais degrau até o farol

 

Aí você descobre que o farol não funciona, o real é outro mais além.

Aí você descobre que o farol não funciona, o real é outro mais além.

O farol real lá no pé da encosta do outro lado

O farol real lá no pé da encosta do outro lado

Mas a vista compensou. Para se ter uma idéia, cheguei por aquela estrada no canto direito

Mas a vista compensou. Para se ter uma idéia, cheguei por aquela estrada no canto direito

Quando se tenta bancar um fotógrafo e tirar uma foto para postal

Quando se tenta bancar um fotógrafo e tirar uma foto para postal

A trilha segura até o farol real. Me lembrou algumas trilhas que fiz de moto em Macacos MG

A trilha segura até o farol real. Me lembrou algumas trilhas que fiz de moto em Macacos MG

O outro lado do farol antigo

O outro lado do farol antigo

Quase um "tilt shift" sem querer não fosse o dedo do fotógrafo

Quase um “tilt shift” sem querer não fosse o dedo do fotógrafo

Chega de farol e vamos para o Cabo da Boa Esperança

Chega de farol e vamos para o Cabo da Boa Esperança

Estradinha na beira do oceano. De leve.

Estradinha na beira do oceano. De leve.

Olha ele aí, Cabo da Boa Esperança

Olha ele aí, Cabo da Boa Esperança

E você achava que só ia vê-lo nos livros de geografia e história

E você achava que só ia vê-lo nos livros de geografia e história

Despedindo do parque de Cape Point, lugar fantástico

Despedindo do parque de Cape Point, lugar fantástico

 

Voltando para Camps Bay pela Chapman's Peak Road

Voltando para Camps Bay pela Chapman’s Peak Road

E você achava que só veria estrada assim em filme

E você achava que só veria estrada assim em filme

 

Olha aonde a estrada passa, surreal

Olha aonde a estrada passa, surreal

Hout Bay lá no fundo

Hout Bay lá no fundo

 Voltei pois tinha comprado um ticket do bonde da Table Mountain e não ia perder essa. De certa maneira, noves fora e tudo o mais, cheguei no final do dia para poder acompanhar o espetáculo do ultimo pôr do sol do ano, do topo da montanha e com o sol se pondo no mar. Eu nem tenho palavras.

Esperando o bondinho para subir a Table Moutain

Esperando o bondinho para subir a Table Moutain

 

Vista da Lion's Head e Signal Hill de dentro do bonde

Vista da Lion’s Head e Signal Hill de dentro do bonde

Maquete da Table Mountain

Maquete da Table Mountain

Vista de Cape Town a partir da Table Mountain

Vista de Cape Town a partir da Table Mountain

Vista de Camps Bay a partir da Table Mountain

Vista de Camps Bay a partir da Table Mountain

O último pôr do sol do ano

O último pôr do sol do ano

 

Fechando com chave de ouro

Fechando com chave de ouro

 Ainda cheguei a tempo de acompanhar o povo do hostel para a virada do ano. Eu já estava satisfeito e com a cabeça no retorno, mas já que o Chico conseguiu uma mesa de graça num boteco próximo, custava nada ir lá devolver o agrado pagando a bebida.

Como diria Maquiavel, “la virtù, la fortuna”.

Continue seguindo a saga The Groot Trek aqui.


28/12/14 The voortrekker 04

Você acorda com aquele cheiro de mofo no quarto de quinta categoria e agradece por ao menos ter uma cama para descansar. São 04:00 da matina de 28/12 e depois de organizar as tralhas, você repara no tempo nublado e já espera outro dia debaixo de chuva.

Ao menos posso contar vantagem que passei frio na África do Sul e ninguém vai acreditar.

Saída de Port Elizabeth

Saída de Port Elizabeth

Seriam mais 770 km ainda na N2 entre Port Elizabeth e Cape Town (o destino final dessa empreitada). E em pouco tempo já estava encharcado novamente e concentrando todo o meu ki para suportar o frio sem tremedeira.

Para os mais puritanos não foram exatamente o ABS ou o controle de tração da BMW os principais responsáveis pela segurança nestes dois trechos debaixo de chuva, mas sim a manopla com aquecimento. Lembro do caboclo da Motorrad Executive Rentals sendo categórico de que eu não precisaria deste item.

Mas o real desconforto que a chuva trouxe foi impedir apreciar com mais calma a paisagem em volta, ouso dizer uma das estradas mais bonitas em que pilotei. Em vários pontos foi impossível parar para tirar mais fotos e se for para alguma vez reclamar de chuva na estrada, essa seria uma.

Um dos viadutos sobre as encostas do Parque Tsitsikamma

Um dos viadutos sobre as encostas do Parque Tsitsikamma

Reza a lenda que o povo faz bungee jumping nesse penhasco.

Reza a lenda que o povo faz bungee jumping nesse penhasco.

Aproveitando os poucos trechos em que a chuva deu trégua

Aproveitando os poucos trechos em que a chuva deu trégua

A grama do vizinho não é tão verde assim.

A grama do vizinho não é tão verde assim.

No pé da última serra.

No pé da última serra.

E o tempo ruim foi nos acompanhando até subir e atravessar a ultima serra para finalmente encontrar o poderoso céu azul nos últimos 50 km até Cape Town. Provavelmente não teria o mesmo sentimento de “chegar num lugar fantástico” não fosse a chuva nos últimos dois dias. Até porque bastou 15 min para ficar completamente seco.

Tchau chuva!

Tchau chuva!

Talvez isso explique porque vale a pena viajar de moto debaixo de chuva.

Talvez isso explique porque vale a pena viajar de moto debaixo de chuva.

A famigerada Table Mountain

A famigerada Table Mountain

Mandei uma mensagem para o Chico, o amigo de Belo Horizonte que resolveu passar um meio ano sabático em Cape Town. Ele acabou angariando uma vaga no hostel onde está trabalhando, o Atlantic Point Backpackers, e assim cancelei a reserva que havia feito em outro hostel.

Fantini, dessa vez você teve sorte. Nada. Até agora, toda a sorte de acontecimentos foram dominados e transformados em oportunidades.

Encontrando com o Chico

Encontrando com o Chico

Bom e Cape Town? Cape Town vale toda e qualquer artimanha que você crie para vir aqui visitar, seja meio ano sabático, seja aproveitar que já está por estas bandas. Recomendo.

Vistas do Water Front

Vistas do Water Front

Passeando pelo Water Front

Passeando pelo Water Front

A proposta de renovação do antigo porto foi muito interessante

A proposta de renovação do antigo porto foi muito interessante

Prédio do antigo posto de administração do porto

Prédio do antigo posto de administração do porto

Torre do relógio do porto

Torre do relógio do porto

Table Mountain com seu forro de nuvens

Table Mountain com seu forro de nuvens

Capitão Michael Jakson

Capitão Michael Jakson

Da série somente em Cape Town

Da série somente em Cape Town

Para fechar o dia

Para fechar o dia

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27/12/14 The voortrekker 03

Havia chovido bem na noite anterior e o tempo amanheceu nublado no dia 27/12. O trecho de hoje entre Durban e Port Elizabeth seria o mais comprido, com praticamente 900 km e um clima mais ameno era bem-vindo. Novamente acordo 04:00 da matina e antes das 05:00 já estava na estrada N2 rumo ao meu destino.

Partindo pela manhã

Partindo pela manhã

Para minha ingrata surpresa começou a garoa fina, dai a pouco a chuva e finalmente chuva forte. Ao longo da viagem toda ficou variando entre nublado, chuva fina e chuva forte. O incauto já deve estar pensando aí o saco de parar toda hora para colocar e tirar a capa de chuva. E aí que lhe pergunto: “Que diabos de capa de chuva?!? Tipo a que está guardada lá em Vitória?”

Tempo nublado

Tempo nublado

De vez em quando a chuva dava uma trégua

De vez em quando a chuva dava uma trégua

E assim em cada parada para abastecer e comer alguma coisa, eu era a atração geral, com a menina da faxina secando o chão por onde eu caminhava. Quase ofereceram uma placa de “cuidado, piso escorregadio” para eu levar comigo.

E quando eu ia praguejando o frio úmido, na subida de uma serra desce aquela neblina fechada. Não sei se foi mais difícil adivinhar o que havia a frente ou segurar a tremedeira para não desequilibrar a moto. E para você que ao passar por isso, estaciona a moto, desiste e clama pelos deuses porque amarga sina, continuei um pouco mais somente para encontrar a visão do paraíso.

Paisagem insólita

Paisagem insólita

Sim, bem aqui no meio da África do Sul tinha aquilo que qualquer mineiro mais se alegra, um’paisage assim iguazin mina’geraes, sô. Iguazin dimai’da’conta. Trem’bão’dimais, ten’basi’naun!

Uai, sô, só’faltô us’cumpadi, u’forn’di’lenha i daquel’amarguinha. Ai’ia’cê assim, bão’dimai’da’conta.

África Gerais

África Gerais

Minas do Sul

Minas do Sul

A partir daí, recarregada a energia com aquela insólita paisagem, que se dane o trânsito caótico em três cidades de beira de estrada (igualzin Manhuaçu, Uai) e a chuva que nos acompanhou até pouco antes de chegar a Port Elizabeth por volta de 17:30. Pensei naquele banho quente e encontrar um boteco bacana.

Na boca de Port Elizabeth

Na boca de Port Elizabeth

Primeiro hotel que o GPS indicou não existia. O segundo lotado. Assim o terceiro, o quarto, o quinto, o quinto dos infernos, todos lotados. Tentei os hostels e nada. Que diabo de lugar é esse?!? Parece que a reforma da beira da praia deu um glamour e virou a febre do momento.

Nisso já era quase 19:00 e eu lá sem um pouso. Resolvi procurar nos hotéis mais distantes e lá fui seguindo o GPS que me entregou numa boca de fumo do capeta. Tenso. Procurei outros hostels nesse pedaço mais afastado e nada, nisso volta a chuva.

Confesso que fiquei preocupado e depois de mais algumas tentativas em vão, achei um motel tosco, chamado Hunter’s Retreat, numa estrada vicinal, não fazia a mínima idéia de onde estava e foi lá que fiquei já por volta de 21:00 todo encharcado.

Para minha alegria não tinha chuveiro, somente uma banheira tosca. Enchi ela de água quente e mergulhei no banho turco. A roupa não teve jeito, muito encharcada, torci do jeito que deu já sabendo que não secaria (ao menos tinha outra muda de calça jeans e camisa).

É meu amigo, vá jogar banco imobiliário no conforto de casa, viajar de moto é mais tenso que cair no Jardim Europa com 04 hotéis. Pensando bem, ao menos no banco imobiliário teria hotéis.

De Durban a Port Elizabeth

De Durban a Port Elizabeth

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26/12/14 The voortrekker 02

Johanesburgo e a África do Sul em geral são locais de disparidade social profunda e mesmo que Mandela tenha feito realizações importantes ao acabar com o apartheid, fica claro que ainda há um longo caminho entre o conforto de Sadton e a decadência do velho centro.

O importante é que a organização herdada dos ingleses é algo muito útil ao país e é visível o tanto que as coisas funcionam bem. Ponto para as estradas, tudo bem que peguei as três principais nessa aventura, N1, N2 e N3, mas as secundárias não deixam a desejar conforme relatos de outras pessoas.

Então vamos a estrada de vez? No dia 26/12, agradecido pela acolhida do Tinoco e família, acordei as 04:00, juntei as tralhas na moto e fui. O destino do dia seria a cidade de Durban através da N3, onde há a maior população indiana fora da Índia. A explicação? Na época os ingleses precisavam de trabalhadores nas fazendas de cana de açúcar e os africanos se recusaram, resultando numa das primeiras importações de mão de obra da história.

Saída para Durban

Saída para Durban

Diante do calor razoável, a paisagem ia se abrindo a minha frente. Confesso que levou algum tempo para cair a ficha: “estou pilotando pela África do Sul, cai alho!”. E o misto de crença e descrença, sonho e realidade, se materializavam em morros nunca vistos e um tapete de asfalto cinzento.

Morros nunca vistos até então

Morros nunca vistos até então

E nessa batida, lá ia eu em meio as caravanas de picapes, vans, ônibus, todos puxando um trailler ou carretinha. A turma aqui gosta mesmo dos esquemas aventura no meio do mato. Inclusive, não faltam lojas com esta finalidade. Prato cheio para quem curte um camping.

