Prudens quid pluma niger secundum

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14/06/13 hellen in the sky with diamonds

Desci a Serra de Ouro Branco com a alma renovada e certo de que Hellen Dawson não se acanharia jamais para qualquer estrada que surgisse em nosso caminho. E assim fomos em direção a Diamantina MG através da BR040. Esse era um destino planejado a mais tempo e adiado por várias vezes porque o objetivo era alcançá-lo na companhia do companheiro Ajota, desde a vez que descemos de Brasília DF a Belo Horizonte MG lá em idos de 2009. Infelizmente não pude deixar passar essa oportunidade de tempo.
Para maioria que não entende ou simplesmente não faz a mínima ideia do que possa ser um ritual de passagem, não vai conseguir compreender porque se antes de subir a serra ainda titubeava com o novo fôlego de Hellen Dawson após as regulagens feitas com o pessoal da Garage Henn, agora tinha total confiança e conseguia sentir as reações da moto com muito mais precisão. Acredito que todos devem encontrar seu próprio rito e atravessar essa linha invisível.

Hora de ligar a vitrola!

E assim, divagando sobre essas estranhezas de si mesmo, vamos alcançando a saída para Curvelo MG e apontando a direção final para nosso destino. Naturalmente aproveitando alguns trechos de reta sem fim e sem trânsito para sentir que uma moto custom realmente não foi feita para andar em alta velocidade. Mas também fiquei bem próximo da sensação de estar num velho Supermarine Spitfire dividindo o céu de guerra com um Messerschmitt BF109.

altos planos

altos planos

Pegamos então um trecho da BR135 para em seguida avançar sobre a BR259 e finalmente fechar com a BR367. Enquanto isso ia raciocinando o quanto era engraçado não lembrar de nenhuma paisagem daquela de outros carnavais, fruto de viajar de carro ou ônibus. E isso é o interessante da viagem de moto, mesmo com todos os, digamos, revezes, passar numa estrada e guardar toda ela em sua memória, seus cheiros, cores, poeira e insetos que vão grudando na viseira, compensam o, digamos, desconforto.

então diamantina

então diamantina

Então Diamantina MG. Rodei um pouco pela cidade, ao menos onde o calçamento e ladeiras permitiram levar Hellen Dawson com segurança até parar para arrumar um local para dormir. “Ah! Fantini, porque não marcou antes aquele hotel com hidromassagem?” Porque aí não teria a oportunidade de conseguir um Hostel incrivelmente barato, confortável e com uma vista fantástica.

vista a perder de vista

vista a perder de vista

Diferente da época do carnaval do inferno, a cidade estava tranquila e sua paisagem bucólica de cidade histórica brigava praticamente de igual para igual com Ouro Preto MG, a não ser pelo fato de que os botecos daqui não tinham a mesma quantidade de estudantes ripongas que se encontra lá. Exceto se eu tenha parado nos botecos errados.

não adianta ter igreja, no carnaval o povo quer abraçar o capeta!

não adianta ter igreja, no carnaval o povo quer abraçar o capeta!

No sábado resolvi conhecer o tal Parque Estadual do Rio Preto que fica na cidade próxima de São Gonçalo do Rio Preto MG. O folheto já deixava claro: 15km de estrada de terra. Meus olhos até brilharam e Hellen Dawson já estava empoeirada mesmo.

sujeira leve

sujeira leve

a caminho do parque

a caminho do parque

quase na portaria

quase na portaria

Depois de 15km de paisagem de pequenas chácaras e pontes estreitas, chegaríamos na entrada do parque. O vigia da portaria me deu as boas vindas e me explicou rapidamente sobre o parque. Teria que seguir mais 5km onde encontraria a sede e o guia para comentar sobre mais detalhes. Eu havia achado o vigia meio desconfortável comigo e fiquei encucado com aquilo. Será que o cara não foi com minha cara e…
De repente me vi numa descida íngrime e vertiginosa que terminava numa curva fechada. Em seguida um bocado de camelos e aí areia fofa, mais camelos. Não satisfeito, sobe um barranco, agora sobe outro em curva, sobe mais, desce, atravessa uma ponte velha, mais uma. Vou ser sincero, não foi fácil e agora entendia o olhar carrancudo do vigia, não estava acreditando que eu ia mesmo passar nessa estradinha equilibrando 350kg entre duas rodas. Mas compensou, o parque é muito bonito. Pena que como cheguei tarde, perdi os passeios a pé guiados pelas trilhas e tive que me contentar com um almoço quilombola. Uma carne de lata típica de interior de Minas. Fino!

