Prudens quid pluma niger secundum

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07/06/13 vamos beber a bezerra

Descendo a Bandeirantes a partir de Campinas sentido São Paulo, começo a pensar que tinha sido meio que besteira alterar a injeção da moto. Srta. Hellen Dawson ficou tão solta que de repente já estava acima do limite de velocidade sem esforço algum e isso estava começando a ficar divertido, mas ao mesmo tempo perigoso. Até porque ainda estava me acostumando com o novo regime de giro e potência.
Tem muita gente que vai então dizer, olha o Fantini, sempre tirando onda de motoqueiro doidão e agora se comportando como um frango d’angola pena branca. Isso porque já faz algum tempo que decidi respeitar os três limites:

A estrada – há estradas em que se pode andar no limite, pista livre e há estradas com mais curvas ou trânsito pesado ou asfalto ruim, em que se deve andar na boa.
A máquina – há motos em que se pode fazer curvas com precisão cirúrgica sem muito esforço ou que param com segurança e há motos em que é preciso um pouco mais de treino e domínio da sua dinâmica.
Você mesmo – tem dias em que está com todos os reflexos a flor da pele e tem dias em que o cansaço impede fazer movimentos simples como parar a moto no descanso com segurança.

Acreditem em mim, respeitar esses três limites, estar atento com o que ocorre na estrada, na máquina e em você, garante muito mais sua segurança que qualquer parafernália high tech de última geração. Lógico, use jaqueta, calça, coturno e capacetes bons e confortáveis. Mas o que quero afirmar é que não é preciso gastar uma pequena fortuna para ter segurança ao andar de moto.
E o trânsito de São Paulo numa sexta feira início da noite me faz esquecer as divagações e voltar a atenção aos carros a minha volta e as placas para encontrar o caminho. Aí você já imaginou a situação, moto custom, motor grande fritando sob suas pernas, quase uma vasectomia sem cirurgia e eu também fiquei imaginando.
Se você estava pensando que o melhor de acertar a injeção da moto era ter o motor entregando sua potência real, sinto em lhe informar que o motor trabalhando em temperatura adequada porque a mistura agora está correta é o melhor resultado que se pode esperar. Podia até continuar com a moto presa que nem ligava. Enfrentar o engarrafamento, sem ter tanta possibilidade de aproveitar os corredores porque a maioria só passava moto pequena, sem perder sua capacidade de ser pai um dia, é algo que nos deixa mais tranquilos.
Chego na casa do Hellton e ele empolgado me mostra a nova carteira categoria AB.
– Olha, agora eu tenho duas carteiras! Agora eu tenho duas carteiras e… o que está fazendo.

você tinha duas carteiras

você tinha duas carteiras

– Você tinha duas carteiras, hora de beber a velha com a bênção daquele que tem a pena preta, para se livrar de qualquer mal.

bebendo a carteira

bebendo a carteira

Ainda bem que ainda tinha heineken, já que o mequetrefe do Musquito que chegou em seguida repôs o estoque com skol. Cai alho, Musquito, cai alho! Além de morar em São Caetano que é longe, agora tem mais um motivo para não te visitar.  E assim fechamos a noite comemorando e bebendo a velha carteira do Hellton.
No sábado de manhã fomos dar umas voltas em lojas de motos usadas, o Hellton já tinha adiantado algumas opções e pediu minha opinião. Vimos algumas 125 para começar a brincar e pegar o jeito para coisa, na minha opinião, não é vergonha alguma, é que começando pequeno se pode avançar com calma e se adaptar a motos maiores passo a passo.
Em seguida pergunto se estávamos perto da Johnny Bordados.
– Uai, estamos. Porque?
– Vamos lá, quero ver se tem um esquema que estou precisando.

Johnny Bordados. Recomendo.

Johnny Bordados. Recomendo.

Chegamos e fomos muito mais que bem atendidos pela prestativa Anne, que apesar de só me conhecer por email reconheceu o brasão. Agradeci o respeito e pedi para ver se tinha o esquema que está procurando.
– Estou querendo fazer uma tarjeta, mais ou menos uns 20cm escrito aspirante.
– Sim podemos fazer, se puder esperar uns 30 minutos te entrego ainda agora.
– Perfeito, esperamos um pouco.
Nisso o gordinho do meu lado está pasmo.
– Para de tremer e me dá um abraço aqui, bem vindo ao DACS.