Depois que a ficha cai, ainda é surpreendente

Depois que a ficha cai, ainda é surpreendente

Pilotando na mão inglesa

Pilotando na mão inglesa

Meu tapete vermelho é o asfalto

Meu tapete vermelho é o asfalto

O GPS (assim como na Malásia, preferi o ajudante para indicar o caminho dentro das cidades) me entregou no centro de Durban e infelizmente não consegui um ponto para parar e tirar fotos dos prédios. Havia gente demais nas ruas, bem como carros e vans (o transporte público daqui) demais e estava perigoso. Uma pena, é uma arquitetura que merecia registro para ajudar a lembrança depois, paciência. Achei uma das praias sem querer e peguei um hambúrguer de lanche. O Dedé vai reclamar, mas não, não entrei no mar. Ainda precisava achar uma cama e assim encontrei o Smith’s Cottage num topo de morro. Lugar simpático e os donos muito atenciosos. Até ganhei uma lavagem grátis das roupas.

Na orla de Durban

Na orla de Durban

Aproveitei o resto de tempo livre (já tinha decidido por acordar cedo no dia seguinte e continuar viagem) para conhecer um ótimo restaurante italiano e um pub fino nos arredores.

Smith's Cottage

Smith’s Cottage

Da série em Durban e nunca mais

Da série em Durban e nunca mais

Boa também

Boa também

 Tinha saído por volta de 05:00 da manhã de Joanesburgo e alcancei Durban por volta de 15:00, uns 575 km depois.

De Johanesburgo a Durban pela N3

De Johanesburgo a Durban pela N3

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22/12/14 The voortrekker 01

Já era 30/12 quando uma das hóspedes do hostel em que estava em Cape Town viu minha tatuagem no braço esquerdo e perguntou o que significava. Embora ela não conhecesse “O Príncipe” de Nicolai Maquiavel, compreendeu o motivo da tatuagem indicar “La Virtù, La Fortuna”, ou a virtude e a sorte. Maquiavel, embora mal interpretado, é claro ao dizer que ao príncipe virtuoso não importa a sorte, ele dominará qualquer oportunidade.

E assim lá estava eu, vindo a trabalho em Moçambique, um país ainda em construção, não teve como retornar ao Brasil no período de Natal e Ano Novo. Mas como precisava carimbar o meu visto e assim sair do país, estava lá uma oportunidade a ser dominada.

Naturalmente que você já sabe que o Fantini planeja em detalhes toda e qualquer viagem de moto, tipo aproveito uma data, vejo quantos dias disponíveis, olho o mapa, quantos km e pronto.

Mas e o hotel?!?! E a moto?!? Detalhes. Para quem conhece a sina de mochileiro, sabe muito bem que não faltam albergues com uma cama disponível, mesmo no feriado mais badalado e mesmo para um destino muito procurado. Assumo que só fiz a reserva em Joanesburgo e Cape Town por insistência de um amigo e a contra gosto. Já as demais cidades do caminho, mantive o que sempre fiz, chego lá e procuro um lugar para dormir. Particularmente só tive dificuldade em Port Elizabeth.

A moto foi outra história e ponto para o pessoal da Motorrad Executive Rentals, não só atenderam meu pedido de última hora, como me entregaram uma moto em perfeitas condições. Uma BMW F700GS, que de início me senti desconfortável, mesmo sendo o modelo rebaixado de fábrica, por não conseguir apoiar bem os pés. Ao longo da viagem, se mostrou um conjunto excelente de mecânica e para o desespero do Nuanda, sim, recomendo a moto para todos, mas continua minha preferência por Srta Hellen Dawson.

A viagem começou mesmo no dia 22/12 em Nacala, pegando a van de madrugada para o vôo de ligação entre Nampula e Maputo que seria somente a tarde. Em Maputo peguei ônibus da Intercape para Joanesburgo (esse quase perdi por atraso do vôo e teimosia do taxista). No dia 23/12 de madrugada estava no centro velho de Joanesburgo e de lá um taxi para o Monte Fourways Hostel.

Descansei um pouco e peguei a moto ainda de manhã. Aproveitei para comprar uma rede elástica para prender a bagagem, pois o bauleto seria insuficiente (mesmo que tenha trago somente a mochila e uma bolsa pequena).

Companheira da vez

Companheira da vez

Em seguida encontrei com o colega da empresa que conheci em Nacala e por estas inexplicáveis razões, o santo bateu e assim fora convidado a passar o Natal com a família dele. Até que tem explicação, o caboclo é carioca, viveu em JNB devido ao emprego numa empresa de mísseis e casou com uma indiana nascida na África do Sul e hoje trabalha na mineração, improvável assim, o santo tem que bater mesmo.

Monte Casino - misto de casino, hotel e shopping

Monte Casino – misto de casino, hotel e shopping

Loja de motos em Johanesburgo

Loja de motos em Johanesburgo

Um das várias pilhas de estéril da minas de ouro em Johanesburgo

Um das várias pilhas de estéril das minas de ouro em Johanesburgo

Soccer City

Soccer City

No final, longe de casa, tive a oportunidade de passar um excelente Natal com a família do Tinoco, conhecendo um pouco da história dos indianos na África do Sul e experimentando os sabores típicos de seus temperos (ok, a língua continua queimada devido ao curry picante).

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01/02/14 desdobramentos de uma ida à padaria mais próxima

Basicamente já passou de um ano que Hellen Dawson tem sido minha companheira de desventuras, ao invés do malfadado sofá da sala. Na verdade foi em dezembro agora, mas entre outros compromissos e a agitada agenda de festejos de fim de ano, não foi possível dar a menina uma comemoração digna.

Semana passada observei que a padaria da esquina havia passado por uma reforma, bem, pensei com meus botões, vamos lá conferir. Assim sábado cedo, preparei toda a parafernália e aproveitando que Hellen Dawson finalmente tomara um banho (acho que tinha uns 2 ou 3 meses que não lavava), lá me fui em direção à padaria. Como Bilbo Baggins bradei: “I’m going on an adventure!”.

O ronco alto perturbou os vizinhos, o cheiro de gasolina se espalhou pelo ar e passados exatos dois quarteirões ou algo em torno de uns 300m, alcançava meu lendário destino. E para minha grata surpresa, a padaria agora tinha um buffet de café da manhã! Não preciso mais correr o risco de me deslocar para outro bairro onde havia uma padaria mais chique conforme dica de um amigo ortopedista.

Um pão francês com presunto e queijo e uma água de coco depois, acabara-se minha saga. Sim, completada esta árdua missão, me sentido um grande homem, olhei para Hellen Dawson e quase me emocionei! Que grande motociclista eu sou!

Mas aí a ficha caiu e me voltei a minha insignificância de motoqueiro. Sabe, daqueles que usam a moto. Lembrei da última ida ao Bad Service comentando sobre a visita ao Mosteiro Zen em Ibiruçu (comentaremos a respeito em seguida), o Marcelão me deu a dica de que em Buenos Aires havia também uma bela subida de morro onde se tinha uma boa vista da orla de Guarapari. Você não leu incorretamente, estamos falando daquele vórtice espaço temporal que existe no trevo de Guarapari na BR101 que te leva a Buenos Aires.

A 1a visita a Buenos Aires

A 1a visita a Buenos Aires

Resolvera ir pela orla mesmo, ao invés do já batido caminho passando pela Rodovia do Contorno. E lá fui eu já a pleno sol escaldante de 10:30 atravessando trânsito daqui de Jardim Camburi até a Segunda Ponte. E você achando que o trânsito no centro de Vitória seria o ápice, encontra a BR262 em manutenção e meia pista. Dessa vez foi tenso, afinal, além da temperatura ambiente, ainda havia a temperatura do motor rodando sem vento suficiente. Seria um problema, mas, bom, ao menos dois médicos que eu conheço, esse ortopedista e outro psiquiatra, indicam moto como um excelente tratamento para a maioria das doenças e eu não vou discutir com especialistas.

De volta a BR101 e lá vamos nós entre os caminhões e carros que insistem em rodar num sábado, se bem que o país não pode parar e nem todo mundo pode se dar o luxo de largar a visita à padaria para trás. Apesar do calor infernal, o verão trás cores novas à paisagem local e as várias fazendas que marginam a BR101 estavam exuberantes, assim como os conjuntos de morros estilo “pão de açúcar” típicos da região. A energia é fantástica e você compreende porque seus dois amigos médicos recomendam andar de moto.

Chego ao trevo onde se encontra o vórtice temporal e pego a estrada vicinal em direção a Buenos Aires. Que estrada bacana e que paisagem espetacular. Primeira parada em frente a Pedra do Elefante, achei fantástico. E voltamos a estrada vicinal e lá vamos subindo morro. Não é nenhuma serra assassina, mas tem lá seu charme. Fiquei encucado, afinal onde estava a tal vista da orla de Guarapari. Que se dane, tudo em volta já compensava, paisagem muito bacana.

Dentro do vórtice

Dentro do vórtice

Pedra do Elefante

Pedra do Elefante

E assim cheguei na cidade. E vejo uma placa indicando o caminho para uma cachoeira. Nesse calor, boa pedida. Enveredei mais uns 3km de estrada de terra batida de leve e cheguei na trilha que levava até a cachoeira.

já que a moto estava limpa

já que a moto estava limpa

logo ali

logo ali

A cachoeira

A cachoeira

Depois de ficar ali somente apreciando a natureza e o som revigorante da queda d’água e lembrar de outras aventuras nas entranhas de Minas visitando cachoeiras desconhecidas, tive que voltar a realidade e caçar algum lugar para comer porque já era quase 13:00. Mas e o café da manhã, Fantini? Bom, ficou lá na padaria e depois de uns 70km de estrada, eu mereço almoçar, também sou filho de Deus. Lembrei que havia um restaurante bacana um pouco antes da cidade e me encaminhei para lá. Como sábado, domingo e feriado é dia de almoçar tira-gosto conforme o sábio conselho de Dr. Hugo, fiquei na porção mesmo. Recomendo demais o local.

sábado, domingo e feriado é dia de almoçar tira-gosto

sábado, domingo e feriado é dia de almoçar tira-gosto

Em seguida peguei o caminho de volta e para minha grata surpresa fui presenteado com a vista da orla de Guarapari, linda. Pena que não dava parar por falta de acostamento e ser uma descida. Bom, isso significa que se você quiser ver também, esqueça as fotos dos outros, pare de comer essa coxinha aí na padaria e venha ver com seus próprios olhos.


19/10/13 do outro lado do mundo 1o movimento

Não importa o quanto de vocês já ouviu música clássica. Eu gosto. Entre as que sempre me levam a outros lugares, Scheherazade de Nikolai Rimsky-Korsakov desperta algo de aventura. Todas as vezes que escuto o 1o movimento ou “O mar e o barco de Sinbad” (para os íntimos), não há como não imaginar a pequena nau enfrentando um mar revolto e tenebrosos monstros mitológicos.

A essa altura da minha viagem a serviço ao outro lado do mundo, mais precisamente Malásia, passados 45 dias mergulhado em outra cultura e outra realidade, não se esgotavam as fontes de algo novo e inusitado, um cheiro pela manhã, um tempero na comida ou uma simples cor no horizonte. Mas ainda assim faltava alguma coisa.

Apreciando o nascer do sol na rodoviária em Lumut

Apreciando o nascer do sol na rodoviária em Lumut

Entre uma e outra história de pescador, ou melhor motoqueiro, contadas pelo velho rabugento, sempre me fascinou a de quando ele esteve na Índia e andou de moto por lá. Ficava tentando fitar como seria essa sensação, que exóticas paragens? Haveria o sol de nascer diferente? E lá estava eu, na Ásia, não exatamente na Índia, mas como parte da população da Malásia é indiana, bem, sim, podemos dizer que estávamos bem perto.

Templo Hindu em Lumut

Templo Hindu em Lumut

Cheguei na capital, Kuala Lumpur (minha base ficava em Lumut, 200km ao noroeste), de ônibus e providenciei um taxi para me levar no local onde pretendia alugar uma moto. O taxista chinês me perguntou o porque do colete preto e respondi que ia alugar uma moto para viajar pelo país dele, mas que gostaria de carregar as cores do clã. Ele agradeceu a minha decisão, os orientais realmente entendem o que é honra.

A equipe da Malaysian Motorcycle Getaways que já vinha me atendendo muito bem por e-mail, me recebeu com honras por ser o primeiro cliente brasileiro. Me perguntaram qual era meu plano de trajeto uma vez que decidira pelo “self tour”. Bem, não sou muito de planejar muito quando se trata de viajar de moto e apontei no mapa que havia lá que simplesmente gostaria de rodar o país todo. Riram e me indicaram algumas cidades e estradas que valeriam a pena visitar.

O 1o cliente brasileiro

O 1o cliente brasileiro

Mas foram categóricos, essa época do ano era a estação das chuvas e o tempo hoje estava bem carregado. Até me ofereceram uma jaqueta impermeável. Agradeci, mas declinei.

