Prudens quid pluma niger secundum

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17/05/16 novas pontes

Para mais de ano, comentei aqui sobre a importância da construção de pontes nas nossas relações sociais. Alguém mais afobado vai dizer que isso é muito fácil em se tratando do Fantini. Não só veemente nego, como assumo que isso faz parte de uma decisão pessoal de transformação. Eu era um cara fechado e resolvi não ser mais e sei como não é fácil criar pontes.

Mas você já está aí encucado porque queria ler alguma aventura ou peripécia após longo tempo sem que o humilde aqui escrevesse uma frase sequer é dá de cara com esse papo furado de livro de auto-ajuda.

Pois bem, existe todo o mito de que andar de moto transforma a pessoa. Posso afirmar que te transforma numa pessoa mais suja depois de 1h debaixo de chuva com caminhões levantando água suja na Serra do Cafezal na Regis Bittencurt ou mais fedorenta após 1h no asfalto escaldante da região sul de minas quando entre 11:00 e 14:00 você está lá no meio da Fernão Dias.

Dizer que andar de moto vai te tornar uma pessoa mais legal, somente porque agora tira fotos de tirar o fôlego na estrada. Fotos são para ter boas lembranças, mesmo se for usar os filtros de algum aplicativo para melhorar as fotos de celular.

Foto de paisagem e comida. Duas vezes mais hipster.

Foto de paisagem e comida. Duas vezes mais hipster.


Depois desse tempo razoável sobre duas rodas (e desejo que ainda continue por muito mais tempo, afinal temos que alcançar o Ghan), descobri que ando de moto é para atravessar pontes e alcançar algum amigo, antigo ou novo, que o caminho da vida foi me apresentando para filar comida. Sério.

O famoso Ghan, reza a lenda que aprendou o sorriso interior em Cleveland

O famoso Ghan, reza a lenda que aprendou o sorriso interior em Cleveland

Em todas as viagens e passeios em que não estava caçando alguma estrada nova (onde normalmente estou sozinho), foi para visitar alguém e filar um rango, uma cama e uma ducha. Agora eu lhe pergunto: isso é realmente uma tremenda cara de pau que inventei ou porque tive a felicidade de encontrar pessoas que o santo bateu?

É assim vamos tocando a toada, fazendo aquilo que o ser humano como ser social sempre fez: se relacionar, receber e ser recebido, pavimentando pontes através do respeito, mas que para os habitantes das grandes cidades é a última novidade ou trend, porque essa vida corrida e isolada os fez esquecer disso.

Um agradecimento especial a todos os amigos que me receberam nos últimos dias: Guy Correa em Formiga MG, Tiago Conte em Conselheiro Lafaiete MG, Ghan e família em São José dos Campos SP e Agnelli Cordeiro em Curitiba PR. E naturalmente desculpas aos que não pude visitar neste mesmo período. Não faltarão oportunidades!

Com a benção daquele que tem a pena preta!

Com a benção daquele que tem a pena preta!


Foram 1 semana e alguns dias, 3 estados, 7 cidades, 10 rodovias, mais de 3.000km.

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13/06/13 renascimento

Ainda me restavam quatro preciosos dias de viagem e tendo conseguido organizar uma visita a praticamente todo mundo e passeado por estradas praticamente conhecidas, era momento de encontrar comigo mesmo e em seguida partir para o desconhecido logo ali após uma encruzilhada. Desculpe, mas depois que se descobre que “uma viagem só vale a pena quando ela te transforma”, acabamos por buscar novas fornalhas e malearmos nossa alma novamente.

Porque não colocar uma música na vitrola?

Mas antes era prudente pedir a benção (que se mostrou necessária em seguida) daquele que tem a pena preta. E assim, saindo de Itaúna MG, rumei para a entrada de Ouro Preto MG. A velha MG431 que liga Itaúna MG com a BR381 Fernão Dias ficava cada minuto mais distante a medida em que avançava sobre a BR356. Naturalmente que tivemos o velho e bom banho de lama de mineração dos caminhões que trafegam na região de Itabirito MG, nos ensina a sermos humildes.
No trevo entre Ouro Preto MG e Mariana MG pego direção desta última, mas apenas para descer um pequeno trecho de serra até o bairro de Bauxita (não é uma serra do rio do rastro mas tem lá suas traiçoeiras curvas) e de lá pegar a bipolar MG129 ou MG443, que já que não sabe qual sigla deve ter, carinhosamente mantemos sua nomenclatura original de Estrada Real. Um trecho de apenas 32km da estrada completa entre Ouro Preto MG e Ouro Branco MG.