quase chorou

quase chorou

A noite já estávamos novamente comemorando e bebendo a velha carteira, afinal de que adianta ter moto se não tem irmãos e amigos em cada destino para fazer simplesmente isso, comemorar a amizade? Não, café da manhã não conta.
Ainda passei um agradável domingo na companhia do casal Tavares, tirando um pequeno contratempo com um restaurante que não servia carne. Finalmente o Hellton tem a oportunidade de comentar sua opinião sobre a morte da bezerra:
– Você não está percebendo o quanto este é um evento fatídico, a bezerra é o sustento daquela pobre família, produz leite, se pode fazer esterco com seu extrume, aí a bezerra vai e morre, a família fica desamparada. Isso não te preocupa?
– Sim, me preocupa demais, vamos beber a bezerra!
Em seguida já estava novamente descansando para partir para novo destino na segunda cedo. Não antes de um último vil dedo de prosa com Sabath, o gato.
– Cai alho! Qual a explicação lógica de você estar apalpando com as duas patas a minha barriga?

não sei se vou gostar da resposta

não sei se vou gostar da resposta

– Ora, Sr. Fantini, apenas verificando pontos fracos para causar um hemorragia interna, caso o senhor estenda por mais dias a sua estada em meus domínios.

cai alho!

cai alho!

Ainda bem que tinha outro destino no dia seguinte.

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06/06/13 bezerras me mordam!

A selva de pedra que é São Paulo a cada visita se torna ainda mais indefectível. Sempre se pode esperar que haverá trânsito, mesmo que seja numa quinta feira às 05:30 da matina. OK, trânsito ainda incipiente comparado com o que ocorre nos horários, digamos, mais comerciais (afinal já peguei trânsito aqui em pleno domingo a tarde), mas ainda assim surpreende nós, meros mortais, que vivemos em cidades mais provincianas.
Mas, Fantini, temos uma cidade 24hs, encontramos qualquer produto a qualquer hora. Isso, tenho que concordar, afinal como a cidade está sempre paralisada, realmente é preciso que o supermercado e a padaria estejam abertos em horários não ortodoxos, quando se consegue finalmente chegar em casa.
Só que meu destino naquele momento era outro. Desde a fatídica sexta feira santa, em que Srta. Hellen Dawson resolvera dar uma pane na bateria (somente porque o distinto aqui ficou com o farol ligado um bocado de tempo enquanto apanhava para montar o bagageiro) estava nos devendo uma visita a Garage Henn.

Garage Henn

Garage Henn

Nem era pela ladainha do Maia de que a moto ia andar mais, que dava para ganhar potência, que devia trocar até a rebimboca da parafuseta, que assim andaria mais que moto japonesa (opa, aposto que vai aparecer algum “entendido” para discutir, rsrs), mas queria somente e basicamente acertar a porcaria da mistura pobre de fábrica que a HD original tem para atender os limites de emissões e etc.
Nisso realmente invejo os amigos de carburadas, bastava regular eu mesmo o maldito carburador, mas com essa maldita injeção, era preciso remapear e por mais simples que isso parece depois que se ver fazer, o melhor é sempre levar em quem conhece e assim rumamos para Campinas SP pela Bandeirantes.
Sim, você que está rindo aí já imaginando: “nossa, será que o Fantini que tanto comenta do frio na estrada neste mês de junho, vai comentar da serração da Bandeirantes?”. Pode continuar rindo, porque não vou comentar. Frio do capeta!
Cheguei um pouco antes da hora da oficina abrir, o que permitiu tomar um café e comer um misto quente enquanto o Paulinho não aparecia.

– Você que é o Fantini?
– Sim.
– Você não é doido igual o Maia, é?
– Não, pode ficar tranquilo.

Revisão dos 32.000km

Revisão dos 32.000km

Depois de discutir as peripécias do Maia e decidir que não iria trocar a rebimboca da parafuseta, deixamos a moto para fazer a revisão dos 32.000km e no dia seguinte faríamos o remapeamento.

– Nossa, Fantini, para que gastar dinheiro com essa moto velha, 32.000km, nossa, que pena hein, que ano é? Não, não me diga, 500km por ano, bem, tem uns 60 anos, é? Você adaptou a injeção?

Deixei o “entendido” conversando sozinho e aceitei o convite do Paulinho para conhecer a cidade. Na verdade ele precisava verificar se achava um portão melhor para a câmara do dinamômetro e lá fomos parar num ferro velho tosco como sempre tem que ser. O Paulinho achou o portão que queria, mas estava sem dinheiro na hora.

– Uai, camarada, não seja por isso, eu te dou o portão e estamos quites no serviço da moto lá.