A companheira de viagem e minha farta bagagem

A companheira de viagem e minha farta bagagem

E assim como Sinbad lançou sua embarcação mar adentro, lá fui atravessando a cidade em direção a estrada. O destino final seria a cidade de Malacca ao sul (onde houve colonização portuguesa), mas por indicação do pessoal da MMG, iria por um estrada vicinal, cortando em arco para o leste. Iria, afinal o mal tempo vinha carregado e não foi mais do que 20 minutos de trânsito pesado, consegui por sorte abrigo num posto de gasolina abandonado. Foi quase 1h ali aguardando a tempestade juntamente com outros motoqueiros locais expondo suas calejadas scooters.

Finalmente a estrada, linda, suave e afiada, ainda um trecho da rodovia principal, estava tão enebriado por estar novamente pilotando após mais de mês longe de uma moto que nem me apercebi da chuva fina, que foi engrossando e agora já era forte. Lembrei de Sinbad e pensei que se dane. Continuei acelerando enquanto via outros viajantes a desistir do mesmo intento. Não eu, aquilo para mim era só mais um tempero.

Avancei pela saída para a estrada vicinal para o leste, a chuva diminuiu. A estrada, apesar de mais simples agora, continuava com uma asfalto de nos matar de inveja ao lembrar como se encontram as principais rodovias no Brasil. Sério, estava num estrada vicinal que liga cidades pequenas e não encontrei um buraco sequer! Mesmo quando a noite caiu e a chuva fina continuou a me acompanhar e a cada curva esperava algo de estranho e estrangeiro que surgiria para me tragar dali.

Então finalmente eu percebi o que realmente me esperava em cada curva escura. A questão é que eu é que era o estranho e o estrangeiro ali e mesmo assim a estrada me recebia de bom grado. O medo só existia em mim. Cheguei a Malacca após uma nova pausa para esperar uma chuva mais forte que surgiu logo após parar para abastecer. Bem, já era avançada a noite, para que arriscar? (sim atitudes sensatas salvam mais que parafernália).

Vistas de Malacca ou Melaka 01

Vistas de Malacca ou Melaka 01

Vistas de Malacca ou Melaka 02

Vistas de Malacca ou Melaka 02

Vistas de Malacca ou Melaka 03

Vistas de Malacca ou Melaka 03

Vistas de Malacca ou Melaka 04

Vistas de Malacca ou Melaka 04

A bela cidade se desnudou no dia seguinte. Suas esquinas portuguesas tomadas agora pelo profundo oriente (talvez simplesmente retomadas a suas origens) e eu ali tentando compreender a complexidade daquilo tudo. Tinha a idéia de subir para o norte do país pela costa leste. Mas acordara tarde (passei a madrugada secando a roupa) e decidi por um trajeto mais curto, subiria de volta a Lumut (a uns 400km dali), passando por alguns pontos de interesse. Até porque a chuva do dia anterior deu lugar ao radiante sol, que aqui, estando a Malásia próxima da linha do Equador, castiga mais que na caatinga de Lampião.

Divisa entre as províncias de Selangor e Perak

Divisa entre as províncias de Selangor e Perak

Kellie's Castle

Kellie’s Castle

Entre os pontos visitados, o maior destaque fica sem sombra de dúvidas para Batu Caves, o templo Hindu cravado num morro, aproveitando um complexo de grutas, nos arredores de Kuala Lumpur. Sem palavras para descrever. E de outro mundo, ou melhor de outro lado do mundo.

Batu Caves 01

Batu Caves 01

Batu Caves 02

Batu Caves 02

Batu Caves 03

Batu Caves 03

Batu Caves 04

Batu Caves 04

Trajeto em 19/10/13

Trajeto em 19/10/13

Trajeto em 20/10/13

Trajeto em 20/10/13


06/10/13 Qualquer moto te leva a qualquer lugar que você queira ir

Estando a trabalho do outro lado do mundo tem lá suas vantagens. Você tem a oportunidade de conhecer outras culturas, outras pessoas. Tudo é novidade. Mesmo o trabalho, que não é muito diferente do que já se fazia no Brasil, ganha uma outra dimensão e fica divertido. Tudo bem que você preferia estar de férias, mas no nosso caso havia bastante fins de semana para rodopiar por aí.

welcome to malaysia

welcome to malaysia

Som insólito na vitrola: 

 

Tinha rodado de carro em boa parte da província em que me encontrava, Perak, que fica no noroeste da Malásia. Inclusive alcançado a fronteira com a Tailândia que decidi não atravessar (por mais simples que podia ser o processo) pelo simples fato de que era um domingo e ainda tinha alguns km para rodar de volta a base.

Fronteira Malasia Tailandia

Fronteira Malasia Tailandia

Mesmo no calor escaldante de aproximadamente 35oC a média, andar no conforto do ar condicionado ouvindo as rádios locais não tinha lá muita graça. É meu caro, a gente que é mal acostumado com vento no peito e cheiro de asfalto se contenta (e até se diverte) com outras coisas bem menos confortáveis, como um enxame de mosquitos na cara, a chuva fora de hora ou o cheiro de bosta de vaca no acostamento. Como isso faz falta.

Pegamos a balsa em Lumut (a cidade onde estamos) em direção à ilha de Pangkor. Uns 40 minutos atravessando parte do Estreito de Malacca (uma das principais rotas marítimas da região) até chegar na simpática ilha de pescadores.

Pulau Pangkor

Pulau Pangkor

Desembarcamos e já somos cercados por guias, taxistas (que na verdade dirigem uma van rosa, marca registrada local), vendedores ambulantes, crianças curiosas e um suspeito par de moleques:

– Hello, boss, do you wanna a ride?

– Excuse me?

– A ride, boss, to rent a bike.

Naturalmente que não esperávamos nada mais que uma monareta caindo aos pedaços e fomos surpreendidos por uma scooter Yamaha que estava muito bem conservada. Um ou outro arranhando provavelmente causado por um turista menos desavisado.  Testamos os controles, procurando em vão o pedal de câmbio, era um modelo sequencial.

– Do you know how to ride, boss?

– Isn`t like a bicycle?

– Take care boss.

Nisso saímos da entrada do píer, procurando o equilíbrio entre o trânsito relativamente pesado de vans rosa e scooters de todos os tamanhos e gostos. Fora a melhor parte, a mão aqui é inglesa. Então já se pode imaginar a confusão que se cria a cada esquina ou cruzamento. Mas a medida em que íamos avançando sobre a pista estreita que contorna a ilha, a paisagem a volta nos fazia esquecer de qualquer dificuldade. Até mesmo a de que estávamos de bermuda e camiseta, sem nenhuma proteção contra o sol que já estava a pino.

Monareta

Monareta

Enquanto calcinávamos nossa pele sob o sol de meio dia (ainda acrescentamos que aqui é próximo da Linha do Equador), curtíamos cada milímetro do asfalto quente. E nessa empreitada, igual criança, demos umas três voltas pelo contorno da ilha. Não importa se a paisagem se repetia, a cada volta aparecia algum detalhe a mais. Uma árvore que não tinha prestado atenção antes, uma vista de outro ângulo da mesma praia, uma ruela estreita que nos levava para outro canto e até um avião levantando vôo bem ali a nossa frente (uma em um milhão).

Lugar mais ou menos

Lugar mais ou menos

Vista mais ou menos

Vista mais ou menos

Asfalto mais ou menos

Asfalto mais ou menos

Território Anexado

Território Anexado

Curva leve

Curva leve

Não gostei da curva

Não gostei da curva

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E para fechar com chave de ouro, o incrível monumento do sofá velho. Provavelmente uma homenagem a aqueles que insistem em ver a vida passar pela janela sentados no sofá da sala.

O insólito monumento do sofá velho

O insólito monumento do sofá velho

Troque o sofá por uma moto. Qualquer moto te leva a qualquer lugar que você queira ir.


14/06/13 hellen in the sky with diamonds

Desci a Serra de Ouro Branco com a alma renovada e certo de que Hellen Dawson não se acanharia jamais para qualquer estrada que surgisse em nosso caminho. E assim fomos em direção a Diamantina MG através da BR040. Esse era um destino planejado a mais tempo e adiado por várias vezes porque o objetivo era alcançá-lo na companhia do companheiro Ajota, desde a vez que descemos de Brasília DF a Belo Horizonte MG lá em idos de 2009. Infelizmente não pude deixar passar essa oportunidade de tempo.
Para maioria que não entende ou simplesmente não faz a mínima ideia do que possa ser um ritual de passagem, não vai conseguir compreender porque se antes de subir a serra ainda titubeava com o novo fôlego de Hellen Dawson após as regulagens feitas com o pessoal da Garage Henn, agora tinha total confiança e conseguia sentir as reações da moto com muito mais precisão. Acredito que todos devem encontrar seu próprio rito e atravessar essa linha invisível.

Hora de ligar a vitrola!

E assim, divagando sobre essas estranhezas de si mesmo, vamos alcançando a saída para Curvelo MG e apontando a direção final para nosso destino. Naturalmente aproveitando alguns trechos de reta sem fim e sem trânsito para sentir que uma moto custom realmente não foi feita para andar em alta velocidade. Mas também fiquei bem próximo da sensação de estar num velho Supermarine Spitfire dividindo o céu de guerra com um Messerschmitt BF109.

altos planos

altos planos

Pegamos então um trecho da BR135 para em seguida avançar sobre a BR259 e finalmente fechar com a BR367. Enquanto isso ia raciocinando o quanto era engraçado não lembrar de nenhuma paisagem daquela de outros carnavais, fruto de viajar de carro ou ônibus. E isso é o interessante da viagem de moto, mesmo com todos os, digamos, revezes, passar numa estrada e guardar toda ela em sua memória, seus cheiros, cores, poeira e insetos que vão grudando na viseira, compensam o, digamos, desconforto.

então diamantina

então diamantina

Então Diamantina MG. Rodei um pouco pela cidade, ao menos onde o calçamento e ladeiras permitiram levar Hellen Dawson com segurança até parar para arrumar um local para dormir. “Ah! Fantini, porque não marcou antes aquele hotel com hidromassagem?” Porque aí não teria a oportunidade de conseguir um Hostel incrivelmente barato, confortável e com uma vista fantástica.

vista a perder de vista

vista a perder de vista

Diferente da época do carnaval do inferno, a cidade estava tranquila e sua paisagem bucólica de cidade histórica brigava praticamente de igual para igual com Ouro Preto MG, a não ser pelo fato de que os botecos daqui não tinham a mesma quantidade de estudantes ripongas que se encontra lá. Exceto se eu tenha parado nos botecos errados.

não adianta ter igreja, no carnaval o povo quer abraçar o capeta!

não adianta ter igreja, no carnaval o povo quer abraçar o capeta!

No sábado resolvi conhecer o tal Parque Estadual do Rio Preto que fica na cidade próxima de São Gonçalo do Rio Preto MG. O folheto já deixava claro: 15km de estrada de terra. Meus olhos até brilharam e Hellen Dawson já estava empoeirada mesmo.

sujeira leve

sujeira leve

a caminho do parque

a caminho do parque

quase na portaria

quase na portaria

Depois de 15km de paisagem de pequenas chácaras e pontes estreitas, chegaríamos na entrada do parque. O vigia da portaria me deu as boas vindas e me explicou rapidamente sobre o parque. Teria que seguir mais 5km onde encontraria a sede e o guia para comentar sobre mais detalhes. Eu havia achado o vigia meio desconfortável comigo e fiquei encucado com aquilo. Será que o cara não foi com minha cara e…
De repente me vi numa descida íngrime e vertiginosa que terminava numa curva fechada. Em seguida um bocado de camelos e aí areia fofa, mais camelos. Não satisfeito, sobe um barranco, agora sobe outro em curva, sobe mais, desce, atravessa uma ponte velha, mais uma. Vou ser sincero, não foi fácil e agora entendia o olhar carrancudo do vigia, não estava acreditando que eu ia mesmo passar nessa estradinha equilibrando 350kg entre duas rodas. Mas compensou, o parque é muito bonito. Pena que como cheguei tarde, perdi os passeios a pé guiados pelas trilhas e tive que me contentar com um almoço quilombola. Uma carne de lata típica de interior de Minas. Fino!