passeio na estrada real com Broto Jr, bons tempos

passeio na estrada real com Broto Jr, bons tempos

Era ainda idos de 2009 quando passei aqui a primeira vez com a saudosa dona stefânia e não tendo culhões para subir para Lavras Novas MG (tem um trevo mais ou menos na metade do trecho), acabei resolvendo subir por um outro trevo, mais a frente que desembocaria num conjunto de antenas.
Imaginei, uai, antenas, deve ser um topo de morro legal com um vista boa e lá me enfiei, moto e tudo. O pedaço de asfalto não durou mais que 200m e me vi enfrentando pela primeira vez uma estrada de terra com uma moto custom. Muita gente teria torcido o nariz, mas lembrei do que significava o DACS para o clã e me embrenhei vereda adentro.

serra de ouro branco

serra de ouro branco

Eventualmente, após pegar um entroncamento errado aqui, outro ali, rodar meio que perdido e lembrando que não tinha tanto combustível assim, consegui acertar o caminho serra acima. Uma estradinha de terra para matar saudade de dorothéia, companheira dos tempos de trilha, com aqueles belos rasgos de enchurrada que insistiam em dividir a atenção com o horizonte mágico a minha volta.

vai dizer que não sentiria saudades também?

vai dizer que não sentiria saudades também?

Praticamente um ano depois, eu acho, levei Nuanda lá também, ele ainda tinha a XT e ficou embasbacado de como eu conseguia subir naquela estrada com dona stefânia. Mas ao longo do caminho ele entendeu de onde tirava a motivação necessária para ir cada metro adiante. No topo do morro, apreciando a alvorada e além, decidimos oficializar que a Divisão de Ações Ciclísticas Sujas do Clã do Gallo Preto, ou DACS para os íntimos, deveria ser reconhecida onde estivéssemos, fosse asfalto ou terra.

estrada real

estrada real

E era essa tradição toda que Srta. Hellen Dawson tinha agora a sua disposição para não se mostrar acanhada a enfrentar uma estrada digna de suas antepassadas que estiveram na segunda guerra mundial (ou você realmente acha que naquela época tinha maxi big ultra mega blaster trail dos infernos?). Naturalmente que os 100kg ou mais a mais do que dona stefânia e também considerando que dessa vez tinha bagagem traziam um tempero para o trem.

subindo a serra

subindo a serra

ainda falta muito?

ainda falta muito?

há algo mais entre o céu e a terra

há algo mais entre o céu e a terra

no topo

no topo

E lá em cima chegamos, para a incredulidade de uma casal que descia num uno velho e parou para me perguntar se eu estava perdido enquanto tirava umas fotos.

Não havia como explicar para eles o quanto eu estava realmente me encontrando.

perdido?

perdido?


19/05/13 cavaleiros medievais

Antes de continuar, porque não colocar um som na vitrola?

A um tempo atrás eu havia comparado nossa atitude de viajar rincões afora numa moto a aquela dos cavaleiros medievais, que portando seus cavalos atravessavam reinos e alcançavam terras distantes.
Quando retornavam, traziam algo além das cicatrizes e peles calcinadas pelas intempéries que enfrentavam. Traziam também a experiência de ter vivenciado outras paragens, outras culturas, e de seus relatos dessas terras maravilhosas, nascia o fascínio que os aldeãos (que nunca teriam a oportunidade de conhecer um mundo além de suas cercas) nutriam por estes cavaleiros e que se tornou sua maior imagem que nos passam tantos contos e histórias.

Motoqueiros ou cavaleiros medievais?

Motoqueiros ou cavaleiros medievais?

