Prudens quid pluma niger secundum

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13/06/13 renascimento

Ainda me restavam quatro preciosos dias de viagem e tendo conseguido organizar uma visita a praticamente todo mundo e passeado por estradas praticamente conhecidas, era momento de encontrar comigo mesmo e em seguida partir para o desconhecido logo ali após uma encruzilhada. Desculpe, mas depois que se descobre que “uma viagem só vale a pena quando ela te transforma”, acabamos por buscar novas fornalhas e malearmos nossa alma novamente.

Porque não colocar uma música na vitrola?

Mas antes era prudente pedir a benção (que se mostrou necessária em seguida) daquele que tem a pena preta. E assim, saindo de Itaúna MG, rumei para a entrada de Ouro Preto MG. A velha MG431 que liga Itaúna MG com a BR381 Fernão Dias ficava cada minuto mais distante a medida em que avançava sobre a BR356. Naturalmente que tivemos o velho e bom banho de lama de mineração dos caminhões que trafegam na região de Itabirito MG, nos ensina a sermos humildes.
No trevo entre Ouro Preto MG e Mariana MG pego direção desta última, mas apenas para descer um pequeno trecho de serra até o bairro de Bauxita (não é uma serra do rio do rastro mas tem lá suas traiçoeiras curvas) e de lá pegar a bipolar MG129 ou MG443, que já que não sabe qual sigla deve ter, carinhosamente mantemos sua nomenclatura original de Estrada Real. Um trecho de apenas 32km da estrada completa entre Ouro Preto MG e Ouro Branco MG.

passeio na estrada real com Broto Jr, bons tempos

passeio na estrada real com Broto Jr, bons tempos

Era ainda idos de 2009 quando passei aqui a primeira vez com a saudosa dona stefânia e não tendo culhões para subir para Lavras Novas MG (tem um trevo mais ou menos na metade do trecho), acabei resolvendo subir por um outro trevo, mais a frente que desembocaria num conjunto de antenas.
Imaginei, uai, antenas, deve ser um topo de morro legal com um vista boa e lá me enfiei, moto e tudo. O pedaço de asfalto não durou mais que 200m e me vi enfrentando pela primeira vez uma estrada de terra com uma moto custom. Muita gente teria torcido o nariz, mas lembrei do que significava o DACS para o clã e me embrenhei vereda adentro.

serra de ouro branco

serra de ouro branco

Eventualmente, após pegar um entroncamento errado aqui, outro ali, rodar meio que perdido e lembrando que não tinha tanto combustível assim, consegui acertar o caminho serra acima. Uma estradinha de terra para matar saudade de dorothéia, companheira dos tempos de trilha, com aqueles belos rasgos de enchurrada que insistiam em dividir a atenção com o horizonte mágico a minha volta.

vai dizer que não sentiria saudades também?

vai dizer que não sentiria saudades também?

Praticamente um ano depois, eu acho, levei Nuanda lá também, ele ainda tinha a XT e ficou embasbacado de como eu conseguia subir naquela estrada com dona stefânia. Mas ao longo do caminho ele entendeu de onde tirava a motivação necessária para ir cada metro adiante. No topo do morro, apreciando a alvorada e além, decidimos oficializar que a Divisão de Ações Ciclísticas Sujas do Clã do Gallo Preto, ou DACS para os íntimos, deveria ser reconhecida onde estivéssemos, fosse asfalto ou terra.

estrada real

estrada real

E era essa tradição toda que Srta. Hellen Dawson tinha agora a sua disposição para não se mostrar acanhada a enfrentar uma estrada digna de suas antepassadas que estiveram na segunda guerra mundial (ou você realmente acha que naquela época tinha maxi big ultra mega blaster trail dos infernos?). Naturalmente que os 100kg ou mais a mais do que dona stefânia e também considerando que dessa vez tinha bagagem traziam um tempero para o trem.

subindo a serra

subindo a serra

ainda falta muito?

ainda falta muito?

há algo mais entre o céu e a terra

há algo mais entre o céu e a terra

no topo

no topo

E lá em cima chegamos, para a incredulidade de uma casal que descia num uno velho e parou para me perguntar se eu estava perdido enquanto tirava umas fotos.