valeu a pena

valeu a pena

Como não inventaram teleporte ainda, aproveitei a energia do almoço para cortar de volta aquela estradinha através do parque. Perigosa, uma pena, tive que concentrar muito mais na pista do que apreciar a paisagem. Paciência. Aproveitei ainda mais um pouco da vida noturna bucólica e no domingo cedo apontei para Vitória ES.
A parte ruim depois que se roda relativamente muito pelas mesmas estradas é que vai se perdendo aquele gosto amargo da falta de direção e as angustiantes dúvidas sobre qual saída pegar neste ou naquele entroncamento. E naturalmente encher os olhos com paragens exóticas ainda desconhecidas. E assim estávamos na BR259, atravessando a região do Serro MG. Agora entendi porque senti tanto frio nos outros trechos que passei nos últimos quinze dias.
Não havia uma nova paisagem para se embasbacar e assim o frio chamava toda a atenção. Não era o caso agora. Mesmo os malditos desvios por dentro de cidadezinhas minúsculas com ruas de calçamento de fazer bater o fim de curso da suspensão, ou quase seguir numa rodovia errada por ter se confundido no meio das ruelas sem placa de outra cidadela, se perder em curvas jamais vistas até então, tudo isso prendia toda a atenção e nem liguei para o tanto que devo ter congelado atravessando serração e neblina.
E eventualmente tivemos uma tarefa indelegável que se tornou inadiável pouco após passar por Guanhães MG. Tem gente que leva uma bagulhada de tralhas em viagens: capa de chuva, luva para verão, luva para inverno, kit de ferramentas (que as vezes não sabe usar), vacina de pneu, bússola, rádio comunicador, pneu reserva. Mas esquece do essencial papel higiênico! Não que eu tenha que ter parado no acostamento, surgiu um posto providencial, mas quem disse que tinha papel no maldito banheiro? Cai alho! Então a única coisa que realmente não pode faltar no seu alforje é um rolo do velho e bom papel higiênico.
Daí por diante, a viagem ficou mais leve, o dia já avançava e após Governador Valadares tivemos a grata companhia do Rio Doce logo ali na beira da estrada. Pouco antes de atravessar a divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo, uma última parada em Resplendor MG. Pouco mais de 200km e chegaríamos em Vitória ES pela BR101.

divisa Minas - Espírito Santo

divisa Minas – Espírito Santo

Tivemos então desde o início em 30/05 até o final em 16/06: 4 estados, 18 dias, 25 rodovias, 60 horas de viagem, 42 cidades, 4.876km, todos os amigos, irmãos e família que visitei. Não precisou mais nada. Se bem que mais uns dias de folga dava para esticar um pouco mais. Deixemos para uma próxima oportunidade, enquanto houver amigos, moto e estradas que ainda não conhecemos, vamos tocando.

Vitória ES, Ibatiba ES, Abre Campo MG, Caeté MG, Belo Horizonte MG, Bom Despacho MG, Araxá MG, Santa Luciana MG, Uberlândia MG, Araguari MG, Catalão GO, Três Ranchos GO, Ipameri GO, Caldas Novas GO, Goiânia GO, Itumbiara GO, Uberlândia MG, Uberaba MG, Ribeirão Preto SP, Campinas SP, São José dos Campos SP, São Paulo SP, Campinas SP, São Paulo SP, Extrema MG, Pouso Alegre MG, Três Corações MG, Belo Horizonte MG, Itaúna MG, Itabirito MG, Ouro Preto MG, Ouro Branco MG, Sete Lagoas MG, Curvelo MG, Gouveia MG, Diamantina MG, São Gonçalo do Rio Preto MG, Diamantina MG, Presidente Kubitschek MG, Serro MG, Guanhães MG, Governador Valadares MG, Resplendor MG, Aimorés MG, Baixo Guandu ES, Colatina ES, João Neiva ES, Vitóra ES.

BR101, BR262, BR381, BR262, BR452, BR050, GO330, GO213, BR153, BR365, BR050, Rodovia Anhanguera, Rodovia Dom Pedro I, Rodovia Presidente Dutra, Rodovia dos Bandeirantes, Rodovia Fernão Dias, BR381, MG431, BR356, MG129, MG443, BR040, BR135, BR259, BR367, MG214, BR367, BR259, Rodovia Pedro Nolasco, BR101.


13/06/13 renascimento

Ainda me restavam quatro preciosos dias de viagem e tendo conseguido organizar uma visita a praticamente todo mundo e passeado por estradas praticamente conhecidas, era momento de encontrar comigo mesmo e em seguida partir para o desconhecido logo ali após uma encruzilhada. Desculpe, mas depois que se descobre que “uma viagem só vale a pena quando ela te transforma”, acabamos por buscar novas fornalhas e malearmos nossa alma novamente.

Porque não colocar uma música na vitrola?

Mas antes era prudente pedir a benção (que se mostrou necessária em seguida) daquele que tem a pena preta. E assim, saindo de Itaúna MG, rumei para a entrada de Ouro Preto MG. A velha MG431 que liga Itaúna MG com a BR381 Fernão Dias ficava cada minuto mais distante a medida em que avançava sobre a BR356. Naturalmente que tivemos o velho e bom banho de lama de mineração dos caminhões que trafegam na região de Itabirito MG, nos ensina a sermos humildes.
No trevo entre Ouro Preto MG e Mariana MG pego direção desta última, mas apenas para descer um pequeno trecho de serra até o bairro de Bauxita (não é uma serra do rio do rastro mas tem lá suas traiçoeiras curvas) e de lá pegar a bipolar MG129 ou MG443, que já que não sabe qual sigla deve ter, carinhosamente mantemos sua nomenclatura original de Estrada Real. Um trecho de apenas 32km da estrada completa entre Ouro Preto MG e Ouro Branco MG.

passeio na estrada real com Broto Jr, bons tempos

passeio na estrada real com Broto Jr, bons tempos

Era ainda idos de 2009 quando passei aqui a primeira vez com a saudosa dona stefânia e não tendo culhões para subir para Lavras Novas MG (tem um trevo mais ou menos na metade do trecho), acabei resolvendo subir por um outro trevo, mais a frente que desembocaria num conjunto de antenas.
Imaginei, uai, antenas, deve ser um topo de morro legal com um vista boa e lá me enfiei, moto e tudo. O pedaço de asfalto não durou mais que 200m e me vi enfrentando pela primeira vez uma estrada de terra com uma moto custom. Muita gente teria torcido o nariz, mas lembrei do que significava o DACS para o clã e me embrenhei vereda adentro.

serra de ouro branco

serra de ouro branco

Eventualmente, após pegar um entroncamento errado aqui, outro ali, rodar meio que perdido e lembrando que não tinha tanto combustível assim, consegui acertar o caminho serra acima. Uma estradinha de terra para matar saudade de dorothéia, companheira dos tempos de trilha, com aqueles belos rasgos de enchurrada que insistiam em dividir a atenção com o horizonte mágico a minha volta.

vai dizer que não sentiria saudades também?

vai dizer que não sentiria saudades também?

Praticamente um ano depois, eu acho, levei Nuanda lá também, ele ainda tinha a XT e ficou embasbacado de como eu conseguia subir naquela estrada com dona stefânia. Mas ao longo do caminho ele entendeu de onde tirava a motivação necessária para ir cada metro adiante. No topo do morro, apreciando a alvorada e além, decidimos oficializar que a Divisão de Ações Ciclísticas Sujas do Clã do Gallo Preto, ou DACS para os íntimos, deveria ser reconhecida onde estivéssemos, fosse asfalto ou terra.

estrada real

estrada real

E era essa tradição toda que Srta. Hellen Dawson tinha agora a sua disposição para não se mostrar acanhada a enfrentar uma estrada digna de suas antepassadas que estiveram na segunda guerra mundial (ou você realmente acha que naquela época tinha maxi big ultra mega blaster trail dos infernos?). Naturalmente que os 100kg ou mais a mais do que dona stefânia e também considerando que dessa vez tinha bagagem traziam um tempero para o trem.

subindo a serra

subindo a serra

ainda falta muito?

ainda falta muito?

há algo mais entre o céu e a terra

há algo mais entre o céu e a terra

no topo

no topo

E lá em cima chegamos, para a incredulidade de uma casal que descia num uno velho e parou para me perguntar se eu estava perdido enquanto tirava umas fotos.

Não havia como explicar para eles o quanto eu estava realmente me encontrando.

perdido?

perdido?


10/06/13 adeus à bezerra

Uma parede de neblina insistia em se manter a minha frente. Isso porque já havia avançado bem a BR381 Fernão Dias em direção a Bhz. Acredito que dava para ver aproximadamente uns 10 metros a frente e olhe lá.
Mas, Fantini, de São Paulo a Belo Horizonte é um trecho curto, poderia ter saído mais tarde e evitado o frio cortante da manhã. Bem, isso não estava nos planos de Sabbath, o gato, e eu preferia não ter um hemorragia interna sem explicação.
E se o motor funcionando em temperatura adequada foi a salvação no trânsito travado de São Paulo, agora na neblina gelada senti até saudade do tempo em que cozinhava os bagos em cima da panela de óleo abaixo do banco de Hellen Dawson. Até lembrei da primeira vez que peguei um tempo de inverno com a saudosa dona stefânia a noite, retornando de Bhz para Mariana, idos de 2009. Naquela noite parei umas três vezes e fiquei abraçado no motor em funcionamento antes que pegasse um pneumonia. É, há coisas mais perigosas na vida do que um gato metido a besta.
Cheguei em Bhz na hora do almoço e após rever mãe e descarregar as tralhas na casa do imperador, fui finalmente comprar um capacete novo. O velho zeus aberto companheiro de muitas desaventuras já apresentava sinais dos kms sob chuva, sol, frio, besouro e toda sorte de sujeira possível. Teve até um passarinho suicida que deu um razante na viseira certa vez.

Infelizmente não havia uma cor mais espalhafatosa

Infelizmente não havia uma cor mais espalhafatosa

Em seguida já estava convocando o povo do clã para homenagear nossa querida bezerra morta. Tentamos ir no Vintage 13, mas como era segunda, estava fechado. E assim ficamos no Amarelinho da Savassi mesmo.

Preocupado

Preocupado

Na terça fiquei por conta da família, já que na quarta tinha encaixado uma visita para o Flávio lá em Itaúna MG. Como Itaúna MG fica logo ali a uns 100kms, não tinha motivo para sair muito cedo e finalmente pude pegar um clima agradável para curtir a estrada.
Pena o trecho curto, descendo a BR381 Fernão Dias sentido São Paulo, para logo após a Serra da Pedra Grande em Igarapé MG, pegar a MG431 sentido MG050. Outra opção seria subir a BR262 após Betim MG e pegar a MG050 na altura de Mateus Leme, mas sempre prefiro o caminho da serra por ter uma sequência bacana de curvas.
Já encontrei com o Flávio no supermercado, abastecemos de cerveja e carne e pronto, mais dois dias de preocupação com a coitada da bezerra. Um ótimo adeus à bendita.
E até aqui basicamente pilotando por estradas cuja maioria eram mais que conhecidas, paisagens que apesar das repetidas vezes, não me canso nunca de rever. Sim, desde quinta, dia 30/05 entregue ao que o clima e o asfalto me oferecessem e aproveitando a recepção calorosa de todos os amigos e irmãos. Não sei bem o que dizer a respeito a não ser: experimente também.

#vem para estrada

#vem para estrada


07/06/13 vamos beber a bezerra

Descendo a Bandeirantes a partir de Campinas sentido São Paulo, começo a pensar que tinha sido meio que besteira alterar a injeção da moto. Srta. Hellen Dawson ficou tão solta que de repente já estava acima do limite de velocidade sem esforço algum e isso estava começando a ficar divertido, mas ao mesmo tempo perigoso. Até porque ainda estava me acostumando com o novo regime de giro e potência.
Tem muita gente que vai então dizer, olha o Fantini, sempre tirando onda de motoqueiro doidão e agora se comportando como um frango d’angola pena branca. Isso porque já faz algum tempo que decidi respeitar os três limites:

A estrada – há estradas em que se pode andar no limite, pista livre e há estradas com mais curvas ou trânsito pesado ou asfalto ruim, em que se deve andar na boa.
A máquina – há motos em que se pode fazer curvas com precisão cirúrgica sem muito esforço ou que param com segurança e há motos em que é preciso um pouco mais de treino e domínio da sua dinâmica.
Você mesmo – tem dias em que está com todos os reflexos a flor da pele e tem dias em que o cansaço impede fazer movimentos simples como parar a moto no descanso com segurança.

