Prudens quid pluma niger secundum

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Próximo do céu escarlate: 23/09/19 Kyirong a Kathmandu

O café começou por volta de 08:00. A priori vamos sair às 09:00, pois a fronteira abre as 10:00. Em teoria vamos passar sem problema. As motos talvez seja um pouco mais embaçado.

O dia amanheceu bem fechado e tudo indica que teremos chuva nos 30km até a fronteira. Achei que ficaria molhado. No final era apenas uma neblina e exceto pela canela que ficou úmida, nada de mais.

A estrada entre Kyirong e a fronteira é realmente muito bonita. Uma pena estarmos focados em chegar logo na fronteira para resolver a papelada, então não pude parar para tirar umas fotos. De qualquer maneira, a paisagem de descida de serra, contornando a montanha e sua floresta, com algumas cachoeiras alimentando o rio abaixo, foi uma despedida única.

Na fronteira, como de praxe, consome um bom tempo e ficamos em torno de 1,5h para fazer todo o processo no lado chinês. Do lado nepalês, macio como mel, enquanto fazíamos um lanche e aguardávamos o carro de apoio para pegar a bagagem.

Então saímos para pegar a versão do inferno aqui na terra. Se no Tibet, poucos trechos tinham asfalto ruim, no Nepal nem pavimento tem direito. Foram 75km da mais pura imersão em enduro. A questão é que a Royal Enfield Classic 500 não é a melhor escolha para off road. Exceto se você quer passar pela experiência dos motociclistas na segunda guerra mundial.

Pouco depois de avançarmos, assim como na vinda em que bati o fundo da moto e quebrei o pedal do freio traseiro, consegui fazer a mesma coisa novamente. Só que dessa vez a alavanca ficou atrapalhando a condução.

Parei para arrancar aquele trem fora, no melhor estilo ordinary mechanical class. Já o maldito fuso que faz o link com o freio da roda não saia de jeito nenhum. Até o momento em que apelei, empenei o maldito na mão, amarrei na balança da suspensão com a cordinha que veio na chave da moto e assim fomos.

A melhor parte de fazer enduro, com moto baixa e muita lama, é não ter freio traseiro. Como estava esperando, em um dado momento em que usei o freio dianteiro, a roda travou e lógico, lá fui eu comprar um terreno. De boa, só o susto.

A paisagem compensava o desafio da estrada

Na sequência, num trecho em que só passava um veículo por vez, duas coisas boas aconteceram: a) a turma do Nepal não sabe fazer o básico pare e siga para evitar travar tudo e b) o exército resolveu do nada fazer um exercício e tinha só 30 caminhões do exército na estrada.

Ficamos agarrados por pelo menos 30 minutos até resolvermos tomar conta do trânsito e fazer um pare e siga. Foi a única maneira de conseguirmos liberar e poder avançar.

Tudo agarrado até a gente ajudar organizando uma pare e siga

Um pouco mais à frente, era o ponto onde houve o deslizamento. Bom, onde a estrada desapareceu. Estavam consertando e estava bem avançado com as máquinas trabalhando e colocando enrocamento. Num dado momento em que as máquinas liberaram para gente passar, avançamos, só para descobrir que não estava liberado e lá estou eu no meio da lama, sem conseguir mover e a escavadeira dando ré para cima de mim.

Bom, com a ajuda dos peões da obra consegui tirar moto do caminho e daí a pouco continuamos na estradinha sem pavimento.

Hora era lama, hora era enxurrada, hora eram pedras, hora era só trânsito que não se sabe de onde vem. Quando finalmente acabou o trecho em que não tinha pavimento, descemos a serra em infinitas curvas. Já estava cansado, meio puto por ter comprado terreno antes, molhado de chuva (sim no trecho sem pavimento resolveu chover do nada). Quando estou lá de boa fazendo uma curva fechada, me aparece um maldito caminhão do nada, sem buzinar. Foi o tempo de empurrar a moto para um lado e rolar para o outro. O caminhão parou antes de acertar a moto no chão e eu rolei para dentro da vala da drenagem. Sorte que estava sem água nesse trecho.

