Prudens quid pluma niger secundum

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Blumenau 2011 – Fotos

Clique AQUI para algumas das imagens feitas durante a viagem. Em breve, o link será atualizado com novas fotos.

 

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Blumenau – BH: Volta Solitária PT 01

De maneira inversa a uma lógica textual clássica (se é que nos preocupemos com isso neste espaço), neste meu primeiro texto sobre Blumenau 2011 irei mais concluir do que introduzir, descrever ou listar eventos de forma cronológica.

Não que exista um real motivo para isso. Talvez porque a viagem não acabou – Rafael Leander e Hermann John ainda estão na estrada, e o meu retorno prematuro e solitário fora previamente definido por compromissos profissionais. E apenas juntos conseguiremos uma descrição de tudo.

Se quiser ir mais além, e levar em consideração o texto do Gustavo Fantini (leia aqui), posso dizer que a viagem nunca acabará, já que “uma viagem só vale a pena se ela te transforma”.

Se uma viagem nos transforma, é porque ela se instalou em nosso corpo, alma e mente. Suas marcas não fogem pelo ralo junto à água suja a escorrer logo na lavagem que retira das motos o barro, a poeira de asfalto, o minério e os insetos esmagados.

O caldo grosso que escorre nos primeiros jatos de água é apenas a sujeira. Sujeira essa que pode sim revelar, após sua retirada, algum tipo de marca mais ou menos permanente – como um inesperado arranhão no tanque que estava misturado ao barro seco. E só.

As verdadeiras marcas em nós tatuadas por uma viagem capaz de nos transformar ultrapassam todas as camadas da pele. Devem envolver não só auto-superação (como já relatado aqui), mas proporcionar reflexões que superem as faixas do asfalto.

O caminho pode deixar marcas mais significativas do que o destino.

Belo Horizonte – Blumenau. Do nosso ponto de encontro para a partida até o albergue no qual nos hospedamos, nós percorremos 1.195km (pela marcação da minha moto). Destes, 590km até São Paulo, 190km até Registro, interior de SP, cidade na qual pernoitamos após a primeira jornada. De BH até SP a viagem fluiu muito bem. Sem sustos por parte dos barbeiros de plantão ou adversidades climáticas.

Já os 190km restantes até Registro (nosso ponto programadado para pouso), nos presenteou com um grande congestionamento e chuva razoavelmente fina nos quilômetros finais. O que não diminuiu os 780km de nossa primeira jornada.

Os 415km do dia seguinte foram marcados por tempestades, caminhões, roupas e botas encharcadas, capas de chuva rasgadas pelo vento. Sem contar nas serras que não levam o nome “azeite” de graça, na neblina e no frio cortantes, mesmo em uma tarde de céu claro.

Como disse, meu retorno foi prematuro. Após dois dias de viagem com Muamba e Hermann, passei três noites em Blumenau (o que renderá postagens futuras mais específicas). Chegamos à cidade no início da noite de Quinta (13/10), e parti sozinho para a viagem de volta no Domingo, dia 16/10. Acordei tarde e saí ainda sem café, por volta das 13h. Às 14h00, parei para almoçar na estrada. Aproveitei o buffet de saladas e comi apenas alimentos mais leves. Uma barra de cereal complementou o desjejum tardio.

O ideal em uma viagem dessas é parar o suficiente apenas para suas necessidades – desidratação e hidratação, como diz Fantini, e um lanche rápido para não pesar o estômago. Esticar as pernas, um alongamento leve, pronto. Mas, desta vez, eu prolonguei bem mais o pit-stop. Não foi algo consciente.

A saída de sopetão ainda não tinha permitido que minha ficha caísse, até então. Eu estava no início de uma viagem de 1.200km, na qual eu gastaria duas jornadas sobre a moto, atravessaria quatro Estados, enfrentaria estradas lotadas, caminhões e SUVs ensandecidos, muita, muita chuva, e sozinho. E não imaginava que o game mode VERY HARD seria realmente tenso. D.A.C.S. puro.

A ficha caiu ainda durante a refeição. O frio na barriga me causou leve enjôo, e preferi não comer o naco de carne que servi no prato. Muita coisa passou rapidamente pela minha cabeça naquele momento: chutar o balde, voltar para o albergue e continuar a viagem com os camaradas; despachar a moto e pegar um avião (calma, foi apenas uma brincadeira).

Me perguntei se realmente conseguiria. Me questionei se estava preparado fisicamente e, principalmente, psicologicamente. Não obtive respostas. Eu já sabia que estas encontraria apenas na estrada. Conferi rapidamente alguns apertos na moto, verifiquei a gambiarra que estava segurando a placa, montei Dona Onça e parti de vez.

Logo nos primeiros quilômetros de uma estradinha local que levaria até a BR 101 eu já tive o primeiro baque: a ausência dos companheiros à frente e nos retrovisores. Eu “puxei a fila” por quase todos os quilômetros da viagem de ida. Alí, Hermann e Muamba se alternaram na cobertura de nossa retaguarda. E saber que alguém em quem você confia e possui entrosamento está te “cobrindo” transmite uma segurança imensa durante o exercício da “função” de “batedor”.

Mas, como disse, naquele momento eu estava sozinho. (https://gallopreto.wordpress.com/category/tempo-e-viagem/)

Continua…


Uma viagem só vale a pena se ela te transforma

Camaradas,

Imagino a ansiedade em que se encontram. Afinal, minha primeira viagem
longa, quando rumei para Brasília num encontro com desconhecidos, foi
um misto de suor frio, falta de ar, sono que não vinha e frio na barriga.

Acabei por fazer várias outras viagens com pessoas desconhecidas.
Algumas se tornaram conhecidas, outras foram apenas parte da paisagem,
não importa.

Importa dizer que, para mim, a cada dia de estrada, mesmo pela liberdade
proporcionada e pelo encontro comigo mesmo, isso ainda era pouco e não
fazia muito sentido se não pudesse compartilhar com quem está comigo a
tanto tempo: vocês.

Antes de sermos motociclistas, somos uma irmandade, um Clã. Cada um
tem suas qualidades e seus fantasmas a enfrentar. E considero ser mais
fácil, mesmo sendo uma função estritamente pessoal, vencer seus medos
mais íntimos com a companhia e apoio dos verdadeiros irmãos.

Toda estrada é uma oportunidade de uma experiência transcendental
consigo mesmo. Um momento de reflexão e possibilidade de transformação.
E isso é ainda mais forte na presença de pessoas que temos como irmãos.

Não joguem isso fora.

Abram seus corações. Encontrem a si mesmos.

Uma excelente viagem!