Acreditem em mim, respeitar esses três limites, estar atento com o que ocorre na estrada, na máquina e em você, garante muito mais sua segurança que qualquer parafernália high tech de última geração. Lógico, use jaqueta, calça, coturno e capacetes bons e confortáveis. Mas o que quero afirmar é que não é preciso gastar uma pequena fortuna para ter segurança ao andar de moto.
E o trânsito de São Paulo numa sexta feira início da noite me faz esquecer as divagações e voltar a atenção aos carros a minha volta e as placas para encontrar o caminho. Aí você já imaginou a situação, moto custom, motor grande fritando sob suas pernas, quase uma vasectomia sem cirurgia e eu também fiquei imaginando.
Se você estava pensando que o melhor de acertar a injeção da moto era ter o motor entregando sua potência real, sinto em lhe informar que o motor trabalhando em temperatura adequada porque a mistura agora está correta é o melhor resultado que se pode esperar. Podia até continuar com a moto presa que nem ligava. Enfrentar o engarrafamento, sem ter tanta possibilidade de aproveitar os corredores porque a maioria só passava moto pequena, sem perder sua capacidade de ser pai um dia, é algo que nos deixa mais tranquilos.
Chego na casa do Hellton e ele empolgado me mostra a nova carteira categoria AB.
– Olha, agora eu tenho duas carteiras! Agora eu tenho duas carteiras e… o que está fazendo.

você tinha duas carteiras

você tinha duas carteiras

– Você tinha duas carteiras, hora de beber a velha com a bênção daquele que tem a pena preta, para se livrar de qualquer mal.

bebendo a carteira

bebendo a carteira

Ainda bem que ainda tinha heineken, já que o mequetrefe do Musquito que chegou em seguida repôs o estoque com skol. Cai alho, Musquito, cai alho! Além de morar em São Caetano que é longe, agora tem mais um motivo para não te visitar.  E assim fechamos a noite comemorando e bebendo a velha carteira do Hellton.
No sábado de manhã fomos dar umas voltas em lojas de motos usadas, o Hellton já tinha adiantado algumas opções e pediu minha opinião. Vimos algumas 125 para começar a brincar e pegar o jeito para coisa, na minha opinião, não é vergonha alguma, é que começando pequeno se pode avançar com calma e se adaptar a motos maiores passo a passo.
Em seguida pergunto se estávamos perto da Johnny Bordados.
– Uai, estamos. Porque?
– Vamos lá, quero ver se tem um esquema que estou precisando.

Johnny Bordados. Recomendo.

Johnny Bordados. Recomendo.

Chegamos e fomos muito mais que bem atendidos pela prestativa Anne, que apesar de só me conhecer por email reconheceu o brasão. Agradeci o respeito e pedi para ver se tinha o esquema que está procurando.
– Estou querendo fazer uma tarjeta, mais ou menos uns 20cm escrito aspirante.
– Sim podemos fazer, se puder esperar uns 30 minutos te entrego ainda agora.
– Perfeito, esperamos um pouco.
Nisso o gordinho do meu lado está pasmo.
– Para de tremer e me dá um abraço aqui, bem vindo ao DACS.

quase chorou

quase chorou

A noite já estávamos novamente comemorando e bebendo a velha carteira, afinal de que adianta ter moto se não tem irmãos e amigos em cada destino para fazer simplesmente isso, comemorar a amizade? Não, café da manhã não conta.
Ainda passei um agradável domingo na companhia do casal Tavares, tirando um pequeno contratempo com um restaurante que não servia carne. Finalmente o Hellton tem a oportunidade de comentar sua opinião sobre a morte da bezerra:
– Você não está percebendo o quanto este é um evento fatídico, a bezerra é o sustento daquela pobre família, produz leite, se pode fazer esterco com seu extrume, aí a bezerra vai e morre, a família fica desamparada. Isso não te preocupa?
– Sim, me preocupa demais, vamos beber a bezerra!
Em seguida já estava novamente descansando para partir para novo destino na segunda cedo. Não antes de um último vil dedo de prosa com Sabath, o gato.
– Cai alho! Qual a explicação lógica de você estar apalpando com as duas patas a minha barriga?

não sei se vou gostar da resposta

não sei se vou gostar da resposta

– Ora, Sr. Fantini, apenas verificando pontos fracos para causar um hemorragia interna, caso o senhor estenda por mais dias a sua estada em meus domínios.

cai alho!

cai alho!

Ainda bem que tinha outro destino no dia seguinte.


06/06/13 bezerras me mordam!

A selva de pedra que é São Paulo a cada visita se torna ainda mais indefectível. Sempre se pode esperar que haverá trânsito, mesmo que seja numa quinta feira às 05:30 da matina. OK, trânsito ainda incipiente comparado com o que ocorre nos horários, digamos, mais comerciais (afinal já peguei trânsito aqui em pleno domingo a tarde), mas ainda assim surpreende nós, meros mortais, que vivemos em cidades mais provincianas.
Mas, Fantini, temos uma cidade 24hs, encontramos qualquer produto a qualquer hora. Isso, tenho que concordar, afinal como a cidade está sempre paralisada, realmente é preciso que o supermercado e a padaria estejam abertos em horários não ortodoxos, quando se consegue finalmente chegar em casa.
Só que meu destino naquele momento era outro. Desde a fatídica sexta feira santa, em que Srta. Hellen Dawson resolvera dar uma pane na bateria (somente porque o distinto aqui ficou com o farol ligado um bocado de tempo enquanto apanhava para montar o bagageiro) estava nos devendo uma visita a Garage Henn.

Garage Henn

Garage Henn

Nem era pela ladainha do Maia de que a moto ia andar mais, que dava para ganhar potência, que devia trocar até a rebimboca da parafuseta, que assim andaria mais que moto japonesa (opa, aposto que vai aparecer algum “entendido” para discutir, rsrs), mas queria somente e basicamente acertar a porcaria da mistura pobre de fábrica que a HD original tem para atender os limites de emissões e etc.
Nisso realmente invejo os amigos de carburadas, bastava regular eu mesmo o maldito carburador, mas com essa maldita injeção, era preciso remapear e por mais simples que isso parece depois que se ver fazer, o melhor é sempre levar em quem conhece e assim rumamos para Campinas SP pela Bandeirantes.
Sim, você que está rindo aí já imaginando: “nossa, será que o Fantini que tanto comenta do frio na estrada neste mês de junho, vai comentar da serração da Bandeirantes?”. Pode continuar rindo, porque não vou comentar. Frio do capeta!
Cheguei um pouco antes da hora da oficina abrir, o que permitiu tomar um café e comer um misto quente enquanto o Paulinho não aparecia.

– Você que é o Fantini?
– Sim.
– Você não é doido igual o Maia, é?
– Não, pode ficar tranquilo.

Revisão dos 32.000km

Revisão dos 32.000km

Depois de discutir as peripécias do Maia e decidir que não iria trocar a rebimboca da parafuseta, deixamos a moto para fazer a revisão dos 32.000km e no dia seguinte faríamos o remapeamento.

– Nossa, Fantini, para que gastar dinheiro com essa moto velha, 32.000km, nossa, que pena hein, que ano é? Não, não me diga, 500km por ano, bem, tem uns 60 anos, é? Você adaptou a injeção?

Deixei o “entendido” conversando sozinho e aceitei o convite do Paulinho para conhecer a cidade. Na verdade ele precisava verificar se achava um portão melhor para a câmara do dinamômetro e lá fomos parar num ferro velho tosco como sempre tem que ser. O Paulinho achou o portão que queria, mas estava sem dinheiro na hora.

– Uai, camarada, não seja por isso, eu te dou o portão e estamos quites no serviço da moto lá.

E assim, mais uma vez o motoqueirismo mostra sua verdadeira face, da camaradagem e da ajuda mútua. Ainda o acompanhei na compra de outras traquinagens tipo “do-it-yourself” que iria instalar lá na tal câmara do dinamômetro. E nisso temos que dar o braço a torcer para o camarada, humildade e simplicidade em pessoa.
A revisão terminou no final do dia e o remapeamento somente no dia seguinte. Resolvemos comemorar o portão novo num pub famoso de Campinas que fiz o favor de esquecer o nome. Mas, não tem erro, basta ir no que estiver mais cheio, é esse. E mais uma vez fico surpreso com a circularidade da vida.

– Fantini, você toma joaquim daniel?
– Uai, claro, não dispenso jamais.
– Então pega aí. O Maia que trouxe de presente.

gentileza gera gentileza

gentileza gera gentileza

Cai alho! O cara gastou tanto aqui que precisa esticar as prestações e rolar a dívida, e aí tem que mimar o credor. Olho com mais cuidado para garrafa, um legítimo Joaquim Gente Fina e, peraí, cai alho! Conheço esse Joaquim, havia dado para o Maia para pagar o que bebemos todo em Prado BA e olha só. Rsrsrs! Sim, gentileza gera gentileza, melhor ainda quando se trata do Joaquim Gente Fina. Nem precisa dizer o tanto que a noite foi boa.

preparativos

preparativos

No dia seguinte Srta. Hellen Dawson já estava sendo devidamente estuprada até o limite enquanto o breguete lá de remapeamento, o tal TTS Mastertune para quem queira saber, ia fazendo as leituras e equalizando os dois cilindros e corrigindo a mistura.

taca fogo na namaguideraz!

taca fogo na namaguideraz!

Três séries de ajustes depois, finalmente o motor pode respirar aliviado e entregar sua potência original e não aquela merrequinha estrangulada de fábrica. Mas sinceridade, tenha em mente que os freios das custom em geral e da HD inclusive não são aquela maravilha e seja consciente.

já dá para alcançar as japonesas

já dá para alcançar as japonesas

– Consciente? Você fala sobre os três limites e.. Fantini, Fantini, peraí!!!

Depois de uma voltinha de teste, despeço do Paulinho e equipe da Garage Henn, realmente mais que recomendado, não só pelo serviço impecável, mas pela pessoa que o camarada é. E isso faz toda a diferença. Fora que me custou apenas um portão usado. Fino!

Ligo para o Hellton:

O Fantini me ligou

O Fantini me ligou

– Frangolino, separa o colchão aí que estou chegando.
– Sério?! Bezerras me mordam!!!


05/06/13 enquanto a bezerra continua morta

São 05:30 da manhã e a esposa acorda de sobressalto com o grito do marido:
– Ele vem! Ele vem!
– Meu deus, calma, quem vem?
– O Fantini, o Fantini vem para São Paulo!
– Mas como você sabe? Ele não estava em Goiânia?
– Programei meu celular para acompanhar as publicações dele no facebook. Já vou até mandar uma mensagem no whatsapp para saber quando ele chega.
– Meu bem, vamos voltar a dormir? Vamos.

A parte divertida de uma longa viagem de moto, mesmo com paradas estratégicas para visitar os amigos e descançar o corpo, é que o clima sempre te surpreende. Eu acreditava que não seria possível passar mais frio quanto o que passei a praticamente uma semana atrás, subindo na quinta de Vitória ES para Três Ranchos GO. Estava enganado.
Enquanto avançava a BR153 com destino à divisa de Goiás com Minas Gerais, para seguir para Uberlândia MG e de lá pegar a BR050 em direção a São Paulo, a espessa neblina da madrugada cortava a jaqueta, a segunda pele, minha pele e calcinava meus ossos. Vejo a saída para Caldas Novas GO e praguejo por estar indo em outra direção.
Aí lembro que não havia abastecido na noite anterior e olho o hodômetro. Tinha ainda garantido 50km de autonomia e assim fui neblina adentro. 40, 45, 49km, nada de posto, quer dizer, passei uns três que estavam no sentido contrário da rodovia. Cai alho, Fantini! E porque não atravessou a pista? Bom, pista dupla com retas infinitas tem suas vantagens. A desvantagem é a mureta central ou uma vala de todo tamanho. Fora a teimosia de não pegar o retorno porque tinha retorno para o posto, mas não tinha retorno para voltar. Fora que estava frio igual na terra do capeta e queria evitar qualquer manobra brusca.
Aos 51km o posto apareceu, minha salvação. Quer dizer, salvaria a autonomia. Com essa temperatura, parar é até pior, porque o corpo esquenta novamente e quando se volta para a estrada, o choque térmico é ainda mais forte. Tudo bem, podem rir do fato de ter deixado o forro da jaqueta para trás lá em Vitória ES. Mais algumas sequências de nada com coisa alguma na paisagem em volta, a solidão tomando conta de seu ser e a divisa de estados surge junto com a ponta do sol para mostrar que sim, você está vivo e não atravessando alguma ponte através do Rio Aqueronte.

Divisa Goiás - Minas Gerais em direção ao trevão

Divisa Goiás – Minas Gerais em direção ao trevão

Logo em seguida há um trevão onde se pode seguir direto para entrar em São Paulo pela estrada que chega a Barretos SP (ninguém recomenda) ou pegar um trecho da BR365 até Uberlândia MG e lá pegar a BR050 (que vira Anhanguera em SP) passando por Ribeirão Preto SP, caminho mais recomendado e por onde fui. E continuou o frio, Fantini? Alguém deve ter perguntado. Sim, continuou lá em Goiás, porque agora começava a esquentar de tal maneira que era impossível acreditar que a poucas horas atrás poderia encontrar um pinguim passeando no acostamento que não acharia estranho.

o sol voltou

o sol voltou

Já passam de 11:00 da manhã. O sujeito está inquieto, reunião tensa na empresa, saca o celular.
– Co jest kurwa? Jesteśmy w spotkaniu! Chcesz stracić piłki!? (1) – esbraveja o chefe polonês.
– Calma chefe, preciso saber do Fantini. Como assim?!? Nenhuma resposta dele, vou mandar outra mensagem.