valeu a pena

valeu a pena

Como não inventaram teleporte ainda, aproveitei a energia do almoço para cortar de volta aquela estradinha através do parque. Perigosa, uma pena, tive que concentrar muito mais na pista do que apreciar a paisagem. Paciência. Aproveitei ainda mais um pouco da vida noturna bucólica e no domingo cedo apontei para Vitória ES.
A parte ruim depois que se roda relativamente muito pelas mesmas estradas é que vai se perdendo aquele gosto amargo da falta de direção e as angustiantes dúvidas sobre qual saída pegar neste ou naquele entroncamento. E naturalmente encher os olhos com paragens exóticas ainda desconhecidas. E assim estávamos na BR259, atravessando a região do Serro MG. Agora entendi porque senti tanto frio nos outros trechos que passei nos últimos quinze dias.
Não havia uma nova paisagem para se embasbacar e assim o frio chamava toda a atenção. Não era o caso agora. Mesmo os malditos desvios por dentro de cidadezinhas minúsculas com ruas de calçamento de fazer bater o fim de curso da suspensão, ou quase seguir numa rodovia errada por ter se confundido no meio das ruelas sem placa de outra cidadela, se perder em curvas jamais vistas até então, tudo isso prendia toda a atenção e nem liguei para o tanto que devo ter congelado atravessando serração e neblina.
E eventualmente tivemos uma tarefa indelegável que se tornou inadiável pouco após passar por Guanhães MG. Tem gente que leva uma bagulhada de tralhas em viagens: capa de chuva, luva para verão, luva para inverno, kit de ferramentas (que as vezes não sabe usar), vacina de pneu, bússola, rádio comunicador, pneu reserva. Mas esquece do essencial papel higiênico! Não que eu tenha que ter parado no acostamento, surgiu um posto providencial, mas quem disse que tinha papel no maldito banheiro? Cai alho! Então a única coisa que realmente não pode faltar no seu alforje é um rolo do velho e bom papel higiênico.
Daí por diante, a viagem ficou mais leve, o dia já avançava e após Governador Valadares tivemos a grata companhia do Rio Doce logo ali na beira da estrada. Pouco antes de atravessar a divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo, uma última parada em Resplendor MG. Pouco mais de 200km e chegaríamos em Vitória ES pela BR101.

divisa Minas - Espírito Santo

divisa Minas – Espírito Santo

Tivemos então desde o início em 30/05 até o final em 16/06: 4 estados, 18 dias, 25 rodovias, 60 horas de viagem, 42 cidades, 4.876km, todos os amigos, irmãos e família que visitei. Não precisou mais nada. Se bem que mais uns dias de folga dava para esticar um pouco mais. Deixemos para uma próxima oportunidade, enquanto houver amigos, moto e estradas que ainda não conhecemos, vamos tocando.

Vitória ES, Ibatiba ES, Abre Campo MG, Caeté MG, Belo Horizonte MG, Bom Despacho MG, Araxá MG, Santa Luciana MG, Uberlândia MG, Araguari MG, Catalão GO, Três Ranchos GO, Ipameri GO, Caldas Novas GO, Goiânia GO, Itumbiara GO, Uberlândia MG, Uberaba MG, Ribeirão Preto SP, Campinas SP, São José dos Campos SP, São Paulo SP, Campinas SP, São Paulo SP, Extrema MG, Pouso Alegre MG, Três Corações MG, Belo Horizonte MG, Itaúna MG, Itabirito MG, Ouro Preto MG, Ouro Branco MG, Sete Lagoas MG, Curvelo MG, Gouveia MG, Diamantina MG, São Gonçalo do Rio Preto MG, Diamantina MG, Presidente Kubitschek MG, Serro MG, Guanhães MG, Governador Valadares MG, Resplendor MG, Aimorés MG, Baixo Guandu ES, Colatina ES, João Neiva ES, Vitóra ES.