Depois de conseguir traduzir para o motorista que estava bem, continuei descendo a serra. Um pouco mais emputecido. E nem sinal da turma, já que tinha ficado para trás.

Já lá embaixo, quando estava começando a duvidar se estava no caminho certo, apareceu um colega da equipe da Parikrama Treks de moto, estavam a minha procura. Ele me levou para abastecer a moto. Dos sete companheiros, dois estavam com ele. Os outros quatro já tinha sumido na nossa frente em direção ao hotel.

Após explicar sobre minha decisão imobiliária no Nepal e indicar o freio traseiro quebrado, insistiram para eu pegar a Royal Enfield Himalayan para terminar a viagem, já que o trânsito nos arredores de Kathmandu seria terrível.

Sendo bem sincero, porque não peguei esse modelo antes? Outra moto, conjunto bem mais equilibrado, acelerador curto, torque, suspensão. Tornou o último trecho até Kathmandu bem mais palatável.

Isso porque é incrível a quantidade ônibus, caminhões, carros e motos que surgem do nada nos arredores da cidade e tornam algo com 25 ou 30 km a maior missão impossível possível. Não satisfeito com o excesso de trânsito, o asfalto danificado levanta uma poeira infinita e num dado momento você se imagina atravessando uma cortina de fumaça daquelas bombas que ninjas jogam no chão para desaparecer em seguida.

Sério, eu já havia comentado sobre isso na viagem de 2017 e hoje só confirmou, você reclama do trânsito de São Paulo porque não sabe de nada, inocente.

As 21:30 alcançamos o hotel, parte da turma já estava lá, comemorando com Gorkhas, fui obrigado a comemorar também.

Realmente eu merecia uma Gorkha estupidamente gelada
Que viagem sensacional, com pessoas maravilhosas, sempre dispostas a ajudar no que foi preciso.

Alguns fusos horários depois, dois países, não sei quantos vilarejos, perdi a conta dos kms, noites mal dormidas, frio de verdade, muita emoção e gargalhadas.

Monte Everest, Tibet, território anexado.

RFEIM / CdGP / DACS

Veja a peripécia de ontem aqui.


Próximo do céu escarlate: 12/09/19 Kathmandu a Syavrubesi

Acordamos relativamente cedo, uma vez que o plano é sair por volta de 07:30. Após o café, fomos apresentados às motos, novamente vamos na Royal Enfield Classic 500cc, companheira da outra viagem da volta no Nepal. Se em 2017 a cor da moto era azul calcinha, dessa vez é um verde militar, ficou interessante. Dois camaradas vão usar o novo modelo Himalayan. Depois pergunto o que acharam.

Royal Enfield Classic 500. Não, a moça bonita não veio junto.
Royal Enfield Himalayan

Enquanto eu vou sempre com o velho par de jeans e a jaqueta surrada, a trupe está toda preparada com conjunto de cordura e botinas de trail. Rsrsrs, acho que vou passar frio e perrengue eventualmente.

Hoje são 150km, começando através do trânsito caótico de Kathmandu e pegando uma saída onde a chuva transformou a estrada não pavimentada numa lama razoável. Sujan também mostrou fotos de trechos na estrada completamente tomados por lama. Acho que vou ficar sujo.

Paramos em algum lugar próximo a um posto policial porque o carro de apoio ficou preso no trânsito enquanto seguimos e também achamos que estávamos no caminho errado. O carro de apoio chegou e após algumas explicações, o caminho era aquele mesmo e pouco depois saímos da via principal para um estrada vicinal, onde paramos na próxima cidadezinha para um rápido almoço.

O Sr Kumar que vinha no carro, acabara de receber um aviso de que havia um desmoronamento de terra impedindo um ponto na estrada à frente, uns 50 ou 60km de onde a gente estava.