Entre Campinas SP e Valinhos SP, durante uma parada de abastecimento, resolvo conferir a hora para acompanhar o avanço da viagem e comentar no facebook que estava correndo tudo bem. Vejo umas três mensagens no face e outras cinco no whatsapp. Da mesma pessoa:
“Assim que puder, me liga”
“Chegando em São Paulo, me avisa”
“Já providenciei cerveja”
Bom essa última interessou e respondi um educado: “pensarei no seu caso”, até porque tinha compromissos da pena preta. Mas como havia aberto o celular, resolvo conferir o mapa também, esses trem high tech de hoje facilitam a vida, e vejo que com um pequeno desvio de 150km poderia dar um abraço no velho rabugento lá de São José dos Campos SP e assim peguei a Rodovia Dom Pedro I e segui para lá.
Cheguei ainda no final da tarde, a casa estava com cara de vazia. A moto na garagem, mas o carro não. Isso é sério? O velho é só gogó mesmo! Vejam, compra essa moto enorme só para tirar foto dela enquanto lava na garagem. E depois sai para passear de carro! Trinquei! Pego o celular para ligar para ele e já sacanear até a 3a geração, quando lembro que lá em Três Ranchos GO, uma falha sem explicação apagara a memória de contatos. Trem high tech mão na roda, o cai alho! Ainda tentei conseguir o número de telefone por outras vias, mas acabo descobrindo que ele estava em Jundiaí SP, próximo de onde eu havia pegado o desvio. Paciência.
Pego a Dutra de volta para São Paulo SP e de repente o calor desaparece e encontramos de volta a sensação de estar indo em direção ao Tártaro. E assim novamente a viagem de moto lhe apresenta a sua maior lição: não importa quem você seja, o clima não se interessa por sua insignificância e vai se apresentar do jeito que melhor o convier, indiferente a sua vontade. Se acostume com isso ou venda a moto e compre um sofá e uma televisão full HD.

em direção ao tártaro

em direção ao tártaro

Após ficar perdido pela enésima vez para pegar a saída para Av. Paulista, acho o endereço de onde tinha meu compromisso e o trecho de hoje estava finalizado depois de uns 1.100km e por volta das 19:30. Ligo para o Hellton.

– Fala, que bom que ligou, já estava preocupado. Já está aqui na porta de casa?
– Não.
– Uai, mas está a caminho?
– Não.
– Está perdido de novo?
– Errei o caminho, mas já achei o endereço aqui.
– Endereço? Não vai vir para cá?
– Não.
– Como assim? COMO NÃO?!?
– Sossega, a bezerra continua morta.

(1) Que porra é essa ? Estamos em reunião ! Quer perder as bolas ?!?


30/05/13 a morte da bezerra pt01

O que se pode dizer sobre uma viagem de moto que já não tenha sido dito? Alguém sempre tem uma dica, qual moto é melhor para isso, qual moto melhor para aquilo, o que levar, que tipo de roupa usar, quantos quilômetros se avançar por dia e inúmeras outras amenidades que se encontra por aí na opinião dos mais entendidos de plantão e comentaristas de revistas especializadas no assunto.
Talvez aquele camarada que você encontre no café da manhã todo sábado, lhe passe recomendações fundamentais de segurança e indumentária, qual a maneira correta de conduzir a motocicleta e, pasmém, um código completo de sinalizações para indicar o que há de perigo na pista quando se anda em comboio.
E você, Fantini, se preocupa com esse tipo de coisas?
– Desculpe… falou comigo?
– Sim, você não se preocupa com…
– Ah! Sim, estou muito preocupado. Preocupado com a morte da bezerra!
E olha que o Helton, nosso novo aspirante, comentou bastante sobre este evento fatídico, mas deixa isso para quando chegarmos em São Paulo.
– São Paulo! Vai rodar bem então.
– Talvez, mas primeiro vamos para Goiás.
– Goiás?!?

Divisa Minas - Goiás por Araguari

Divisa Minas – Goiás por Araguari

Eu já estava a caminho de Uberlândia MG, após passar o trevo de Araxá MG. Vinha desde Vitória ES quando sai quinta por volta de 05:45 da matina. Estava prestes a ter uma pane seca quando finalmente surgiu uma cidadezinha chamada Santa Luciana MG. Estava difícil controlar a mão trêmula e congelada pelo vento e umidade da chuva fina, quase uma névoa, que vinha me acompanhando desde a divisa entre Espírito Santo e Minas Gerais.
Como era uma chuva bem fina, não chegava a molhar o asfalto, somente ia umedecendo a roupa a ponto de que a sensação de frio chegava ao limite do intolerável. A segunda pele tentava fazer seu papel em vão e comecei a imaginar a oportunidade de comprar um colete de lã fino para usar sob a jaqueta.
Comecei a rir, afinal a jaqueta tem um forro térmico. Um forro térmico que ficou em Vitória ES, dentro da caixa no armário onde está desde que mudei para o clima infernal do litoral capixaba e arredores. Cai alho!
Cheguei em Uberlândia MG por volta de 18:30 conforme previsto. O Aurélio Batman que me aguardava em Três Ranhos GO já estava conhecendo meio mundo no encontro lá (o que nos proporcionou um bocado de cervejas grátis, diga-se de passagem). Mas como é que um camarada anda mais de 1.000km em apenas 13 horas?

Encontro em Três Ranchos GO

Encontro em Três Ranchos GO

Bom, como sai cedo, consegui encaixar a subida da serra até Realeza MG com o trânsito de mineiros descendo de Bhz para a praia. Daí em diante não peguei trânsito praticamente algum, o que dá para fazer a viagem render bem. E também tem a facilidade de já conhecer a estrada, uma vantagem que só tem quem usa sua moto para ir além das esquinas do bairro. Recomendo.
O último trecho entre Uberlândia MG e Três Ranchos GO, pelo contrário, era completamente desconhecido. Conferi o mapa, passaria por Araguari MG, divisa e Catalão GO. Mas uns 200km. Fichinha para quem já tinha feito 1.000km? Mais ou menos pois a partir de 18:30 já havia escurecido bem e para quem já passou por isso, sabe o quanto é ingrato viajar de moto a noite quando o céu está nublado. É um bréu do cai alho! E em estrada desconhecida, melhor ir “na manteiga” como recomenda Mestre Grilão.
Por volta de 21:30 cheguei em Três Ranchos GO e já fui direto para o encontro. Mal parei Hellen Dawson e já tinha um caboclo cabeludo me gritando.
– Porra, padrinho! Veio mesmo. Vem cá mostrar para esses caras aqui que você veio mesmo.
Grande Aurélio Batman. Figura, nos conhecemos em 2009 num outro encontro em Goiânia GO. Preciso professor da arte dos embates. Nunca esquecerei sua técnica de posicionamento estratégico em botecos.
Já tinha conhecido meio mundo do evento. Tudo bem que meio mundo do evento não passava de meia dúzia de gatos pingados. Primeiro evento em cidade pequena é assim mesmo. Mas garantiu boas risadas e muita cerveja.

O pessoal aqui prefere jetski

O pessoal aqui prefere jetski

E aí vem o Nelsão, incrédulo.
– Você não veio de Vitória ES hoje não. Não tem como.
– Uai, é tranquilo, basta acordar cedo, pegar a moto e seguir a direção até aqui.
Na verdade acho que ninguém acreditava que um camarada fosse capaz de rodar mais de 1.000km em um dia, na verdade somou uns 1.300km (quase um iron butt sem fazer muita firula que fazem por aí), somente para encontrar um velho amigo. Bom, se você também não acredita, venda sua moto e procure outro passatempo. Pois é disso que é feito motociclismo, rodar e encontrar amigos. Nada mais.


28/03/13 a aventura so começa quando algo da errado

Havia já algum tempo que devia uma visita ao Helton, companheiro do clã que mora em São Paulo. A mais ou menos um mês atrás deixamos marcado para o feriado da Semana Santa. Ficou ainda mais tranquilo de ir quando descobri que a empresa resolveu, além da sexta feira, abrir uma folga também na quinta. Perfeito.
Nisso o Maia estava naquele frenesi danado, o que comumente chamamos de fogo no brioco, para acertar o recém adquirido mastertune. E ainda tinha cismado de passar para o tal estágio dois lá com o Paulinho Henn em Campinas.
– E o que diabos é estágio dois? questionei.
– Coisa simples, se troca o comando de válvulas.
– Cai alho.
Realmente concordo que a mapa de injeção original das HDs é muito ruim (coisa para atender legislação de consumo e emissões), o que praticamente mata o motor de 1600cc. E assim tive a idéia de aproveitar o ensejo e fazer o remapeamento da srta. Hellen Dawson.
Nuanda, velho companheiro de batalhas barrentas e a sua maneira responsável por hoje existir o DACS no clã (falo sobre isso novamente numa próxima oportunidade), ainda pretendia fazer uma surpresa ao aparecer do nada lá em Sampa. Pronto, estava tudo organizado.
Srta. Hellen Dawson vinha de um banho de loja considerável, pois aproveitando o par de sapatos novos da Michelin, resolvi dar uma geral na pintura, cromados e rodas. E lá se foi polimento em tudo, modéstia as favas ficou muito bom o serviço na Ayso Motos. Além da nova tatuagem providenciada com o Mestre Marcio Langer. Melhor que isso somente cromando tudo novamente como fez o Chassis com sua Shadow (e essa ficou igual zero km, linda).

Hellen Dawson e sua nova tatuagem

Hellen Dawson e sua nova tatuagem

Na quarta a noite deixei tudo montado e organizado. Quer dizer, apanhei para montar de volta a grelha do bagageiro, pois seu encaixe não bate com o do banco novo. Era acordar cedo na quinta, 04:30 da matina para ser preciso e zarpar rumo à paulicéia. Toda a parafernália de proteção que se tem direito, já que estava chovendo lá fora, viro a chave central, desligo o mata motor, todas as luzes de espia se acendem e se apagam indicando tudo sob controle. Só dar a partida e ouvir a música do escape curto (outro mimo comprado para a menina recentemente).
Então Fantini, só dar a partida. Fantini? A partida.
– Estou tentando! Cai alho! Estou tentando!
Uma, duas, três. A parafernália de proteção começa a pesar e a segunda pele que deveria manter o frio distante começa a se tornar uma sauna. Olha aqui, olha acolá, dá a partida e um “tec-tec-tec” elétrico e maldito do lado esquerdo abaixo do banco. E nada. Bom e isso porque na noite anterior estava funcionando de boa. Cai alho!
Pensei em desmontar a parte elétrica para verificar o que era, provavelmente pelo tipo de sintoma o relé de partida ou a bateria (fiquei com o farol ligado montando a maldita grelha), mas o suor escorrendo dentro do capacete e a frustação daquela melindrada de Srta. Hellen Dawson, empacando feito uma mula de carga só porque estava chovendo, me fez negar tudo aquilo que acredito, subir em casa, tirar toda a couraça, tomar uma ducha, vestir uma bermuda e ir com a Noviça Rebelde, a picape que tomou lugar da antiga Picareta.
Já estava na altura do Rio quando vi a mensagem do Nuanda confirmando que a dragstar dele também havia apresentado problema. Só que mecânico, carburador afogando e moto sem força na alta. Já pensei no giclê de alta. Depois não consegui falar com ele para saber se precisava de ajuda. Isso porque estava na BR101 vindo de Vitória e ele descendo a BR262 (Fernão Dias) a partir de Bhz. E qual o problema? Se precisasse, atravessava no meio das estradinhas vicinais e salvava ele lá onde estivesse. Ou então poderia acabar de negar de vez o que consideramos ser o clã e botar fogo na fúnebre flâmula.

fúnebre flâmula

fúnebre flâmula

E o Maia? A essa altura lá na oficina em Campinas estava se divertindo botando fogo do escape e fazendo o Joaquim Daniel dançar ao som do velho e bom V2. Filho de uma boa mãe!
Cheguei em Sampa e, como sempre, me perdi para chegar na casa do Helton. E olha que não é tão difícil assim chegar na casa dele em Vila Mariana. Depois de errar três vezes porque fui confiar mais no GPS do que na minha memória, instinto e placas (sim, todas indicavam perfeitamente o caminho se tivesse seguido), uma hora depois encontrava com os dois irmãos.
Estendemos a fúnebre flâmula e pronto, um posto avançado do conclave marajoense estava formado. A RFEIM existe onde um membro do clã estiver. O Musquito, outro companheiro que também resolveu morar na selva de pedra nos acompanhou noite adentro, dividindo nossas histórias e mentiras e muita Heineken. Quer dizer, o franga do Musquito trouxe skol.
Como sexta era feriado, decidimos que não tinha muito o que fazer quanto a moto do Nuanda, até porque não tinha ferramentas para verificar o maldito carburador. Começamos a verificar as opções que tinhámos, um reboque de volta a Bhz ficaria muito caro. Mas caro mesmo era demover Nuanda de voltar com a moto naquele estado. Não era seguro.
– Não vou deixar em oficina aqui não, preciso da moto no dia a dia.
Com muito custo conseguimos convencê-lo que poderia pegar a Honda Biz emprestada do Gustavinho.