BR101, BR262, BR381, BR262, BR452, BR050, GO330, GO213, BR153, BR365, BR050, Rodovia Anhanguera, Rodovia Dom Pedro I, Rodovia Presidente Dutra, Rodovia dos Bandeirantes, Rodovia Fernão Dias, BR381, MG431, BR356, MG129, MG443, BR040, BR135, BR259, BR367, MG214, BR367, BR259, Rodovia Pedro Nolasco, BR101.

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07/06/13 vamos beber a bezerra

Descendo a Bandeirantes a partir de Campinas sentido São Paulo, começo a pensar que tinha sido meio que besteira alterar a injeção da moto. Srta. Hellen Dawson ficou tão solta que de repente já estava acima do limite de velocidade sem esforço algum e isso estava começando a ficar divertido, mas ao mesmo tempo perigoso. Até porque ainda estava me acostumando com o novo regime de giro e potência.
Tem muita gente que vai então dizer, olha o Fantini, sempre tirando onda de motoqueiro doidão e agora se comportando como um frango d’angola pena branca. Isso porque já faz algum tempo que decidi respeitar os três limites:

A estrada – há estradas em que se pode andar no limite, pista livre e há estradas com mais curvas ou trânsito pesado ou asfalto ruim, em que se deve andar na boa.
A máquina – há motos em que se pode fazer curvas com precisão cirúrgica sem muito esforço ou que param com segurança e há motos em que é preciso um pouco mais de treino e domínio da sua dinâmica.
Você mesmo – tem dias em que está com todos os reflexos a flor da pele e tem dias em que o cansaço impede fazer movimentos simples como parar a moto no descanso com segurança.

Acreditem em mim, respeitar esses três limites, estar atento com o que ocorre na estrada, na máquina e em você, garante muito mais sua segurança que qualquer parafernália high tech de última geração. Lógico, use jaqueta, calça, coturno e capacetes bons e confortáveis. Mas o que quero afirmar é que não é preciso gastar uma pequena fortuna para ter segurança ao andar de moto.
E o trânsito de São Paulo numa sexta feira início da noite me faz esquecer as divagações e voltar a atenção aos carros a minha volta e as placas para encontrar o caminho. Aí você já imaginou a situação, moto custom, motor grande fritando sob suas pernas, quase uma vasectomia sem cirurgia e eu também fiquei imaginando.
Se você estava pensando que o melhor de acertar a injeção da moto era ter o motor entregando sua potência real, sinto em lhe informar que o motor trabalhando em temperatura adequada porque a mistura agora está correta é o melhor resultado que se pode esperar. Podia até continuar com a moto presa que nem ligava. Enfrentar o engarrafamento, sem ter tanta possibilidade de aproveitar os corredores porque a maioria só passava moto pequena, sem perder sua capacidade de ser pai um dia, é algo que nos deixa mais tranquilos.
Chego na casa do Hellton e ele empolgado me mostra a nova carteira categoria AB.
– Olha, agora eu tenho duas carteiras! Agora eu tenho duas carteiras e… o que está fazendo.

você tinha duas carteiras

você tinha duas carteiras

– Você tinha duas carteiras, hora de beber a velha com a bênção daquele que tem a pena preta, para se livrar de qualquer mal.

bebendo a carteira

bebendo a carteira

Ainda bem que ainda tinha heineken, já que o mequetrefe do Musquito que chegou em seguida repôs o estoque com skol. Cai alho, Musquito, cai alho! Além de morar em São Caetano que é longe, agora tem mais um motivo para não te visitar.  E assim fechamos a noite comemorando e bebendo a velha carteira do Hellton.
No sábado de manhã fomos dar umas voltas em lojas de motos usadas, o Hellton já tinha adiantado algumas opções e pediu minha opinião. Vimos algumas 125 para começar a brincar e pegar o jeito para coisa, na minha opinião, não é vergonha alguma, é que começando pequeno se pode avançar com calma e se adaptar a motos maiores passo a passo.
Em seguida pergunto se estávamos perto da Johnny Bordados.
– Uai, estamos. Porque?
– Vamos lá, quero ver se tem um esquema que estou precisando.