E assim, mais uma vez o motoqueirismo mostra sua verdadeira face, da camaradagem e da ajuda mútua. Ainda o acompanhei na compra de outras traquinagens tipo “do-it-yourself” que iria instalar lá na tal câmara do dinamômetro. E nisso temos que dar o braço a torcer para o camarada, humildade e simplicidade em pessoa.
A revisão terminou no final do dia e o remapeamento somente no dia seguinte. Resolvemos comemorar o portão novo num pub famoso de Campinas que fiz o favor de esquecer o nome. Mas, não tem erro, basta ir no que estiver mais cheio, é esse. E mais uma vez fico surpreso com a circularidade da vida.

– Fantini, você toma joaquim daniel?
– Uai, claro, não dispenso jamais.
– Então pega aí. O Maia que trouxe de presente.

gentileza gera gentileza

gentileza gera gentileza

Cai alho! O cara gastou tanto aqui que precisa esticar as prestações e rolar a dívida, e aí tem que mimar o credor. Olho com mais cuidado para garrafa, um legítimo Joaquim Gente Fina e, peraí, cai alho! Conheço esse Joaquim, havia dado para o Maia para pagar o que bebemos todo em Prado BA e olha só. Rsrsrs! Sim, gentileza gera gentileza, melhor ainda quando se trata do Joaquim Gente Fina. Nem precisa dizer o tanto que a noite foi boa.

preparativos

preparativos

No dia seguinte Srta. Hellen Dawson já estava sendo devidamente estuprada até o limite enquanto o breguete lá de remapeamento, o tal TTS Mastertune para quem queira saber, ia fazendo as leituras e equalizando os dois cilindros e corrigindo a mistura.

taca fogo na namaguideraz!

taca fogo na namaguideraz!

Três séries de ajustes depois, finalmente o motor pode respirar aliviado e entregar sua potência original e não aquela merrequinha estrangulada de fábrica. Mas sinceridade, tenha em mente que os freios das custom em geral e da HD inclusive não são aquela maravilha e seja consciente.

já dá para alcançar as japonesas

já dá para alcançar as japonesas

– Consciente? Você fala sobre os três limites e.. Fantini, Fantini, peraí!!!

Depois de uma voltinha de teste, despeço do Paulinho e equipe da Garage Henn, realmente mais que recomendado, não só pelo serviço impecável, mas pela pessoa que o camarada é. E isso faz toda a diferença. Fora que me custou apenas um portão usado. Fino!

Ligo para o Hellton:

O Fantini me ligou

O Fantini me ligou

– Frangolino, separa o colchão aí que estou chegando.
– Sério?! Bezerras me mordam!!!


05/06/13 enquanto a bezerra continua morta

São 05:30 da manhã e a esposa acorda de sobressalto com o grito do marido:
– Ele vem! Ele vem!
– Meu deus, calma, quem vem?
– O Fantini, o Fantini vem para São Paulo!
– Mas como você sabe? Ele não estava em Goiânia?
– Programei meu celular para acompanhar as publicações dele no facebook. Já vou até mandar uma mensagem no whatsapp para saber quando ele chega.
– Meu bem, vamos voltar a dormir? Vamos.

A parte divertida de uma longa viagem de moto, mesmo com paradas estratégicas para visitar os amigos e descançar o corpo, é que o clima sempre te surpreende. Eu acreditava que não seria possível passar mais frio quanto o que passei a praticamente uma semana atrás, subindo na quinta de Vitória ES para Três Ranchos GO. Estava enganado.
Enquanto avançava a BR153 com destino à divisa de Goiás com Minas Gerais, para seguir para Uberlândia MG e de lá pegar a BR050 em direção a São Paulo, a espessa neblina da madrugada cortava a jaqueta, a segunda pele, minha pele e calcinava meus ossos. Vejo a saída para Caldas Novas GO e praguejo por estar indo em outra direção.
Aí lembro que não havia abastecido na noite anterior e olho o hodômetro. Tinha ainda garantido 50km de autonomia e assim fui neblina adentro. 40, 45, 49km, nada de posto, quer dizer, passei uns três que estavam no sentido contrário da rodovia. Cai alho, Fantini! E porque não atravessou a pista? Bom, pista dupla com retas infinitas tem suas vantagens. A desvantagem é a mureta central ou uma vala de todo tamanho. Fora a teimosia de não pegar o retorno porque tinha retorno para o posto, mas não tinha retorno para voltar. Fora que estava frio igual na terra do capeta e queria evitar qualquer manobra brusca.
Aos 51km o posto apareceu, minha salvação. Quer dizer, salvaria a autonomia. Com essa temperatura, parar é até pior, porque o corpo esquenta novamente e quando se volta para a estrada, o choque térmico é ainda mais forte. Tudo bem, podem rir do fato de ter deixado o forro da jaqueta para trás lá em Vitória ES. Mais algumas sequências de nada com coisa alguma na paisagem em volta, a solidão tomando conta de seu ser e a divisa de estados surge junto com a ponta do sol para mostrar que sim, você está vivo e não atravessando alguma ponte através do Rio Aqueronte.