Ao menos é o que me vem a cabeça para tentar explicar porque causamos o mesmo facínio nas pessoas. Sim, muitos irão questionar o porque de suportarmos tanto desconforto que uma viagem de moto proporciona (na verdade é exatamente o contrário, já comentei sobre isso), mas sempre ficam nos olhando com aquela cara de “gostaria também de ter a oportunidade (coragem) de ultrapassar minhas cercas e me lançar ao desconhecido”.
Dito isso, retorno a uma discussão técnica que tenho vivenciado com o Maia. Ele um “novato” que já fez viagens que até deus duvida no pouco tempo de moto e sendo um ex-pacato professor de direito, defende o direito que todo e qualquer indivíduo tem de adquirir o que bem entender e ainda utilizar ou não utilizar tal bem da maneira que achar mais adequada. Sim, fiz esse rodeio todo para comentar a respeito do que torna alguém motociclista (ou motoqueiro como tenho preferido ultimamente), na minha mais humilde opinião.
Comprar o veiculo e se fantasiar ao bel prazer de uma forma que mais me parece inconscientemente criada por modelos de marketing e por este fascínio que comento acima (e as vezes pouco ou nada a ver com o indivíduo), na minha humilde opinião não torna alguém motoqueiro. Bom, talvez motociclista, sim aquele que faz questão de se destacar de pobres almas que não tem a mesma oportunidade de usar moto somente por prazer e sim para ganhar o suado pão.
E até bem pouco tempo atrás não tinha tal consentimento, mas das discussões com o Maia, acredito que aqueles que vivem de criticar o comportamento deste ou daquele motociclista ou motoqueiro, seja pela oportunidade de usar marca A ou B de moto, seja  por usar para ir na padaria, pequenos eventos ou levar na oficina em outro estado também não sejam motociclistas ou motoqueiros.
Cai alho, Fantini! Então o que diabos você acha que te faz motociclista ou motoqueiro?

Nós e outras figuras que causam fascínio

Nós e outras figuras que causam fascínio

Serei sincero, eu mesmo não tinha certeza. Só soube num dia em que peguei a saudosa dona stefânia a partir de Mariana MG onde morava na época e sai por aí. Comecei em Bhz (porque tinha compromissos da pena preta), em seguida voltei para Ouro Preto MG só para passar no trecho da estrada real até Ouro Branco MG, a partir da BR040 fui a Petrópolis RJ. Num posto em Entre Rios RJ, o frentista me indicou um encontro em Rio das Flores RJ.

Estrada Real

Estrada Real

– Pega essa estrada aqui na divisa entre Minas e Rio e segue uns 50km. – me aconselhou.
Cheguei já no inicio da noite. Parei no posto da cidade e me aproximei de outros motociclistas que ali estavam.
– Bão? Aqui onde é o encontro? Sabem de lugar para dormir aqui?
Me olharam de cima a abaixo.
– Mas você está sozinho? Veio de onde?
Contei por onde tinha passado.
– Você é doido? me questionaram completamente atônitos.
– Não, sou motoqueiro (a bem da verdade, eu disse que era motociclista).
Estava batizado.
Assim, voltando ao assunto, se você ainda não se lançou ao desconhecido estrada afora, sem destino definido, com o único e simples intuito de curtir o que a viagem lhe apresentar e assim ganhar algumas cicatrizes e calcinações na pele. Sem ter sua alma acrescida por novas experiências em paragens nunca vistas. Me desculpe, amigo, mas você não tem o direito de tomar para si o fascínio que os antigos cavaleiros medievais criaram nos aldeões.