A honda biz do Gustavinho

– Essa eu queria filmar e…
– Helton, cai alho! Sossega!
Incomodei o camarada Nishida, grande Nishida, para saber se conseguia algum mecânico próximo. Arrumou logo três opções e ainda verificou novamente um reboque para Bhz. Realmente o coração é muito maior que a pessoa. Se bem que ele é baixinho igual eu. Rsrs.
Na sexta a noite fomos encontrar com a Nina, capitã das fumos que vieram de Bhz para o Lollapalooza, e fomos parar lá na tal Vila Madalena. Como estava todo mundo virado de viagem (no caso delas) e cachaçada (a gente), não sobrevimemos ao segundo buteco. É a vai idade. Antigamente durávamos no mínimo três butecos. Mas vai lá.
No sábado cedo, ok, quase cedo, já estávamos na GO a procura de uma oficina para deixar a dragstar do Nuanda. Isso porque as opções que o Nishida passou, coitado, furaram o olho do japonês e estavam fechadas. Pergunta daqui e de lá, descobrimos uma oficina que poderia atender, mas ficava para o lado da Av Cruzeiro do Sul. Não me perguntem detalhes, já viram lá no início que não consigo chegar nem em Vila Mariana sem ficar perdido. Bom, basta indicar que é a Podium Motos. O pessoal foi muito cordial, mas a atendente foi cética.
– Só poderemos olhar a moto segunda.
Eu pensando menos mal, já que conseguimos uma oficina, Nuanda com uma lágrima nos olhos e o Helton já ia zoar novamente a história da Honda Bis. Cai alho! Sossega Helton!
Fomos caçar algo para tapar a fome, não tinha mais o que fazer. Quando já estava acabando o exagerado pastel de 30cm da lanchonete que não lembro o nome, já lá de volta para os lados de Vila Mariana, o telefone do Nuanda toca.
– Ah! Sim, é o Rafael, tá, sério, tá, então tá. Daqui uma hora? Tá, então tá.
– Nem precisa falar, pela sua expressão é da oficina, só falta dizer que a moto está pronta? perguntei.
Olha só, eu sou muito pé atrás com São Paulo. Acho o custo de vida, a tensão do dia a dia atribulado, o trânsito caótico, bom, o conjunto da obra algo que não me agrada. Mas descobrir que uma oficina desmonta o carburador, limpa, regula, monta de novo e entrega num intervalo de três horas (ou menos), isso porque era sábado após um feriado, me faz queimar a língua.
Não é que a moto ficou boa. Alguém vai dizer que a gente deveria ter resolvido por conta própria. Sim, concordo, mas como já havia dito, não possuíamos as ferramentas para tal. Os puristas que nos perdoem.
Resolvido a pior parte, vou saber do Maia se estava tudo bem.
– Velho, instalei um freio novo já que você reclamou que o original não estava muito adequado para a nova potência da moto.
– Mas como assim, era só regular, não precisava trocar.
– É que agora a Lily Monster passa dos 200.
Desliguei o telefone. E pensar que até um mês atrás o cara era um pacato professor universitário.
No domingo cada um caçou seu rumo. Nuanda subiu para Bhz e eu desci a Dutra para o Rio para em seguida pegar a BR101. O Helton acho que ainda estava dormindo quando cheguei em Vitória. O Maia? Velho deve ter chegado no dia anterior ao ultrapassar a barreira do tempo e o espaço. Cai alho!
Srta. Hellen Dawson estava lá impassível. Perdeu a oportunidade de receber fôlego novo com o remapeamento da injeção, mocinha maldita. Mas é assim mesmo, a aventura só começa quando algo dá errado. Se bem que preferi todas as vezes que algo deu errado no meio da viagem e não antes de começá-la.


21/12/12 christmas ride

Acho que vou considerar tornar a voltinha de natal algo tradicional. Ano passado estive em Araxá e este ano voltei para Bhz. Se daquela vez enfrentamos eu e saudosa dona stefânia uns bons 700 e poucos km com frio e chuva em cada trecho, dessa vez a nova companheira, srta hellen dawson, teve que enfrentar um escaldante início de verão.
Ao contrário de suas demais conterrâneas, acostumadas com frio e neve nessa época do ano em paragens mais ao norte do mundo, srta hellen dawson foi obrigada a sobreviver a uma viagem iniciada às 12:30. Não, não recomendo a ninguém, ainda mais se considerar que de Vitória a Bhz são pouco mais de 550km, o que deu para vencer em umas 7 horas e pouco. Eu sei que tem muita gente que gasta bem mais tempo e nem é questão de correr, é só questão de aproveitar a estrada.

Granjas reunidas em Bhz

Granjas reunidas em Bhz

Como era um horário bem atípico, sendo a tarde de uma sexta e véspera de natal, a estrada estava bem vazia. O que foi muito útil considerando que para nós dois aquilo era novidade. De um lado eu pela primeira vez a domar aquele exagero de motor em um trecho mais comprido, do outro a moto que acredito não ter ainda conhecido esse trajeto.
A primeira impressão é que realmente o sistema de suspensão “softail” cumpre com o que promete. Aliado a frente gorda, temos uma estabilidade incrível. Como estava muito acostumado com dona stefânia com sua menor altura, suspensão não tão confortável e o garfo dianteiro que não apresentava a mesma rigidez, fiquei realmente muito surpreso com a facilidade de contornar as curvas, algo que sempre preocupa em qualquer moto custom. Ainda mais deste tamanho.
Além disso o motor com fôlego. Fôlego? Melhor é dizer dois pulmões de folga. Foram pontos muito específicos em que tive que fazer uso da 4a marcha. Basicamente fiquei na 6a marcha, reduzindo para 5a quando um regime de rotação um pouco mais alto foi necessário para uma ou outra ultrapassagem. E isso subindo morro inclusive.
E naturalmente devem estar imaginando, o maluco subiu a serra, partindo meio dia, nessa lua, em cima de uma “big twin”, já era, fritou os bagos. Bom, neste caso, um providencial sistema de refrigeração de óleo, instalado pelo antigo proprietário foi de grande valia. Mas vale lembrar que a estrada aberta é o território dessas motos e portanto, o próprio vento se encarregara do recado. Ainda assim foi de grande valia atrás deste ou daquele caminhão onde fomos obrigados a reduzir o ritmo até conseguir ponto para ultrapassar.
Bom, todos estes pontos positivos, mas lógico que tem que ter algum revés, afinal nem tudo na vida são flores. E eu no alto dos meus 1,67m comecei a sentir a dolorosa adaptação a uma moto cuja ergonomia foi pensada para camaradas maiores. Com o banco original e uma grelha para levar a parca bagagem no lugar do banco de garupa, não conseguia achar um bom apoio lombar, o que me obrigou a segurar o corpo com os braços e pés.
Para os braços foi terrível, pois a fatboy vem com aquele maldito guidon cruiser. Que cai alho é aquele? Quem disse que aquela coisa é confortável? O pulso dobrado a viagem toda e ainda fazendo força para segurar o corpo contra o vento. O guidon já era, tinha dado alguma confiança, mas sem chance, terá que ser substituído. O guidon da heritage é o que tem mais me agradado em termos de visual e conforto, vou ter que arrumar um similar.
Para as pernas, bem, apesar do “desconforto” que sentia com as pedaleiras da antiga moto, não achei posição com as plataformas da atual. Isso eu ainda não pensei como resolver, ainda estou pensando numa solução a respeito. Mas acredito que um daqueles bancos que te mantêm mais a frente possam ajudar bastante, coisa que vou ter que olhar.
E nessas horas valeria a pena estar debaixo da neve só para ter uma revenda que realmente prestasse para verificar as peças antes de comprar algo no escuro e esperar pacientemente pela entrega.
Mas de modo geral e comprovado na viagem de volta, já na terça, apesar das várias dores que apareceram pelo corpo todo rsrs, não tem discussão sobre a ciclística e força do motor. E como acaba se trabalhando numa rotação relativamente baixa, o consumo também ficou muito bom comparado com a velocidade média e alguns tiros que dei aproveitando os trechos de reta e estrada vazia.
Só continuo com minha opinião que não justifica o valor que se cobra numa moto nova, mesmo com a opção de utilizar óleo lubrificante para motor diesel em seu motor.
Ah! E sim, se você também mora no litoral, sugiro adquirir o radiador de óleo (que se danem os puristas!), pois realmente terminar uma viagem de pouco mais de 550km com uma panela de óleo fritando debaixo do banco num calor de 40oC não é coisa que desejo para meu pior inimigo.


24/11/12 capital do petroleo

Estive de carro a contragosto em São Lourenço MG no feriado de finados para encontrar com o povo do fórum DOGs. Isso porque no final de outubro havia estourado os retentores e empenado a roda dianteira de dona stefânia na visita a Bhz. Na oficina o Chico me perguntou como consegui pilotar com a moto naquela condição, com as bengalas completamente sem óleo. “Ainda bem que foi no final da viagem já na volta, não é?” ele perguntou. Quase caiu para trás quando disse que tinha passado num buraco logo subindo a serra no início da viagem, um dia antes.
Apesar de novamente ir num encontro de motos sem moto (joselito sem motão total), sempre é uma boa oportunidade de conhecer pessoas bacanas e lá estava o Zeca do RJ para me chamar para o encontro em Macaé. Tive que declinar inicialmente porque não tinha achado hotel ou pousada para ficar. Complicado. Para ser sincero não sei para que o povo tem essa mania de ficar marcando tudo com antecedência, perde até um pouco da graça da viagem, mas cada um é cada um.
Já estava preparando para ir para uma confraternização geral da empresa onde trabalho, quando a filha do Freitas, outro amigo do povo do Répteis aqui de Vila Velha me ligou querendo saber se eu ia a Macaé. Comentei que não tinha mais vagas em pousadas e ela insistiu, vamos de camping. Não tenho barraca, mocinha. Não tinha problema pois ela tinha barraca. Mulher quando quer carona nem adianta discutir.
Não fosse a previsão de chuva no sábado segundo o climatempo, eu começava a pensar, já tendo avançado a fronteira entre ES e RJ, se realmente seria possível chover. Não havia uma sequer nuvem no céu. Cai alho que dia quente. O jeans surrado estava de boa, mas a jaqueta realmente estava tenso. Devia ter vindo só com uma camisa de manga cumprida. Paciência.
Acho que a única vez que vi uma estrutura de evento tão grande foi no Brasília Moto Capital em idos de 2007, eu e Nuanda atravessando o centro oeste (de carro rsrsrsrsrsrs, nessa época só fazíamos trilha) de Bhz até o Distrito Federal. Passei a primeira entrada do evento, puto por ter errado e continuei dando a volta. E continuei dando a volta, continuei dando a volta, aí mais um pouco e aí uma placa: “entrada mais a frente”. Velho, cabia um Mineirão inteiro mais estacionamento no lugar. Três palcos. Megalomania total.
O calor impedia de fazer qualquer coisa, inclusive montar a barraca foi na base do missão dada é missão cumprida. E ainda nenhum sinal de umidade. Teriam nossos amigos do climatempo se enganado? A primeira cerveja estava quente e a coisa somente mellhorou depois que troquei de boteco (tinha uma centena lá) e passei a tomar uma budzinha na temperatura ideal.
Havia o palco principal onde teria o Nazareth. O palco 2 bem em frente a área dos botecos que se mostrou o melhor inclusive na seleção de bandas (todas muito boas) e o palco 3 lá no fundão do outro lado onde estava rolando o shows mais pesados, inclusive com a diversão garantida do João Gordo e o povo do RDP. Excelente show. Mas e o Nazareth, Fantini? Não gosto então podia nem ter que ficou do mesmo tamanho.
Por volta de 18:00 finalmente São Pedro deixou de sacanear o povo do climatempo e aquele tempo fechado foi chegando devagar até que quando escureceu de vez e já se podia sentir a umidade no ar, começou aquela ventania típica de tempestade. Lembrei que não tinha travado tanto assim a bendita barraca e fui lá correndo encaixar mais travas. E nisso voando barraca, voando banner, voando bandeira, voou até um barbudinho magricela que estava lá de bobeira. Chuva mesmo nem foi tão forte assim para entrada triunfal que ela vez, ficou naquelas chuvinhas chatas que começam, param, recomeçam, diminuem, aumentam e vão até de madrugada.
Nesse interim encontrei com as figuras carimbadas daqui do ES, que estão em todas. De bobeira numa das lojas lá me aparecem o Bart e o Samuka que estavam olhando anéis (sei). Não me perguntem porque. Em seguida ainda achamos o Macedo com seu pessoal do Águias, aproveitei para filar um joaquim daniel e saber dos planos dele e Bart de subir o Atacama. Boa viagem camaradas.
Não achei foi o Zeca, deve estar puto comigo a essa hora. Rsrsrsrs!
Por volta de 03:00 da matina fui durmir já me preparando para o chão duro (sim, tinhámos barraca, mas quem disse que tinha colchão?). Finalmente quando consegui pegar no sono, antes de 05:00 uns desinfelizes que não sabem fechar acampamento e ir embora de boa, começam uma algazarra. Ainda tentei cochilar mais um pouco. Sem sucesso. Cai alho! O jeito era levantar também e ajeitar as tralhas para pegar estrada de volta.
O tempo estava nublado, mas sem sinal de chuva. Ótimo, compensaria o calor do sábado. Viagem mais que tranquila, pouco trânsito. E lá veio ela, nossa velha companheira chuvinha chata de estrada. Nos pegou da divisa até próximo de Iconha, mas era chuva muito fina e de boa, nem incomodou. Como tinha que deixar a filha do Freitas em Vila Velha, após Iconha, peguei a saída para Piúma e assim a Rodovia do Sol.
Não foi uma boa idéia, porque a chuva que havia passado completamente nos pegou no trecho entre Piúma e Meaípe, aí desandou, não pela chuva um pouco mais forte, mas pelos carros jogando o spray de lama e areia na cara. Sei que já tem gente aí se contorcendo no sofá, mas como eu digo, não se vê isso da janela do apartamento. Aí é uma escolha entre uma vida pacata e tediosa ou um pouco de sujeira, diversão e um banho ao final da viagem.