Não havia como explicar para eles o quanto eu estava realmente me encontrando.

perdido?

perdido?


10/06/13 adeus à bezerra

Uma parede de neblina insistia em se manter a minha frente. Isso porque já havia avançado bem a BR381 Fernão Dias em direção a Bhz. Acredito que dava para ver aproximadamente uns 10 metros a frente e olhe lá.
Mas, Fantini, de São Paulo a Belo Horizonte é um trecho curto, poderia ter saído mais tarde e evitado o frio cortante da manhã. Bem, isso não estava nos planos de Sabbath, o gato, e eu preferia não ter um hemorragia interna sem explicação.
E se o motor funcionando em temperatura adequada foi a salvação no trânsito travado de São Paulo, agora na neblina gelada senti até saudade do tempo em que cozinhava os bagos em cima da panela de óleo abaixo do banco de Hellen Dawson. Até lembrei da primeira vez que peguei um tempo de inverno com a saudosa dona stefânia a noite, retornando de Bhz para Mariana, idos de 2009. Naquela noite parei umas três vezes e fiquei abraçado no motor em funcionamento antes que pegasse um pneumonia. É, há coisas mais perigosas na vida do que um gato metido a besta.
Cheguei em Bhz na hora do almoço e após rever mãe e descarregar as tralhas na casa do imperador, fui finalmente comprar um capacete novo. O velho zeus aberto companheiro de muitas desaventuras já apresentava sinais dos kms sob chuva, sol, frio, besouro e toda sorte de sujeira possível. Teve até um passarinho suicida que deu um razante na viseira certa vez.

Infelizmente não havia uma cor mais espalhafatosa

Infelizmente não havia uma cor mais espalhafatosa

Em seguida já estava convocando o povo do clã para homenagear nossa querida bezerra morta. Tentamos ir no Vintage 13, mas como era segunda, estava fechado. E assim ficamos no Amarelinho da Savassi mesmo.

Preocupado

Preocupado

Na terça fiquei por conta da família, já que na quarta tinha encaixado uma visita para o Flávio lá em Itaúna MG. Como Itaúna MG fica logo ali a uns 100kms, não tinha motivo para sair muito cedo e finalmente pude pegar um clima agradável para curtir a estrada.
Pena o trecho curto, descendo a BR381 Fernão Dias sentido São Paulo, para logo após a Serra da Pedra Grande em Igarapé MG, pegar a MG431 sentido MG050. Outra opção seria subir a BR262 após Betim MG e pegar a MG050 na altura de Mateus Leme, mas sempre prefiro o caminho da serra por ter uma sequência bacana de curvas.
Já encontrei com o Flávio no supermercado, abastecemos de cerveja e carne e pronto, mais dois dias de preocupação com a coitada da bezerra. Um ótimo adeus à bendita.
E até aqui basicamente pilotando por estradas cuja maioria eram mais que conhecidas, paisagens que apesar das repetidas vezes, não me canso nunca de rever. Sim, desde quinta, dia 30/05 entregue ao que o clima e o asfalto me oferecessem e aproveitando a recepção calorosa de todos os amigos e irmãos. Não sei bem o que dizer a respeito a não ser: experimente também.