Johnny Bordados. Recomendo.

Johnny Bordados. Recomendo.

Chegamos e fomos muito mais que bem atendidos pela prestativa Anne, que apesar de só me conhecer por email reconheceu o brasão. Agradeci o respeito e pedi para ver se tinha o esquema que está procurando.
– Estou querendo fazer uma tarjeta, mais ou menos uns 20cm escrito aspirante.
– Sim podemos fazer, se puder esperar uns 30 minutos te entrego ainda agora.
– Perfeito, esperamos um pouco.
Nisso o gordinho do meu lado está pasmo.
– Para de tremer e me dá um abraço aqui, bem vindo ao DACS.

quase chorou

quase chorou

A noite já estávamos novamente comemorando e bebendo a velha carteira, afinal de que adianta ter moto se não tem irmãos e amigos em cada destino para fazer simplesmente isso, comemorar a amizade? Não, café da manhã não conta.
Ainda passei um agradável domingo na companhia do casal Tavares, tirando um pequeno contratempo com um restaurante que não servia carne. Finalmente o Hellton tem a oportunidade de comentar sua opinião sobre a morte da bezerra:
– Você não está percebendo o quanto este é um evento fatídico, a bezerra é o sustento daquela pobre família, produz leite, se pode fazer esterco com seu extrume, aí a bezerra vai e morre, a família fica desamparada. Isso não te preocupa?
– Sim, me preocupa demais, vamos beber a bezerra!
Em seguida já estava novamente descansando para partir para novo destino na segunda cedo. Não antes de um último vil dedo de prosa com Sabath, o gato.
– Cai alho! Qual a explicação lógica de você estar apalpando com as duas patas a minha barriga?

não sei se vou gostar da resposta

não sei se vou gostar da resposta

– Ora, Sr. Fantini, apenas verificando pontos fracos para causar um hemorragia interna, caso o senhor estenda por mais dias a sua estada em meus domínios.

cai alho!

cai alho!

Ainda bem que tinha outro destino no dia seguinte.