27/10/12 pontes

Escrevi recentemente para um irmão a respeito da importância da criação de pontes entre as pessoas e como admirava essa capacidade nele. De uns tempos para cá tenho batalhado muito esse tipo de coisa e tenho certeza que o motoqueirismo tenha facilitado desenvolver essa faculdade em quem, como eu, não nasceu com ela.
Eu queria e precisava simplesmente retirar a cera dos sapatos novos de dona stefânia. Realmente a inveja mata, mas no caso foi só o bom exemplo do Christian que me deixou com vontade de aproveitar a necessidade de troca dos pneus para colocar um par de faixas brancas. Christian, meu muito obrigado por me deixar na pilha ao ver o resultado na sua moto. E dona stefânia também agradece.
E lá estava eu confabulando para onde ir, tinha planos de ver uns negócios em Sampa e aproveitar para visitar o velho Ghan e de quebra o casal Tavares (nossos irmãos de clã), mas precisaria de mais prazo. Havia ainda um pequeno encontro aqui em Vitória mesmo para ir com o Chico. Ou o churrasco da Pagu. E finalmente tinha o Outubro Negro, festa do calendário oficial do clã em Bhz.
O que quero dizer é que se não estivesse exercitando a difícil mas necessária arte de construir pontes, é provável que teria que ir somente ali no posto do café sozinho mesmo.
Assim resolvi fazer uma surpresa ao irmão Nuanda, indo de supetão para Bhz, afinal somente 600km, viagem rápida. E com certeza teria bastante asfalto para tirar a cera do pneu novo de dona stefânia. A surpresa quase deu certo (houve boatos da minha ida), mas no final vendo a alegria do Nuanda com minha presença compensou ficar só no refrigerante e água para ter condições de voltar no dia seguinte. Isso mesmo, sai sábado cedo, fui na festa, voltei para Casa do Imperador, dormi, domingo cedo já estava voltando. Atravessando pontes estrada afora e pavimentando mais ainda a que tenho com meu querido irmão de clã.


E naturalmente que reencontrar todos os demais irmãos do clã também foi especial, mas azar o de vocês, o aniversário era dele.
Mas como sempre tem algo de inusitado para tornar as viagens mais divertidas, logo na primeira parada em Ibatiba, observando dona stefânia com suas meias de seda, sexy e bandida, vi que os retentores das duas bengalas estavam melejando. Maravilha, aquele buraco subindo a serra doeu mais que na minha coluna. Após alguns cálculos resolvi seguir viagem. Na ida nem atrapalhou muito, exceto em algumas curvas do trecho entre João Monlevade e Bhz, onde percebia que a suspensão já estava um pouco dura para as manobras.
Na volta é que foi a sensação. Lembrei de um outro camarada reclamando sobre dor nas costas. Acho que ele teria morrido no meu lugar. O asfalto da BR381 / BR262 em Minas foi recapeado recentemente e não tem buracos, mas as costelas, invisíveis a olho nu, mas bem sensíveis numa moto custom com perda de óleo nas bengalas, estavam demais. Eu fui contando os solavancos e acho que atingi um recorde pessoal de 35 solavancos por quilômetro. A certo momento pensei até que estava montado na dorothéia e não em dona stefânia. A coisa só melhorou quanto alcancei o Espírito Santo. Com menos trânsito de caminhões, o asfalto está menos desnivelado e assim consegui reduzir a média de solavancos.
Enfim, não foi necessário nenhum analgésico para minha grata surpresa. Tudo bem que tem a praia para dar uma boa relaxada pós viagem, ainda mais nesse calor e com horário de verão.
Ou talvez seja só resultado da sensação de atravessar as pontes que criamos com as pessoas que amamos de coração.


14/09/12 quem sabe se experimenta com uma full hd

Eu estava na loja / oficina do Chico essa semana comentando sobre como dona stefânia tinha ficado suja no pulo a Monte Verde MG (deixei ela lá para lavar) e aproveitando o dedo de prosa fui conferir a data e a quilometragem da última geral para saber se já era hora de trocar o óleo do cardan.
Ele começou a rir que era uma absurdo só me conhecer a 6 meses e já estar na hora de trocar o óleo do cardan que é a cada 10.000km. Sim, 10.000km de viagens em 6 meses, mais um bocado de boas amizades no mesmo período, como o grande Chico ou a própria Pagu, daqui de Vitória ES.
Mas os últimos 2.000km dessa empreitada somaram na última viagem no fim de semana que passou, com a volta ali na esquina de Monte Verde MG a convite da turma dos DOGs de Bhz, Carlão da Carlinha e Matheus da Zelda. O povo do clã resolveu ir em peso, inclusive o povo que não é DACS (ainda), afinal o clã nasceu bem antes da paixão de alguns por motoqueirismo.
Uma das vantagens de uma viagem longa é experimentar vários climas num mesmo dia, coisa que não se percebe numa viagem de carro hermeticamente fechado em seu ar condicionado e som de dvd. Na estrada o ar é que te condiciona a aceitar o frio do sereno da madrugada ao sair, combinado com o calor escaldante do sol a pino no meio dia, para te entregar a temperatura amena do fim de tarde. Com sorte ainda pode ser presenteado com um pôr do sol.

um pôr do sol de presente

um pôr do sol de presente

Juro que dá para ver da janela do apartamento. Basta dependurar sua tv full hd na janela e escolher algum canal com belas imagens.

talvez fique bom na full hd

talvez fique bom na full hd

No caminho tive a infelicidade de parar em Oliveira MG, porque senão teria uma pane seca em seguida. Não quis arriscar voltar empurrando dona stefânia e ficar com sede. A água de lá não é muito benta. Que o diga o Broto Jr.
E o asfalto em si, tanto da BR262, quanto da BR381, estava convidativo, com uma dose adequada de curvas que tornam a viagem mais animada, já que particularmente não curto muito as infindáveis retas de alguns trechos da BR101 das últimas empreitadas.
Cheguei e já encontrei o pessoal a toda na pousada com mais de meia grade e meia animando a conversa, foi difícil entrar no ritmo. O evento em si ainda estava vazio na noite de sexta e o jeito foi continuar na pousada. Após Mestre Trindade desempenhar seus ofícios de desperdício de bebida e ainda discutirmos ufologia até acabar com as cervejas importadas que o Helton trouxe, resolvemos dormir. Até porque o Carlão da Carlinha já estava para reclamar que não entendia para que tanto barulho as duas da matina.

Vista da Pousada Locanda Belvedere

Vista da Pousada Locanda Belvedere

No sábado o calor estava demais durante o dia e acabou que a turma se espalhou para conhecer a cidade. Monte Verde MG tem uns passeios legais de cavalo, caminhada, trekking e quadricíclo. Ah! Tem aeroporto para quem quiser ir de avião e enviar a moto por carreto. Parte de turma resolveu ir para o quadricíclo, parte resolveu dar uma descansada para a noite e eu fiquei lá passeando com a velha heineken mesmo porque estava com preguiça. Até encontrei com o Peralta e foi bom saber que apesar do susto em Penedo RJ já estava ali para contar a história.
Ainda peguei um resto de final de tarde do evento, com uma banda muito boa cover do Iron Maiden (tinha até o Eddie!) e depois fui dormir. Não deu para ver como foi o evento a noite e madrugada adentro porque já havia combinado com a dona da pousada que ia acordar mais cedo no domingo só para me preparar um café.

Eddie e a Infinity Dreams

Eddie e a Infinity Dreams

Domingo cedo, aquela serração fina e cortante, o vento gelado, atravessei a área do evento que não estava com vontade de pegar o desvio que deixaram por uma estradinha de terra e já estava descendo a sinosa estrada que dá acesso a Monte Verde MG. Parei para ver o nascer do sol, mesmo que seja possível ver na tv full hd.

o sol de um novo dia

o sol de um novo dia

Na volta tive que fazer uma parada emergencial devido a uma tarefa indelegável, o que atrapalhou um pouco a programação que tinha traçado de paradas de abastecimento. Poderia ter segurado até o posto em Oliveira MG, mas se tomando a água já complica, imagina se bate na bunda, aí fudeu de vez. Melhor não arriscar.

aqui é melhor ficar com sede

aqui é melhor ficar com sede

Belo Horizonte MG e metade da viagem ficavam para trás na subida da perigosa BR381 no trecho até João Monlevade MG. O engraçado é que vi dois acidentes de caminhão na reta no trecho Bhz – Sampa, provavelmente porque o motorista dormiu, não tem explicação. Enquato isso na chamada rodovia da morte, nada de mais, graças a um bocado de radares bem posicionados antes das curvas mais travadas.
Final do dia e fazia a última parada em Venda Nova do Imigrante ES, o tempo escureceu e desci a região serrana do ES praticamente no faro. Porque ora era o farol de dona stefânia que não ajudava no breu danado, ora era algum desinfeliz que subia no sentido contrário com o farol alto.
Não importa, completei mais 10.000km de estradas, dando motivo para o Nuanda continuar a me chamar de “iron butt”, estive junto do povo do clã num ótimo fim de semana, ajudei o Carlão da Carlinha a manter sua ranzinice e ainda economizei a grana que teria que gastar numa tv full hd. Perfeito.


28/08/12 o que se vê e o que se sente

Lá em idos de fevereiro precisei testar um par de abraçadeiras novas que substituiu as danificadas do acabamento do escape de dona stefânia. Volta rápida, um pulo entre Vitória ES e Prado BA.
Quase chegando em Prado BA, avistei uma bela de uma tempestade formada a frente, o que fazia um perfeito contraste com o horizonte limpo de céu azul que deixava para trás a cada km avançado.
Acabei parando para tirar uma foto. Algumas paisagens não se modificam com o tempo, mas está com certeza era só ali, naquele dado instante, naquele dado lugar, única.

Resolvi falar a respeito da sensação que tive nessa pequena experiência porque a alguns dias atrás o companheiro Nuanda comentou o quanto a foto ficou bacana. Em seguida outros amigos comentaram também, em um processo muito interessante de emergência a partir de algumas poucas interações simples em um ponto comum sem que houvesse alguma ordem definida. Trindade faria um contraponto: “Isso é muito complexo.”.
Portanto voltemos à foto. Três coisas me chamaram a atenção quando parei para tirar a foto. A primeira é o que comentei acima, algumas experiências são tão singulares no tempo e no espaço que não haverá outra oportunidade para vivenciá-las, portanto aproveite o momento.
A segunda questão é a respeito da simplicidade com que a vida se mostra. Se estivermos com os olhos cerrados pelas falsas necessidades que tantas vezes nos empurram goela abaixo todos os dias, perdemos a oportunidade de sermos plenos com as coisas pequenas. Não é preciso muito para ser feliz.
A terceira é a respeito do passo e que não devemos ficar parados no tempo. Ao olhar para trás temos sempre um tempo claro de certezas e portos seguros. A frente tudo é desconhecido e pode parecer sombrio. Mas na vida precisamos seguir o passo a frente e enfrentar os desafios que ela nos apresenta.