Bom, aí começou a aventura. Se da outra vez da volta no Nepal, um trecho que estava em terra por ser período seco e o caos foi o trânsito e engarrafamento, dessa vez em função do final do período de chuvas, sim, isso mesmo que você está pensando, seu carismático amigo Fantini voltou a fazer trilha com direito a lama, vala, caminhão atolado, trecho com pedras soltas, cachoeiras e rios atravessando a estrada e tudo o que se tem direito.

Reconheço que os 10 anos longe das trilhas e a falta de parafernália adequada foram cruciais para um desempenho pífio. Rsrsrsrs. Pífio não, barriga verde mirim demais da conta. Que perrengue. Nem vou comentar que a suspensão baixa e mais dura da Royal Enfield tenha atrapalhado, eu que estou enferrujado mesmo e não queria de jeito nenhum estragar a viagem por comprar terreno.

E o tal desmoronamento de terra? Ah, você e eu achamos que era um deslizamento sobre a pista, né? Que nada, a pista, a pista! A pista deslizou praticamente toda, sobrando um faixa minúscula que dava para passar as motos empurrando. Um dos tiozinhos malucos da Nova Zelândia passou na raça, o patuá dele está acima do patuá dos deuses do Olimpo!

E a cereja do bolo, se você estava reclamando do calor dos infernos que estava fazendo, foi que começou a chover neste exato trecho e praticamente até o fim do dia de hoje.

E o carro de apoio, Fantini? Isso foi uma surpresa. A equipe da Parikrama Treks tinha um outro guia do lado de lá do desmoronamento esperando com outro carro, foi o tempo de transferir o material de mecânica e nossa bagagem para enxurrada começar a comer o resto de passagem que havia. Dessa vez vou contar com o patuá do tiozinho neozelandês para que ainda tenha a faixa para atravessarmos de volta. Sim, voltaremos por esta estrada no fim da viagem. Ao menos já sei que vai ser diversão garantida, nem precisa criar expectativa.

Continuamos mais uns 30 ou mais kms, já não estava acompanhando o odômetro mais, por estar concentrado na estrada. Um dos únicos momentos em que o offroad deu trégua foi numa descida de ravina fazendo as famosas chicanes e quando você menos imagina ou acredita (tudo bem já sei que é possível em função da viagem de 2017), caminhões surgem do nada subindo aquela estrada de serra estreita e cheia de curvas fechadas. É fora do nosso senso comum.

Já fechando a tarde, chegamos no hotel bem na boca da fronteira, portanto gastamos umas boas 10-11h para fazer 150km! Ok, boa parte do tempo aí foi eu agarrado na lama e parando para tirar fotos. A turma do grupo deve estar pensando: “que brasileiro mirim de uma figa!”

Jantamos aquele prato típica nepalês, bom só queria um pouco de frango e vegetais, veio o prato completo. E para explicar com educação para o cozinheiro que a comida estava excelente, somente que não queria comer arroz, que é a base da comida deles. No final aceitou quando expliquei que no Brasil estamos acostumados com feijão com arroz e assim, sabe como é, faltava alguma coisa.

Veja a peripécia de ontem aqui. Continue comigo nessa viagem aqui.


Próximo do céu escarlate: 11/09/19 Kathmandu

Você acorda às 03:30 da matina sem saber se é o barulho da chuva, o barulho do gerador do prédio do lado do hotel, o fato de estar acostumando com o fuso ou a dor de barriga por ter experimentado um curry de peixe que o colega catalão resolveu comer.

Por via das dúvidas fui lá realizar uma tarefa indelegável e ao voltar para cama nada de pegar no sono novamente. Fiquei lá naquela de cochilo rápido e apesar de tudo, as 06:00 e alguma coisa quando levantei não estava tão cansado. Dizem as bocas miúdas que quando estivermos em altitudes acima dos 4.000m teremos problemas para dormir como se ficasse num estado infinito de jet-leg.

Seguindo o conselho do peruano que vive na Austrália (sim, seria mais interessante se ele vivesse na Bolívia e se chamasse Pablo conforme dita o Faroeste Caboclo), já comecei a tomar o tal remédio para o mal de altitude. Deve ajudar.