10/06/12 missão itaguara

Fúnebre Flâmula

Quando você se encontra embaixo daquela chuva fina que parece que não vai acabar nunca, pára num posto para abastecer e pensa: “ótimo, essa é a última perna da viagem de volta para casa”, você passa a se questionar o motivo de tanto sacrifício.
A moça do caixa vendo minha situação ainda quis tornar aquela sina mais branda: “O pessoal que está vindo de Vitória disse que a chuva começou lá. Aqui estava tranquilo até agora, a chuva deve estar subindo a serra. Não deve ter mais quando descer.” Eu sabia que ela não tinha muita razão, exceto pelo fato da falta de sentido de cair chuva em pleno Junho, afinal a região serrana do Espírito Santo mantém o mesmo clima entre Ibatiba e Viana. E eu vinha debaixo de chuva desde que comecei a subir a serra. E descendo a chuva me acompanhou até Vitória. Um novo recorde pessoal de estrada na chuva e sem capa. Para a alegria de um companheiro, molhei até a cueca!
Mas aí você se pergunta o que diabos estou fazendo ali? Já tinha um tempo que devia uma visita ao companheiro Isaac em Itaguara MG, onde ele mora durante a semana devido ao trabalho. Não só pela visita ao irmão de clã, mas porque tinha que lhe entregar nossa fúnebre flâmula. Fiquei feliz pela confirmação do Broto Jr que apareceria por lá também, precisava falar com ele. O Nuanda nos trocou pelo Camping & Rock e Hermano estava viajando a trabalho.
Não importa, estava ali, a alguns quilometros de casa (apesar que considero a viagem minha casa), após algumas horas subindo a BR262 e em seguida a Fernão Dias, na companhia dos velhos frangos, conversando sobre o tempo, o espaço, relações sazonais e é claro políticas públicas. Com um pouco mais de discussões como essa já poderemos escrever uma tese de sociologia.
Ainda aproveitei para visitar a família em Belo Horizonte MG. Dedé, meu irmão não só de clã, como de sangue, inventara um churrasco da turma dele. Fui lá para curtir a tarde de sábado antes de descançar para o retorno no domingo. Foi bacana demais não só pela galera do Dedé, todos assíduos frequentadores do borracheiro, mas por encontrar o Binho, um dos amigos leitores dessas histórias para boi dormir que eu escrevo.
Falando sobre a estrada mesmo, bem, o trecho pior até então, que é o entorno de Manhuaçu está sendo recapeado. Isso é um alívio, pois o asfalto nesse ponto estava muito ruim. Na ida resolvi passar por João Monleavade MG, ao invés do caminho de sempre por Ponte Nova MG, só para variar. Apesar da distância mais curta, continua um trecho muito perigoso pelo traçado das curvas e topografia, além do trânsito intenso. Vale a pena evitar.
Na volta, o trecho entre Belo Horizonte MG e Mariana MG, velho conhecido, exige um pouco de atenção devido as obras de recuperação de desmoronamentos em função das chuvas do verão. Mas nada que assuste, basta estar de olhos abertos. E um frio considerável, tanto na vinda como no retorno. Principalmente depois de ficar molhado até a cueca. Cai alho!
Então porque tanto sacrifício? Porque estar ali? A cada abraço dos irmãos que visitamos descobrimos que quem tem um “para quê”, enfrenta qualquer “como”.