09/04/11 o que te faz motociclista

Basta comprar uma moto e pegar uma estrada, certo? Apesar de ter feito exatamente esta dobradinha fundamental, para mim ainda faltava alguma coisa.
E esta alguma coisa era a experiência visceral de uma viagem de moto em seus fundamentos: o destino é a estrada e não o lugar. Afinal não deve haver lugar para ir, deve haver apenas o trajeto. Qual trajeto afinal? Nenhum. Apenas pegue a moto e vá e foi o que eu fiz.
Quando estava saindo, mandei uma mensagem para um amigo de Petrópolis, avisando que passaria por lá. No primeiro abastecimento, já distante do ponto de partida, vi uma mensagem dele de que não estava em casa. Comecei a achar a coisa interessante.
O intento, mesmo com a pouca bagagem, era aproveitar a cidade do companheiro, sua presença e tornar as coisas mais fáceis. Opa! Isso não é visceral! Então o simples fato de ele não poder me receber, tornou a viagem única. E assim me fui. Era uma estrada que ainda não conhecia e desta vez nem verifiquei no mapa possíveis postos de combustível. Estava disposto a enfrentar o que o destino me apresentasse.
Começou a esfriar e o tempo ficara nublado. Adivinha se eu trouxe algo além da roupa que usava: a segunda pele (ok, não tão hardcore), o jeans, a jaqueta, o coturno comum e uma muda de cueca e meias? Isso mesmo, não trouxe. Apenas toalha e sabonete (rsrsrsrsrsrsrs, só faltou o petit gateau).
E nisso me dou conta que nenhum posto de combustível surgiu até agora. Mais de 215km desde a última parada, começo a ficar preocupado. Engraçado que nas outras viagens já estaria dando sinais de precisar da reserva. Vou verificar a torneira de combustível, estava na posição de reserva. Diacho! Tudo bem que estava disposto a tudo, mas rezei para não ter pane seca.
Finalmente o posto no início do RJ. O frentista me pergunta se também vou a Rio das Flores, já que havia um encontro de motos lá. Nem sei onde fica a cidade. Como se chega? Ah, volta até a divisa com MG, pega a saída, depois mais 50km na estrada vicinal. Parecia uma boa idéia e tinha tudo a ver com o objetivo do fim de semana.
Só que queria ver Petrópolis assim mesmo, voltaria em seguida para a tal Rio das Flores. O frio começou a incomodar na região serrana de RJ. Cheguei ao centro histórico de Petrópolis e achei um tanto bucólico. Pensei novamente sobre o encontro em Rio das Flores ou se desceria mais um pouco e em seguida emburacasse para SP.
Resolvi ir para o encontro, fiz meia dúzia de contas e fui sem reabastecer. Peguei a tal saída na divisa com MG. Já era fim de tarde. Agora ao frio, somou-se o lusco-fusco e uma garoa. Basta botar capa de chuva. Qual? Esqueceu que não trouxe? Sim, neste momento senti o espírito da coisa. Somente eu e dona stefânia, num lugar desconhecido e em condições adversas e novamente o risco de pane seca. Motociclismo de verdade.
Consegui chegar a Rio das Flores. No posto me aproximo de outros motociclistas. E o tal encontro, onde é? Tem pousada aqui perto? Olharam para mim e perguntaram atônitos:

– Mas você está sozinho?
– Uai, estou.
– Veio de onde?
– Estou rodando desde ontem, comecei em Mariana, fui a Bhz, sai para a Estrada Real, passei ali em Petrópolis e me deram a dica desse encontro aqui.
– Você é doido?
– Não, sou motociclista.

Nossa risada foi sensacional. Estava finalmente batizado.


13/03/11 muito além da alvorada

Há um certo estranhamento toda vez que pegamos a estrada. Afinal porque viajamos? Qual a nossa necessidade? O que realmente nos impulsiona? Nada mais injusto que questionar a um motociclista porque enfrentamos tanto “desconforto”? O próprio conceito de conforto é variável. Conforto transcende simplesmente uma cabine refrigerada, música em sistemas de dvd multimídia e toda a parafernália de segurança passiva e ativa de um automóvel se quisermos comparar friamente os dois meios de transporte mais individuais. Cabe o parênteses que viagens em ônibus coletivo podem ser muito interessantes quando se está em um grupo animado. Mas voltando a palavra conforto, muitos de nós motociclistas afirmarão categoricamente que o cheiro do asfalto, da poeira, do mato em volta, o calor, o frio, a chuva, mosquitos, besouros e toda a sorte de estímulos que recebemos diretamente no peito (e na fuça para os adeptos do capacete aberto) é incrivelmente confortável. Mas ao diabo, como? Pegunta o incauto leitor. Bem, isso tem haver com a experiência, o ser humano é um ser que precisa experimentar para desenvolver, para sentir-se vivo. Nosso cérebro se alimenta de estímulos e sensações. Quanto mais, mais o cérebro se desenvolve e isso quem diz são os textos científicos, não este humilde cronista. Portanto a experiência é o conforto. Assim nada mais confortável que tomar um banho de lama daquele maldito caminhão a frente porque ainda não houve janela para ultrapassá-lo. Nada mais confortável que sentir a neblina gelada até os seus ossos enquanto tenta dissernir o trajeto no meio do branco insólito. Nada mais confortável que dividir os infortúnios, desaventuras e sim as bonanças de cada viajem realizada com os amigos. No final, usando a propaganda de certo sabão em pó, a vida é para ser vivida e as estradas para serem enfrentadas. Para toda a sujeira e até estrume de vaca que vier a te atingir, basta um bom banho. Este fim de semana, após longo hiato, fiz uma curta viagem de Mariana a Bhz na sexta a noite e depois retornei no domingo pela manhã. A mesma estrada, a mesma distância, porém o simples fato de ir num sentido e depois ao contrário e o próprio horário (a ida a noite e o retorno logo pela manhã) trouxeram conforto extraordinário e experiências complexas. Não teria vivido tão intensamente a viagem se estivesse em outro meio de transporte mais “confortável”. Lembro até de dormir no banco de carro ao estar de passageiro e perder a paisagem. Mas de moto sempre podemos ver o pôr do sol ou a alvorada e muito além. Mas porque realmente pegamos a estrada? Nenhum motociclista será capaz de explicar com palavras (eu bem que me esforcei aqui), porém venha conosco e veja com seus próprios olhos.