Hoje enquanto esperamos os passaportes serem liberados pela embaixada chinesa, a equipe da Parikrama Treks vai nos levar para um tour pela cidade.

Saímos de van para a antiga capital Bhaktapur onde há três diferentes praças com antigos palácios e templos. É muito interessante porque possui uma cara mais de interior e há menos disparate entre a área dos palácios e templos e o restante da cidade.

Paramos para almoçar num café instalado numa construção antiga na terceira praça. Depois nova caminhada cidade adentro até finalizar na praça inicial com direito a um sorvetinho de coalhada.

Daqui fomos parar no mais antigo templo hindu de Kathmandu, chamado Pashupatinath. O local do templo foi escolhido porque segundo a lenda, uma vaca sagrada dava mais leite quando pastava nessa região. O motivo é que Lorde Shiva em tempos idos gostava de passear na beira do rio que corre ao longo do templo.

É interessante que até hindus da Índia vem aqui para realizar orações e também é considerado o mais sagrado dos locais onde os hindus praticam a cremação dos mortos. Conseguimos vislumbrar parte da celebração da cremação.

Uma pena que a famosa chuva de 16:00 e pouco surgiu em ponto, tivemos que sair para um abrigo e depois pegar a van para voltar para o hotel. Então não foi possível testemunhar se o fogo da cremação continua acesso mesmo com a chuva, essa é uma curiosidade que ficou.

A noite fomos a outro tradicional restaurante nepalês e enquanto havia uma espécie de rodízio da culinária local, faziam apresentam de música e dança típicas. Muito interessante essa imersão cultural. E para os mais animados, uma ante-sala possui várias obras de madeira representando o que estou inferindo ser o deus hindu Brahma fazendo, digamos, brahmices. Ah, deixa o caboclo se divertir.

Ficamos combinados de partir as 07:30 no dia seguinte em direção à fronteira com o Tibet. Sujan chamou a atenção para o caótico trânsito de Kathmandu e a saída da cidade onde devido às chuvas o trecho se tornou uma transamazônica. Vai ser divertido.

Veja a peripécia de ontem aqui. Continue comigo nessa viagem aqui.


Próximo do céu escarlate: 10/09/19 Kathmandu

No noite anterior, quando cheguei no quarto, um dos companheiros de viagem com quem vou dividir o hotel daqui por diante já estava capotado.

No dia seguinte nos cumprimentamos, um catalão de Barcelona muito gente fina.

Após o café resolvemos caminhar de bobeira pela cidade, novamente um pedaço do bairro turístico Thamel com sua miríade de lojas e daí esticamos até a Hanuman-dhoka Durbar Square.

Enquanto caminhávamos, o catalão contou um pouco das suas peripécias, acabava de vir de uma viagem de moto pela Índia, ia fazer essa no Nepal / Tibet e depois pegar outra no Butão (o país, é claro). Tudo na sequência. Fora que fez um viagem de bicicleta entre Beijing e Istambul, algo em torno de 15.000km em 6 meses. É, acho que sou barriga verde ainda.

Na Hanuman-dhoka Durbar Square está ocorrendo um festival que marca o final do período de chuva. Interessante que levantam um mastro sagrado hoje, o primeiro dia do festival, e após uma semana, o mastro é cortado em lenha para uma fogueira sagrada que enfim marca o fim da chuva ou representa uma oferenda aos deuses para que acabem com a chuva.

Melhor não comentar que faço fogo sagrado é para queimar carne mesmo.

Voltamos para o hotel onde a turma da Parikrama Treks fez um briefing do que teríamos pela frente, com algumas pontuações sobre atravessar a fronteira e cuidados no Tibet por ser território chinês, principalmente se você for um fã do Dalai Lama.

Almoçamos no hotel mesmo e de tarde resolvemos ir de novo na praça, junto com a trupe toda. No final, eu, o catalão e o peruano que vive na Austrália fomos numa farmácia providenciar remédio para evitar mal de altitude e nos separamos do resto do povo ao decidir ir de táxi ao invés de ir a pé. Naturalmente que o táxi pegou um outro caminho, dando uma volta maior para usar ruas mais largas, ainda assim, aquele trânsito caótico asiático.