#vem para estrada

#vem para estrada


25/06/10 de volta ao dentista

A região da Estrada Real, que concentra as cidades históricas de Minas da época do ciclo do ouro, tem um clima muito interessante no inverno. Por incrível que pareça faz calor durante o dia, a ponto de incomodar ficar exposto ao sol. Já à noite, a temperatura cai bruscamente e, ao arrepio de alguns amigos meus, faço uso do velho e bom cachecol. Considerando esse clima e não podendo perder o Tiradentes Motorfest no fim de semana (afinal seria um revival da primeira viagem com dona stefãnia), me programei para encontrar com amigos de Bhz, Nuanda, Ebin e Broto Jr, no sábado de manhã e descer para o dentista por volta de 09:00 no Posto Chefão na saída para o RJ. No final do dia subiria para Itaúna, pois também estava devendo uma visita (só tem quase um ano) a outro amigo, Flávio, que mora lá. Sexta logo cedo, aguardando reunião no escritório da empresa em Bhz (a unidade que trabalho fica em Mariana e nem precisa comentar que sai de madrugada de carro para estar cedo em Bhz), me aparece mensagem do Nuanda: “Fui”. Ca ialho, pensei, foi para onde diabos? Liguei para perguntar, não atendeu, mesmo depois de três tentativas. A resposta só vim a saber no meio da reunião com outra mensagem dele: “Tiradentes está demais, gente bonita e chopp da Krug. Se eu fosse você viria agora também”. A vantagem de nossos amigos e que podemos maldizê-los sem que isso gere qualquer intriga, portanto maldito Nuanda, isso lá é mensagem que se manda para alguém que está no meio de uma reunião discutindo um bocado de assuntos, menos moto? Depois ainda insistiu: “Já arrumei um quarto barato para passar a noite. Vem hoje mesmo”. Cai alho, vou dizer que foi um dos dias mais longos que já passei no escritório. Nem o interlúdio com aquela pelada que a seleção fez contra Portugal salvou. Finalmente 17:00 e estou livre. Livre? Bom, livre para voltar para Mariana. Uma ducha rápida (na verdade um chuveiro quente porque já estava frio), separa o essencial na bolsa de sissy-bar, três cuecas, quatro pares de meia, moleton, cachecol (lógico) e umas duas mudas de roupa. Armadura no corpo e pé na estrada. Já eram umas 20:00 quando sai de Mariana em direção a Tiradentes. Tanto o trecho da Estrada Real entre Ouro Preto e Ouro Branco e depois a interligação entre Congonhas e São João Del Rey, são estradas lindas com uma paisagem merecedora de muitas fotos. Bom, isso de dia, a noite e nesta época do ano, eu me perguntava se seria possível o Motul 5100 deixar de ser sintético e dona stefânia voltasse a ferver debaixo das minhas pernas como na época do Yamalube. Tudo bem, tudo bem, não serei tão rabugento, a lua cheia estava linda e era a cereja do bolo. OK, do sorvete. Em compensação acho que estou preparado para qualquer incursão ao Sul do país. Fora que companheiro cornija ficou lá encolhido, praguejando o frio, e nem me incomodou. Mais de 22:00 e chegava em São João Del Rey. Confirmei com o Nuanda onde encontrá-lo em Tiradentes e para lá fui, pela estrada velha mesmo, para o arrepio dos meus ossos que na conjunção do frio com os solavancos realmente pareceu que partiriam a qualquer momento. Tudo bem, o abraço do velho amigo ao encontrármos resolveu o problema. Tiradentes estava demais e principalmente a tenda da Krug Beer estava demais. Podem nossos amigos paulistas exaltar o Pinguim ou nossos companheiros cariocas aplaudir a Devassa, mas Krug Beer é cosa nostra! Chopp perfeito. Fora o camarada na voz e violão que estava muito engraçado com um repertório bem variado, passeando por vários clássicos. Ficamos lá com uma galera que o Nuanda conheceu durante o dia, pessoal muito bacana que vieram de speed. Antes disso, ainda vi o Tuí e o Alexandre Moreira lá na tenda da Motostreet. Por volta das 02:30 consideramos que já era hora de dar um tempo, mesmo porque o show acabara. No caminho para ir embora, não é que vemos novamente o Alexandre, agora