24/12/11 go ride on christmas time

Havia bastante tempo que não pegava uma estrada, desde agosto deste ano na ida a Penedo no RJ. Sim estive em Bhz MG logo em seguida, mas nem conta porque uma pane me fez deixar dona stefânia lá praticamente 1 mês inteiro para só buscá-la no final de setembro.
Em seguida uma revisão mal feita em uma concessionária de Vitória ES, deixou um quase crônico vazamento de óleo na tampa do filtro de óleo, o que me tirou a paciência nos meses seguintes até conseguir resolver na base da justiça com as próprias mãos. Saudade do tratamento digamos vip da concessionária de Mariana MG. Assim não vamos queimar a Yamaha, mas saibam que não vale a pena revisar a moto na concessionária de Vitória ES.
Mas também outros compromissos diminuiram minha cota de fins de semanas livres, tanto para fazer justiça com as próprias maõs, quanto para dar voltas mais longas, afinal fazer pose em todos os botecos da cidade, pagando de cara mau da motocicleta, foi o que não faltou. Tem gente que acha graça. Eu a cada dia me achava mais cômico e me perguntava aonde foram parar aqueles tempos de vento no peito e cheiro de asfalto?
E assim foi até conseguir uma janela com uma volta até Araxá MG para passar o Natal na casa de parentes. Casou perfeito, até na empresa houve folga na segunda (eta empresa danada de boa). Assim teria um dia para ir, um para curtir e um para voltar. Mas do que o necessário, afinal ficaria feliz com somente o dois dias de estrada.
Acordei no sábado cedo, véspera, imaginando que dali a pouco o povo do Clã estaria no tradicional Pré-Natal no Central, nossa confraternização de fim de ano no Mercado Central em Bhz MG, regada a muito fígado acebolado com jiló. Não dava para participar. 900km me separavam do meu destino.
A viagem começou bem, o clima estava ameno, bom ameno para Vitória ES, mas logo estaria subindo a BR262 na região serrana de ES, passando pela linda visão da Pedra Azul. É muito bonito, mas assim que comecei a contornar as sinuosas curvas morro acima um fria neblina tampou toda a paisagem. A couraça segurou a onda, mas lembrei da trupe Nuanda, Hermano e Broto congelando na estrada a caminho de Blumenau SC. Primeira parada em Ibatiba ES e a frente o tempo estava aberto, céu azul.
E que calor dos infernos! Não fosse já estar acostumado com essas surpresas agradáveis do clima numa viagem de moto, talvez tivesse desistido. E o tempo bom e calor me acompanharam até Abre Campo MG na segunda parada e continuaram até Mariana MG já na terceira parada. Mas Fantini, se estava subindo a BR262, como diabos foi parar em Mariana MG e não na BR381 em João Monlevade? Bom eu prefiro quebrar em Rio Casca MG e pegar a estrada por Ponte Nova MG. Além da paisagem bem mais agradável, o pouco trânsito faz a viagem render mais, apesar de ser um trecho mais comprido do que seguir direto até Bhz MG.
E por falar em calor, passei o último quebra mola de Cachoeiro do Campo MG e dá-lhe chuva. Como ainda era início de viagem resolvi arriscar continuar sem capa que secaria em seguida. Me palpite foi tão certo que 2km depois passou a chuva. Era uma tempestade local. E de novo o calor infernal, fiquei seco em questão de minutos. Mas como não pode faltar nada numa viagem de moto, logo após a barreira policial de Itabirito MG, o asfalto estava molhado por outra chuva passageira. A parte divertida é que nesse trecho até a BR040 é região de mineradoras, então imagine a chuva de lama que tomei de todos os carros e caminhões a frente. Realmente não é possível passar por isso pagando de cara mau nos botecos, mas para mim é o que há de melhor, reconhecer que o mundo não gira em volta do nosso umbigo e que devemos enfrentar o que nos vem a frente.
Na BR040 já na região de Nova Lima MG, foi possível dar uma boa esticada descendo a região do Vale da Mutuca. Na verdade aqui ainda é continuação da MG356 que vem desde Ouro Preto MG. Peguei a alça do anel rodoviário em direção a Contagem MG. Daí a pouco já estava em Betim MG. Antigamente eu seguia a BR381 e entrava lá na MG431 em direção a Itaúna MG, passava em Divinópolis MG pela MG050, para só depois baixar na BR262 de novo em Bom Despacho MG.