05/02/11 enquanto isso

Enquanto isso, tendo uma estrada, uma moto, amigos para visitar e lugares em que ainda não estivemos, vamos tocando.


08/01/11 conhecendo seus limites

Essa já é uma velha discussão, mas como sempre aparecem novos questionamentos a respeito, não custa nada comentar novamente. Afinal, quantos quilômetros é possível alcançar numa viagem de moto? Todos quanto você desejar. A diferença está exatamente neste desejo. Muitos dos motociclistas da velha guarda viveram o ideal de liberdade e a marginalidade que o mito da moto criou lá em idos de 50 ou 60, assim para eles a estrada tem um sentido tão único que questionar quantos quilômetros rodar ou ainda fazer cara de espanto quando dizem, vou só ali pegar uma voltinha de 1.000km, parece uma heresia. Mas não se sinta acuado com o olhar de desaprovação deles. É assim mesmo quanto se vê um novato. Afinal você também já deve ter feito trote com calouros da faculdade. Mas voltando ao assunto de distâncias, a maioria das pessoas que hoje estão entrando no mundo do motociclismo acreditam erroneamente de que existe um limite certo e definido para si próprio. Começa pelo pequenos obstáculos – não rodo em estrada de terra, não quero tomar chuva, trânsito muito fechado não é minha praia – até chegar em grandes obstáculos – não aguento rodar mais que 300km em cima de uma moto. Peraí! E quem falou que não é possível? Ah eu tenho dor nas costas, minha mulher fica preocupada, tenhos as crianças, o fim de semana é curto. Pois então, todas essas explicações recaem sobre o que realmente moto representa: liberdade. Não quer dizer que é para abrir um processo de divórcio ou deixar de colocar o leite em casa, mas sim de se permitir deixar as preocupações do dia a dia de lado, esvaziar a mente e simplesmente curtir o traçado da estrada. Ao fazer isso, de repente, passa a sentir um novo gosto na boca e sua pele (mesmo sobre a couraça que estiver utilizando e olha que tem gente que parece cavaleiro medieval de tanta proteção) passa a perceber as variações de temperatura e até o vento (aquele chato que fica querendo te derrubar) apresenta novo significado. Pessoas que cruzam a América Latina fazem isso não para provar que são capazes e contar o feito aos amigos (ou ao menos é o que se espera), mas fazem simplesmente para se permitir um momento só seu, de encontro consigo mesmo, longe (as vezes muito longe) do dia a dia. Isso é viajar de moto. Portanto não há limites a não ser as inexistentes barreiras que criamos para não sair de nossa zona de conforto. Mas saiba que ao correr riscos e enfrentar o desconhecido, é a melhor maneira de crescer como ser humano ou ao menos descobrir que 1.000km num dia nem é tanto assim.