acompanhado do Russo. Conseguiram nos segurar até depois de 04:00 da matina contando as peripécias do Russo para sair de Riberão Preto até Tiradentes. Não sei como ele conseguiu, mas deu uma boa volta por dentro da Lagoa de Furnas (até usou balsa), ficou perdido em estrada de terra, uma piada. Estava com a menina que conheçou em Riberão da época do passeio Dragueiro em Jardinópolis. Dois ótimos camaradas. Sábado de manhã, por volta de 07:30 fui agraciado com uma ligação do serviço bem no meio do meu sono embelezador. Informação sobre como estava o andamento de uma obra da empresa. A boa educação me impediu de falar que não queria saber daquilo naquele exato momento, mas foi uma informação pertinente. Segundo tempo de sono, 09:30 liga o Ebin: “Aqui, o Broto Jr não apareceu, como fazemos?”, “Larga a franga para trás” respondi e desliguei. Novamente a vantagem dos amigos é que podemos desligar na cara que ninguém deixa de te pagar cerveja por causa disso. Acordei mesmo por volta de 10:00. Banho e a surpresa de um super café na porta do quarto. Até que a “pousada” que o Nuanda arrumou era muito fina. No outro quarto tinha uma camarada com uma BMW, gente fina, mas não guardei o nome. Voltamos para o encontro e daqui a pouco esbarro com o Peninha, que estava meio com pressa e desapareceu na multidão. Mais um pouco e lá está o Ajota perdidão no meio do povo. Grande Ajota, companheiro de estrada e de muito encontros. Me confidenciou que já estava de olho numa moça de Goiânia. “Mas, Ajota, e a moça de Uberlândia?”, “Fantini, motociclista gosta de uma estrada, temos que ter vários destinos”. Realmente ele tem razão. Demos uma volta pelo evento e como eu disse o calor do dia começou a incomodar. Nenhuma notícia do Ebin ainda. Liguei, fizeram um pit-stop em São João Del Rey. Encontramos novamente a galera de speed de ontem. Vim a saber que uns deles queria mais que todo mundo se fodesse, explico, é dono de motel. Pouco depois de 14:00 despedimos do pessoal, dei um último abraço no Ajota e eu e Nuanda pegamos estrada. Ele tinha compromisso em Bhz e eu ainda tinha mais um asfalto até Itaúna. De dia a vista da estrada entre são João Del Rey e Congonhas é um espetáculo, viemos até num ritmo mais lento, lembrei-me do PE-49. Fomos assim até pouco depois de Lagoa Dourada, onde aceleramos o ritmo pois havia ficado um pouco tarde para nossos objetivos finais. Como ainda estava sem almoço um pequena parada em Congonhas para um pão de queijo. Despedi do Muamba, apesar que ainda dividiríamos a BR040 até o Anel Rodoviário, onde eu desceria para a Cidade Industrial e depois pegaria a Fernão Dias e ele desceria direto para Bhz pela Nossa Senhora do Carmo. Já sozinho na Fernão Dias, passei pelo velho caminho de sempre até Itaúna, passando por Igarapé e depois Itatiauçu. Quando parei para reabastecer na saída de Bhz, o frio já começara a cortar e melhorei minha condição térmica com um cachecol (sim, já deve ter alguém comentando: “cai alho de cachecol, Fantini”, mas faz muita diferença no frio). Cheguei na casa do amigo Flávio e a festa de aniversário da filha dele já estava bombando. O bom foi rever a Michele, uma amiga lá de Itaúna, linda como sempre. Aliás ela estava muito arrumada no vestido de festa e o brutamontes de jardim aqui (no alto dos meus 1,67m) com a armadura toda imunda por uma chuva de barro que tomei de uma carreta na estrada. Um cena típica de qualquer ser motoandante. Muita cerveja depois e ao fim da festa, lá estava eu capotado na cama improvisada na sala da casa. Tudo perfeito. Assisti aos dois excelentes jogos do domingo. Alemanha e Inglaterra, para mim até o momento o melhor jogo da Copa, e Argentina e México. Em seguida despedi do Flávio e família, missão Itaúna cumprida. Novamente a solidão do asfalto em direção a Mariana. Solidão? Lá estava eu com dona stefânia e companheiro cornija, este impagável e novamente praguejando o frio. Emprestei para ele o cachecol.