Andamos sem pressa pela praça e depois fomos emburacando nas ruelas e corredores com lojas por todos os lados e quando você acha que só passam pessoas, lá vem um maluco de scooter. Andamos tão distraídos e na boa da ideia de perambular sem pressa que nos perdemos. Nada que uma pequena conferida no mapa não resolvesse.

Pouco antes de chegar no hotel, desce aquele pé d’água, por acaso em horário similar ao de ontem. Quase que podem fazer igual a Belém no Pará em que se marca um compromisso antes ou depois da chuva.

Após uma descansada básica, dá-lê cerveja local Gorkha no hotel e depois, seguindo a dica do canadense que vai rodar conosco, fomos no restaurante Nepali Chulo. Cozinha nepalesa (leia-se muito condimento e muita pimenta) acompanhada de um interessante show de música e dança tradicional. O ápice da noite foi experimentar novamente o famoso badam sadeko, sim aquela deliciosa e super apimentada iguaria feita de amendoim, tomate, pepino, cebola, coentro, sumo de limão, pimenta, mais pimenta e uma pitada de pimenta. E dá-le Gorkha!

Veja a peripécia de ontem aqui. Continue comigo nessa viagem aqui.


Próximo do céu escarlate: 09/09/19 Kathmandu

De volta a Kathmandu no Nepal, após 2 anos da strange days ride. Diferente da outra vez em que rodamos apenas eu e Sujan (da equipe Parikrama Treks) em volta do país, dessa vez a trupe tem mais 6 camaradas perdidos da Austrália, Nova Zelândia, Inglaterra e Espanha para conhecer o Base Camp do Everest através do Tibet.

Está achando o que? Seu humilde amigo Fantini é cosmopolita!

A viagem começou alguns dias antes, bom bem antes, visitando a família e amigos no Brasil para comemorar duas datas importantes: 65 anos do imperador e a véspera da vinda do Mathias, o mais novo Fantini que chega em Novembro. Espero que ele seja menos afoito e faça viagens menos esotéricas que o tio.

Muitas comemorações e confraternizações depois, para alegria do Grilão, finalmente fui embora de Bhz:

– Filho, quando vai embora?

– Sábado agora, porque?

– Deus é pai!

Fraco. Só porque fiz ele perder três apresentações de artigo? Esse povo de doutorado é foda! Fora o Muamba depois de ver um monte de foto minha em aeroporto, perguntando se eu estava tentando chegar em casa desde sexta. Podemos dizer que sim, só teve um pequeno desvio.

A parte divertida de viajar atravessando fuso é que você começa num sábado por volta de 07:00 da manhã em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasi e chega no hotel em Kathmandu, Nepal na segunda-feira ao meio dia.

E naturalmente o cansaço faz você ficar distraído a ponto de conseguir a façanha de perder seu passaporte e cartão de embarque faltando 30min para começar um dos vôos. Sim, momentos de terror ao descobrir já na porta do embarque que numa ida ao banheiro para tomar uma banho de gato e trocar de camisa, você esqueceu o passaporte lá.

Volta ao banheiro, mobiliza todo mundo do aeroporto, para descobrir que uma bendita alma viu o passaporte e o cartão de embarque e levou tudo lá para o portão de embarque.

– Caramba, Fantini, como é que não teve um ataque do coração?

– A aventura só começa quando algo dá errado!

Finalmente no hotel em Kathmandu e como diz o grande mestre Chico Science: “uma cerveja, antes do almoço, é muito bom, para ficar pensando melhor!”, não podíamos deixar de experimentar novamente a deliciosa Gorkha, cerveja premium do Nepal, enquanto conhecíamos os tiozinhos (faixa etária, puxa minha orelha o Grilão, faixa etária) que vão dividir a peripécia dessa vez. 