08/11/10 como se preparar para uma viagem de moto

Nestes últimos meses participei de vários encontros organizados por amigos e chego a achar engraçado a quase militar preparação para fazer algo tão simples quanto pegar estrada de moto. Simples, será?
Liguei para um amigo de São José dos Campos:
– Camarada, qual a dica de preparação para uma viagem de moto?
– Preparação? KCT, acho que ponho o colete e subo na moto.
Cai alho, não tão simples, afinal nem todo mundo tem tantos anos jovem.
De modo geral garanto que o que realmente interessa é conhecer a si próprio, seus limites físicos, e sua moto, sua autonomia e ciclística. Isso é fundamental para definir qual o máximo rodar em um só dia e de quanto em quanto tempo parar. O mínimo é parar para reabastecer, mas também você pode querer parar para tirar umas fotos ou simplesmente respirar o ar do local que passa.
Mas de qualquer maneira sugiro no mínimo manter a manutenção da moto em dia. Uma coisa é ficar preso no meio da cidade por alguma pane, outra bem mais complicada é ficar preso no meio do nada em lugar algum e pior: no meio da viagem. Manter a moto em boas condições elimina a maioria das surpresas na estrada.
O segundo ponto é ao menos verificar as cidades por onde vai passar e conferir as condições das estradas. Para isso temos algumas informações interessantes no site do DNIT e ainda conferir com a Polícia Rodoviária pode ajudar bastante. Também vale a pena conferir com outros companheiros. Isso permite prever possíveis paradas para reabastecimento ou ainda um pernoite. Durante a viagem, caminhoneiros podem ajudar também com dicas sobre a estrada.
Finalmente definir se vai sozinho ou com algum companheiro. Neste ponto é que ocorrem as maiores dificuldades. Sempre é bom dividir a estrada com a turma, mas nem sempre conseguimos dividir o mesmo ritmo de viagem.
No final o importante é pegar estrada, a cada viagem se aprende algo mais, para na próxima sofrer menos e se divertir mais.


16/05/2010 breve comentário

Sempre repudiei aqueles incapazes de vencer os próprios vícios. Seja bebida, cigarro ou entorpecentes mesmo, esses vícios malignos, assim como os jogos de azar e ainda outros pequenos vícios. Não aceitava alguém ser incapaz de viver a vida sem esses subterfúgios. Quando comecei a andar de moto ainda com pequenas cilindradas até meu acidente sobre duas rodas, também não conseguia compreender o fascínio que tal veículo desperta em nós. Só a partir do momento em que enfiei o pé na lama fazendo trilhas com dorothéia e em seguida enfrentei mais de 1.000km de asfalto com dona stefânia passei a sentir o agravante poder do vício. É estranho e angustiante sentir falta da terrível vertigem de se equilibrar em pêndulo numa curva mesmo em baixa velocidade ou ainda a témivel sensação de vazio sobre os pés ao pular um mísero murundum de terra. Essa saudável labirintite artificial causada pelo andar de moto consegue ser mais forte que qualquer outro elemento para tornar alguém adicto. E nem falei dos outros meros mortais que comos nós se deixam levar por essa maligna maquinaria por rincões afora e que por acaso cruzam nosso caminho e ali deste improvável encontro nasce instatânea empatia. Alguns ainda ousam a singela e verdadeira amizade. Deveriam fazer leis proibindo o uso incidental de uma moto, deveriam banir este sonho amargo de nossos corações, deveriam avisar aos incautos o seu poder sedutor. Sua insensata capacidade de perverter a alma humana a se deixar levar pelos conselhos cornijas. Não, meu amigo, não sou mais capaz de abandonar esse vício. Sou fraco para tal e lhe rogo, não se deixe levar por seus encantos. É uma armadilha.


29/11/09 pequena observação sobre a imensidão

ah… a estrada!

reino daqueles que exercitam sua própria liberdade
campo de batalha daqueles que derrotam os próprios medos
terreiro de quintal onde criamos laços de amizade
onde as leis da solidariedade valem mais que as do feudo

não importa sua cavalaria, não importam suas armas
ao menos uma vez escute companheiro cornija
cerre o punho, torça o cano e sinta o vento na cara