Divisa Goiás - Minas Gerais em direção ao trevão

Divisa Goiás – Minas Gerais em direção ao trevão

Logo em seguida há um trevão onde se pode seguir direto para entrar em São Paulo pela estrada que chega a Barretos SP (ninguém recomenda) ou pegar um trecho da BR365 até Uberlândia MG e lá pegar a BR050 (que vira Anhanguera em SP) passando por Ribeirão Preto SP, caminho mais recomendado e por onde fui. E continuou o frio, Fantini? Alguém deve ter perguntado. Sim, continuou lá em Goiás, porque agora começava a esquentar de tal maneira que era impossível acreditar que a poucas horas atrás poderia encontrar um pinguim passeando no acostamento que não acharia estranho.

o sol voltou

o sol voltou

Já passam de 11:00 da manhã. O sujeito está inquieto, reunião tensa na empresa, saca o celular.
– Co jest kurwa? Jesteśmy w spotkaniu! Chcesz stracić piłki!? (1) – esbraveja o chefe polonês.
– Calma chefe, preciso saber do Fantini. Como assim?!? Nenhuma resposta dele, vou mandar outra mensagem.

Entre Campinas SP e Valinhos SP, durante uma parada de abastecimento, resolvo conferir a hora para acompanhar o avanço da viagem e comentar no facebook que estava correndo tudo bem. Vejo umas três mensagens no face e outras cinco no whatsapp. Da mesma pessoa:
“Assim que puder, me liga”
“Chegando em São Paulo, me avisa”
“Já providenciei cerveja”
Bom essa última interessou e respondi um educado: “pensarei no seu caso”, até porque tinha compromissos da pena preta. Mas como havia aberto o celular, resolvo conferir o mapa também, esses trem high tech de hoje facilitam a vida, e vejo que com um pequeno desvio de 150km poderia dar um abraço no velho rabugento lá de São José dos Campos SP e assim peguei a Rodovia Dom Pedro I e segui para lá.
Cheguei ainda no final da tarde, a casa estava com cara de vazia. A moto na garagem, mas o carro não. Isso é sério? O velho é só gogó mesmo! Vejam, compra essa moto enorme só para tirar foto dela enquanto lava na garagem. E depois sai para passear de carro! Trinquei! Pego o celular para ligar para ele e já sacanear até a 3a geração, quando lembro que lá em Três Ranchos GO, uma falha sem explicação apagara a memória de contatos. Trem high tech mão na roda, o cai alho! Ainda tentei conseguir o número de telefone por outras vias, mas acabo descobrindo que ele estava em Jundiaí SP, próximo de onde eu havia pegado o desvio. Paciência.
Pego a Dutra de volta para São Paulo SP e de repente o calor desaparece e encontramos de volta a sensação de estar indo em direção ao Tártaro. E assim novamente a viagem de moto lhe apresenta a sua maior lição: não importa quem você seja, o clima não se interessa por sua insignificância e vai se apresentar do jeito que melhor o convier, indiferente a sua vontade. Se acostume com isso ou venda a moto e compre um sofá e uma televisão full HD.

em direção ao tártaro

em direção ao tártaro

Após ficar perdido pela enésima vez para pegar a saída para Av. Paulista, acho o endereço de onde tinha meu compromisso e o trecho de hoje estava finalizado depois de uns 1.100km e por volta das 19:30. Ligo para o Hellton.

– Fala, que bom que ligou, já estava preocupado. Já está aqui na porta de casa?
– Não.
– Uai, mas está a caminho?
– Não.
– Está perdido de novo?
– Errei o caminho, mas já achei o endereço aqui.
– Endereço? Não vai vir para cá?
– Não.
– Como assim? COMO NÃO?!?
– Sossega, a bezerra continua morta.

(1) Que porra é essa ? Estamos em reunião ! Quer perder as bolas ?!?