Teremos hoje, amanhã e quarta-feira aguardando a burocracia de visto para o Tibet, território chinês. O jeito é tomar uma de leve para aplacar a espera e recuperar do susto do passaporte, principalmente que a temperatura está elevada em Kathmandu devido à alta umidade do fim do período de chuva.

Só não vou reclamar sobre quando vai ficar frio mesmo, porque lembro do trecho nas Snowy Mountains na Austrália e já sei como é a mudança brusca de temperatura, afinal vamos rodar entre 3.000m e 5.000m, duvido que não vá fazer frio de verdade.

A noite, para terminar de acostumar com o novo fuso, fui dar um volta pelo bairro turístico Thamel. Turístico para você que adora lojas e mais lojas de bugingangas que escondem algumas boas lojas de artesanato (muita peça legal) e têxteis (se você procura por cashmere).

Procurando um boteco para fechar de leve, o primeiro que subo a escada (a maioria fica no segundo ou terceiro andar das construções), um inusitado aviso de proibido entrar de chinelo, em pleno século XXI esse tipo de preconceito com as pessoas de chinelo! Absurdo!

Continue comigo nessa viagem aqui.


03/11/17 strange days ride

Era para ser só mais uma viagem de moto, coisa simples, uma voltinha qualquer para manter o ritmo e a mão firme.

Tanto tampo longe de Hellen Dawson que eu mesmo duvidava se ainda sabia se era a 1a para baixo e as demais para cima e só alegria.

Um breve conversa de boteco no Outbeth em Nacala-a-Velha com os companheiros portugueses, que também fizeram de Moçambique sua segunda casa, me demoveram da idéia de uma volta em Portugal com um pulo em Marrocos.

⁃ Fantini, ouve lá, novembro faz chuvas na terrinha, não há de ser bom.

Apesar de não me importar muito com chuva, eu bem preferia uma viagem à seco dessa vez. A Voortrekker já fora de bom tamanho para provar para mim mesmo de que chuva não é problema.

Para quem já me conhece, sabe o tanto que fiquei triste depois de tanto planejamento e verificação de hotéis, condições de estrada, onde comer bacalhau ao punho e todas as amenidades necessárias para viajar de moto.

Abri o browser e digitei: “onde viajar em novembro?”. Eu particularmente não sei como será o mundo do futuro, uma coisa para mim é certa, computadores saberão mais do que nós e lá na miríade de dados da nuvem a resposta era clara: dez opções diferentes de países que em novembro valeriam uma visita.

Lendo cada explicação dos porquês, clima, temperatura, comida, o que fazer, até um guia de expressões locais, me deparo com o Nepal na lista de países recomendados.

Entre tantas velharias que o Imperador me ensinou a escutar do velho e bom rock ‘n’ roll, Cat Stevens sempre foi algo bacana e eu viajava na música Katmandu:

⁃ Katmandu, I’ll soon be touching you. And your strange, bewildering time, will hold me down.

Fiz mais duas pesquisas (velho, num futuro próximo o próprio smartphone vai dizer: olha, achei essa passagem e essa empresa de aluguel de motos já que quer ir ao Nepal), e por mais incrível que possa parecer, achei passagem aérea num preço bom e três empresas diferentes de aluguel de moto. No Nepal!

Depois de algumas trocas de e-mail, a empresa Parikrama Treks & Expedition me chamou a atenção pela organização, referências e cordialidade. Uma rápida confirmação na Skyscanner e voi-a-la, tudo no esquema.

⁃ Como assim, tudo no esquema, Fantini? Cadê hotel, qual trajeto?

⁃ Velho, eu pedi para dar uma volta no Nepal de moto e a turma da Parikrama me perguntou se eu sabia pilotar, que o resto era com eles.

Sensacional. Aliás mais que agradecido ao Sr Kumar Basnet e ao companheiro de viagem Sr Sujan Basnet que me trataram como príncipe. Eles até comentaram que se tivesse vindo em Setembro, tem uma excursão que fazem todo ano para o Base Camp Norte do Monte Everest que se alcança através do Tibet. Sim, se chega lá de moto. O famoso Base Camp Sul do lado do Nepal, só na caminhada assassina morro acima de 8 dias com paradas para aclimatação e carregando suas tralhas nas costas.