Mas queria conhecer a BR262 duplicada neste trecho. E assim sai direto depois de Betim MG para o (re)início da BR262 em direção ao Triângulo Mineiro, bem mais da metade da viagem para trás. E que trecho bom, asfalto novo, pista dupla. Torci o cano mesmo até Nova Serrana MG onde houve a quarta parada. O tempo continuava quente, mas havia sinais de chuva. Realmente esse tempo de mormaço não engana. Continuei. A pista dupla cessou, mas daqui para frente o trecho é praticamente todo reto, então nem precisa de pista dupla, quaquer caminhão que se pega no caminho, não demora muito para se ultrapassar.
Fiquei nesse transe, quando o viajar é mais que a viagem e passamos a perceber o entorno de outra forma, o quanto somos pequenos, o quanto nos entregamos as mesquinharias do dia a dia, enquanto ali estava a natureza mostrando toda a sua exuberância, indiferente à minha presença. A subida da Serra da Canastra então? Quando se via uma mar de morros sem fim abaixo, paisagem quebrada somente pela presença de um forte tempestade a frente, hora a estrada apontava para ela, hora desviava, como num jogo de bem-me-quer-mal-me-quer.
Estava tão extasiado que não percebi a km e dona stefânia começou a falhar. Ótimo, vira a chave da reserva. Só que já estava virada. Junior total! Daqui a pouco lá estava eu empurrando dona stefânia no acostamento (tinha visto um posto a pouco) e fui feliz da vida, ainda anestesiado com todo o conjunto da obra e ainda rindo da própria presepada. Pouco antes de uma subida, me aparece uma van daquelas equipes de wheeling (acrobacias de motos). O camarada parou e depois que expliquei meu drama, resolveu tomar uma providência e me ofereceu 2 litros da mais pura. Mais pura gasolina. Agradeci, foi o bastante para alcançar o posto na minha sexta parada, já que a pane seca foi a quinta.
Logo em seguida cheguei em Araxá MG, afinal faltavam somente 50km! Isso mesmo. No total 12h de viagem desde Vitória ES. Passei a noite de sábado e o domingo em excelente companhia, muita diversão e momentos de agradecimento.
Na segunda ainda de madrugada acordei todos da casa com os berros de dona stefânia (ainda tenho que dar um jeito de abafar esse JJ) e voltei para nosso terreiro natural. Estava aquele frio gostoso de antes de amanhecer e o clima indicava que viria chuva. Dito e feito, pouco depois do ponto onde houve a pane seca, lá estava eu parado tentando enfiar a capa de chuva, treco sem jeito. Foram uns bons 150km debaixo de chuva. A vantagem é que esse trecho é muita reta e mesmo a descida da Serra da Canastra é tranquila. Claro que os pneus Bridgestone se mostraram bem mais aderentes que os Pirelli originais, se quiser seguir um conselho, evite os Pirelli, sua aderência é péssima e já me deixaram em bons apuros no mesmo trecho.
Logo em seguida o sol de rachar e haja água de coco em cada parada de volta. Entre Mariana MG e Abre Campo MG foi muito tenso, pois já esta o pico do sol de meio dia. Mas como já passei muito mais raiva vendo a cerveja esquentar debaixo do telhado de amianto dos botecos de Parauapebas PA, mantive-me firme em meu intento. Lógico que em Abre Campo MG foram 3 garrafas de água para compensar, o que somado com os solavancos devido ao péssimo asfalto da BR262 descendo até a divisa do ES, me fizeram parar duas vezes para mijar na beira da estrada em seguida.
Realmente podem esticar o Rally dos Sertões para este trecho que nenhum trilheiro pode dizer que fica devendo a alguma estrada de terra rincão afora. Está realmente sofrível e deixa a pilotagem bastante tensa.
Dessa vez passei Ibatiba ES direto e fui parar em Venda Nova do Imigrante ES e faltavam apenas 120km até Vitória ES. Foram 2 estados, 7 rodovias, 30 cidades, 5 climas diferentes, 1 pane seca, 12 horas para ir, 12 horas para voltar, pouco mais de 1.800km. O corpo já estava reclamando a pouco mais de 150km atrás, mas o espírito iria adiante, com certeza!