Mas lá estava eu sentando no aeroporto de Nampula / Moçambique, esperando o tempo passar, duas pernas de vôo depois lá estava eu no terminal C do aeroporto de Dubai / EAR, esperando o vôo para Kathmandu. Que choque cultural ver aquela mistura de gente da India, Casaquistão, Rússia e toda a sorte de leste europeu, mundo árabe e Ásia. Quando falo que viajar é melhor que comprar sofá, é por causa desses momentos.

Em Kathmandu, o visto se faz no próprio aeroporto. Há vários terminais para emitir o pedido de visto na hora, uns caixas para pagar a taxa de usd25,00 e depois só se apresentar no guichê de imigração com todos os comprovantes. Processo simples, único porém que uma centena de gringos fizeram a mesma pergunta que eu sobre onde ir em novembro e também devem escutar Cat Stevens. Duas horas de fila para um esquema que se gastou 1 min efetivo em cada etapa, foi muito.

A equipe da Parikrama já estava a minha espera e me levaram ao hotel. No dia seguinte já me trouxeram a moto para um test-ride em Kathmandu: “para acostumar com o tráfego”, segundo Sujan. Velho, lembre de todos os vídeos de trânsito nos países asiáticos que já recebeu. Agora imagine-se dentro do trânsito. Agora está aqui o carismático Fantini, vivendo isso na real. Surreal. Não tem sinal, não tem placa, não tem preferência e ainda assim funciona e flui. Só na prática para compreender como é possível.

Ponto para a moto, uma Royal Enfield Classic 500cc. Confortável, robusta, leve e boa de conduzir. Apesar de seu visual clássico oriundo de design da época da guerra mundial, o conjunto é bem ágil e responde bem aos comandos, o que tornou um pouco menos apavorante a experiência do trânsito caótico.

Depois da devida introdução à milenar arte de usar um veículo automotor no trânsito asiático, começou o devido passeio. Arredores de Kathmandu e depois a estrada no dia seguinte, conhecendo as cidades e a cultura ancestral do Nepal. Suas belas paisagens cercadas de montanhas da cordilheira do Himalaia, caminhões coloridos com suas buzinas musicais, estradas vicinais subindo e descendo serras infinitas, estradas sem pavimento, toda a sorte de gente andando a pé ou tocando búfalos e cabras. Sim, búfalos, a vaca é um animal sagrado e substituíram por búfalos.

⁃ Mas não é praticamente a mesma coisa, Fantini?

⁃ Eu também acho, mas você realmente vai discutir a cultura milenar dos caboclos?

Em Kathmandu conhecemos o centro antigo Hanuman-dhoka Durbar Square com templos e “capelas” em toda esquina e o complexo Buddhapari. Uma pena que o terremoto de 2015 danificou muita coisa e destruiu completamente dois templos.

De Kathmandu partimos para Bhaktapur para conhecer a antiga capital também cheia de templos. De lá terminamos o dia em Nagarkot. Logo na chegada de Nagarkot, havia uma trilha para um templo, 20 min de pedras, valas e raízes e ainda me acostumando com a moto, carregando bagagem, me demoveram da ideia de continuar. Provável que tenha perdido algo espetacular, mas era melhor do que comprar terreno.

De Nagarkot seguimos para Bandipur, não sem antes me perder do Sujan no meio do trânsito caótico na saída para a rodovia. É muita poeira e caminhões e ônibus. Afinal, a aventura só começa quando algo dá errado. Dois telefonemas para confirmar se estava na direção certa, encontrei Sujan e alcançamos nosso destino. Bandipur é muito simpática e criaram um calçadão central onde não passa carros e tem vários restaurantes com comida típica. Gostei de lá, me trouxe lembranças das cidades do interior de Minas Gerais.