04/06/11 visita ao juquinha

Quase teríamos um bonde antológico subindo para Serra do Cipó para um bate e volta sugerido pelo Hermano João a mais tempo. Tudo combinado, deixei os apetrechos organizados para partir sábado de manhã de Mariana para Bhz. Toda vez me lembro do comentário de um camarada a meu respeito: “Fantini, você é o único cara que eu conheço que viaja para viajar de moto”. Ele tem razão, toda vez que combino com alguém, tenho que me deslocar primeiro, para depois realmente passear.
Para o diabo! Mesmo o conhecido trajeto pela MG356 cortando o caminho para Ouro Preto, somado ao aumento de volume de trânsito com a interdição da saída da BR262/381 em Bhz com a queda da ponte sobre o Rio das Velhas, ou o frio cortante que fazia às 07:00 da matina, não impedem de considerar o deslocamento inicial parte do passeio.
E ainda aproveitei, já que o trecho é conhecido, para aprimorar o contorno de curvas com a utilização de contra-esterço e controle da aceleração. Se você ainda não faz isso e acha que é só subir numa moto e pronto, considere aproveitar todo e qualquer trecho para treinar e aprimorar sua condução. Seu anjo da guarda agradece.
O Nuanda já tinha avisado que compromissos de trabalho haviam reduzido seu fim de semana a somente o domingo. Mas foi chato receber a mensagem do Broto Jr indicando que não poderia vir mais devido a falecimento de um parente. Não pode nem se apresentar no tradicional café da manhã na padaria em frente ao Condomínio JK na Rua Timbiras – tradicional porque era de lá que partíamos para as trilhas e nossa farra na lama.
A atendente perguntou ao Nuanda se queria beber alguma coisa e ele: “pode deixar, vou pegar uma coquinha”. Voltou com um pet de 2 litros. Cai alho!
Partimos eu e Hermano João em direção a Lagoa Santa. Perguntou se iríamos pela Pedro I, mas sugeri irmos pela Cristiano Machado mesmo, até porque precisava abastecer porque meu passeio tinha iniciado a 130km atrás. O trânsito na Praça Raul Soares e depois no pequeno trecho da Andradas / Teresa Cristina até o Complexo da Lagoinha foi tranquilo. Na Cristiano Machado, o que incomoda mesmo é a obrigação de manter a velocidade no máximo a 60km/h. Não rende.
Pegamos a Linha Verde (antiga MG10) e assim pudemos sentir o vento no peito e o cheiro de asfalto. Apesar das críticas e das reclamações inerentes de quem foi expulso da região da Savassi para os lados de cá, ainda acho que o Centro Administrativo Trancredo Neves é uma obra a ser aplaudida pela sua beleza. Acho que um dia vou marcar um passeio só para tirar umas fotos com o imponente conjunto servindo de pano de fundo.
Chegamos a Lagoa Santa e me lembrei de sua aparência de cidade satélite pacada da época em que trabahava na região a bem mais de 9 anos atrás. Hoje tomada pela explosão imobilária de condomínios verdes e pelo trânsito de sitiantes de fim de semana, sua travessia para finalmente pegar a estrada para Serra do Cipó é um certo incômodo. Não importa, o destino justificava qualquer incômodo.
Serra do Cipó. O clima, a beleza natural, as corredezas sobre pedras do rio logo na entrada da região, a imponente serra. Um espetáculo a parte. Uma pena que seria somente um bate e volta, aqui merece um bate e fica para aproveitar o movimento noturno (tinha até um boteco que teria um show de jazz). Bom, mas aí lembrei do trânsito em Lagoa Santa na saída no domingo, rsrsrs e achei melhor o bate e volta saindo no sábado num horário atípico ao rush.
Subimos um trecho da serra para tirar fotos nos mirantes. Não é só as fotos que se tira. É também de se tirar o fôlego! Não, não tivemos que empurrar as motos por pane seca (abastecemos na saída de Bhz), mas a vista é maravilhosa e o mar de morros se estende até aonde a vista alcança.
Já era mais de meio dia e achamos prudente almoçar para voltar em seguida, pois havia a festa junina do Thiago Aguiar a noite. Resolvemos pegar o frango com quiabo a R$10,00 na Taberna do Léo. Recomendo demais. Eu e Hermano João comemos, comemos, empurramos comida para dentro e ainda sobrou. E além de farto, delicioso. Nada a se comparar com a minguada refeição em Honório Bicalho de outras desaventuras.
Mas além do ótimo prato e excelente atendimento, o ponto alto seria a chegada de três pseudos em suas máquinas cromadas e personalizadas com peças originais de fábrica. Tinha um que ostentava jaqueta, capacete, calça, bota, camiseta, bandana e até cueca da marca. Sinceridade, está para nascer gente mais caricata! É capaz de nunca terem pegados um viagem longa, afinal a discussão deles era que a jaqueta esquentava demais. Cai alho! Se eu fosse contar que já torrei debaixo de sol quente para em seguida atravessar 100km debaixo de chuva era capaz de me dizerem que isso não é motociclismo. Rachei! Mas gosto é gosto.
Após o kilo e alguns comentários sobre uma possível visita a Blumenau na Oktober Fest, voltamos e a estrada novamente nos apresentou sua singela combinação de fundo azul escuro com linhas amarelas e brancas. Às vezes numa reta a se perder de vista, em outras logo se perdia o que havia adiante no contorno da curva, até que o belo horizonte surgisse a nossa frente.
Beleza, mas e o Juquinha? Esqueceram de visitá-lo, não? Pois é, não achamos o dito cujo, teremos que voltar a Serra do Cipó outro dia.


09/04/11 o que te faz motociclista

Basta comprar uma moto e pegar uma estrada, certo? Apesar de ter feito exatamente esta dobradinha fundamental, para mim ainda faltava alguma coisa.
E esta alguma coisa era a experiência visceral de uma viagem de moto em seus fundamentos: o destino é a estrada e não o lugar. Afinal não deve haver lugar para ir, deve haver apenas o trajeto. Qual trajeto afinal? Nenhum. Apenas pegue a moto e vá e foi o que eu fiz.
Quando estava saindo, mandei uma mensagem para um amigo de Petrópolis, avisando que passaria por lá. No primeiro abastecimento, já distante do ponto de partida, vi uma mensagem dele de que não estava em casa. Comecei a achar a coisa interessante.
O intento, mesmo com a pouca bagagem, era aproveitar a cidade do companheiro, sua presença e tornar as coisas mais fáceis. Opa! Isso não é visceral! Então o simples fato de ele não poder me receber, tornou a viagem única. E assim me fui. Era uma estrada que ainda não conhecia e desta vez nem verifiquei no mapa possíveis postos de combustível. Estava disposto a enfrentar o que o destino me apresentasse.
Começou a esfriar e o tempo ficara nublado. Adivinha se eu trouxe algo além da roupa que usava: a segunda pele (ok, não tão hardcore), o jeans, a jaqueta, o coturno comum e uma muda de cueca e meias? Isso mesmo, não trouxe. Apenas toalha e sabonete (rsrsrsrsrsrsrs, só faltou o petit gateau).
E nisso me dou conta que nenhum posto de combustível surgiu até agora. Mais de 215km desde a última parada, começo a ficar preocupado. Engraçado que nas outras viagens já estaria dando sinais de precisar da reserva. Vou verificar a torneira de combustível, estava na posição de reserva. Diacho! Tudo bem que estava disposto a tudo, mas rezei para não ter pane seca.
Finalmente o posto no início do RJ. O frentista me pergunta se também vou a Rio das Flores, já que havia um encontro de motos lá. Nem sei onde fica a cidade. Como se chega? Ah, volta até a divisa com MG, pega a saída, depois mais 50km na estrada vicinal. Parecia uma boa idéia e tinha tudo a ver com o objetivo do fim de semana.
Só que queria ver Petrópolis assim mesmo, voltaria em seguida para a tal Rio das Flores. O frio começou a incomodar na região serrana de RJ. Cheguei ao centro histórico de Petrópolis e achei um tanto bucólico. Pensei novamente sobre o encontro em Rio das Flores ou se desceria mais um pouco e em seguida emburacasse para SP.
Resolvi ir para o encontro, fiz meia dúzia de contas e fui sem reabastecer. Peguei a tal saída na divisa com MG. Já era fim de tarde. Agora ao frio, somou-se o lusco-fusco e uma garoa. Basta botar capa de chuva. Qual? Esqueceu que não trouxe? Sim, neste momento senti o espírito da coisa. Somente eu e dona stefânia, num lugar desconhecido e em condições adversas e novamente o risco de pane seca. Motociclismo de verdade.
Consegui chegar a Rio das Flores. No posto me aproximo de outros motociclistas. E o tal encontro, onde é? Tem pousada aqui perto? Olharam para mim e perguntaram atônitos:

– Mas você está sozinho?
– Uai, estou.
– Veio de onde?
– Estou rodando desde ontem, comecei em Mariana, fui a Bhz, sai para a Estrada Real, passei ali em Petrópolis e me deram a dica desse encontro aqui.
– Você é doido?
– Não, sou motociclista.

Nossa risada foi sensacional. Estava finalmente batizado.


08/04/11 cavalo de tróia

Fazia muito tempo que não rodava com dona stefânia a perambular estrada afora. Tinha decidido que este fim de semana seria somente eu, ela, a estrada e qualquer destino. Já estive em muitas estradas, mas em todas havia um porque, um motivo, um intento, um convite.
Dessa vez queria o essencial, uma viagem de moto visceral. Pouca bagagem (uma muda de cueca e meias) e pegando os desvios que surgissem, onde escuresse procuraria abrigo. Mas como temos obrigações da vida de semi-casado, na sexta a noite subi para Bhz. No sábado cedo sairia para onde desse na telha.
A noite estava agradável e fiquei pensando nesses camaradas que se enveredam sulamérica afora com toda uma parafernália de equipe de apoio. Será que realmente tem graça ter a certeza de que será salvo em qualquer aperto? Viagens de moto não fazem diferença se você não viajar por entre as profundezas de si mesmo. E lá não há equipe de apoio que te socorra, você estará sozinho.
Quase no trevo de Ouro Preto / Mariana um susto, um cavalo parado no meio da pista, ali no escuro (tem hora que as mil luminárias da picareta fazem falta) já que o farol da dona stefânia é pouco. Acho que desviei, porque senti o impacto. Que impacto se estava inteiro?
Parei no acostamento, aliás simplesmente parei. Não era o acostamento, não era nada, achei que tinha fechado os olhos. O sangue estava quente com a adrenalina. Onde é que eu estava, cadê a estrada?
De repente a paisagem retornou ou meus olhos acostumaram com a escuridão, mas não era mais o trevo. Não há palavras para descrever o que vi, vertiginoso, íngrime e ao mesmo tempo plano. Outro plano, nenhuma latitude.
Uma voz sem rosto ou forma me confronta:

– O homem está condenado, vide suas ações, não há expiação. Aqui é o seu destino.

Não me conti e comecei a rir. A voz me retruca:

– Quão impertinente e inoportuno, tens conhecimento do que estais a afrontar?

– Eu não. Mas motociclistas não tem destino! – eu disse.

Um clarão e a buzina de um caminhão me fazem voltar a si. Estava no acostamento do trevo novamente. E não estava sozinho. Com o clarão, vi a carcaça do cavalo derrubada no asfalto, inerte.
Não esperei porque, motivo, intento ou convite. Acelerei para Bhz, qualquer destino era melhor que ficar ali parado.