E tome cerveja local Gorkha (excepcional) e o tira gosto Sadeko, que pode ter várias opções de base (amendoim, grão de soja ou outra semente crocante) numa mistureba de tomate, pepino, cebola, alho, gengibre, coentro, pimenta, tudo picadinho e um sumo de limão por cima. Velho, cura gripe, sinusite, olho seco, afta, unha encravada, bico de papagaio, acorda defunto, entre outras coisas. O único efeito colateral é que arranca o couro da língua de tão apimentado que é.

De Bandipur partimos para Pokhara. Pokhara é a segunda maior cidade do Nepal e um hub turístico famoso. Realmente a cidade tem uma gama completa de passeios: um lago para pegar canoas, o topo de Sarangkot com vista espetacular do conjunto Annapurna, paraglide, ultraleve, helicóptero, trekking até Base Camp do Annapurna (só 5 dias de caminhada, fácil), no topo do outro morro uma das 70 Peace Pagodas que o zen budismo japonês construiu mundo afora, lojas e mais lojas.

Inclusive as lojas foram providenciais. As luvas da época de trilha que tenho a quase 10 anos, que estava usando junto com a velha jaqueta nas voltas malucas fora do Brasil, finalmente cederam a tanta estrada e poeira. Acabei encontrando um par de luvas confortável por usd6,00. Acho que no Brasil, só pela marca, cobrariam uns R$100,00.

E naturalmente que outra coisa boa era a quantidade de botecos. Começamos em um na beira do lago, partimos para outro na rua principal, desse atravessamos a rua para outro que tinha música ao vivo (banda muito boa com uma mescla de rock mundial e local) e de lá fechamos num pub com palco e tudo com outra banda tocando rock clássico. Fino.

De Pokhara seguimos para Lumbini. Seria o trecho mais longo. Mais de 5h para fazer uns 200 e poucos km. Curvas e mais curvas numa estrada de serra infinita. Literalmente contornamos todas as montanhas possíveis. E lógico que rolou aquele caminho errado básico quase chegando. Dai só mais 1h para encontrar o hotel. Mas compensou demais, pedaço de estrada muito fino.

Lumbini é conhecida por ser a cidade onde nasceu Siddhartha Gautama, sim o Buddha. Para ser sincero, não tem nada na cidade, nem traços do reino que ele renunciou. O único passeio é um complexo de templos e monastérios budistas dentro de um parque fechado. O cansaço foi mais forte e preferi um boteco de leve.

De Lumbini seguimos para Chitwan, como estávamos na parte baixa do Nepal, dessa vez praticamente só retas no trecho e foi possível verificar a velocidade final da Royal Enfield alcançar a marca de 100km/h, onde a estabilidade fica bem comprometida e é possível sentir princípios de chimada. Além disso, a própria condição da estrada, trânsito, animais, pessoas e outros obstáculos na pista, indicavam a cautela de manter a máxima em 80km/h.

Em Chitwan há uma reserva nacional para proteção da floresta. Ponto alto para o passeio de canoa no rio com crocodilos descansando nas margens, alheios (ainda bem) à nossa presença, e o passeio de elefante floresta adentro. Bacana demais, inclusive com a oportunidade de ver 3 rinocerontes asiáticos ali de boa. Faltou o tigre, apesar de vários sinais de sua presença próxima.

De Chitwan partimos para Gorkha, cidade encravada no topo de outra montanha.

Neste trecho tivemos a pior estrada de toda a viagem. Um trecho de 50km do total de 160km estava completamente sem pavimento, o que não era bem o problema. O tenso foi o trânsito parado neste mesmo trecho em ambas as pistas. Foram 3h de muita poeira, ziguezagues infinitos, atravessando “acostamento”, buscando espaços inexistentes nos corredores. Com o cansaço, a tensão, o calor, consegui perder o equilíbrio em dois ziguezagues em baixa velocidade que apesar do tombo, não houve nenhum estrago, a não ser um espelho retrovisor.

Já o pobre Sujan não teve a mesma sorte e numa ultrapassagem entre a fila de carros e motos, pegou uma sequência de valas e caiu feio. Quebrou somente o farol, um empeno no pedal e uma leve luxação no tornozelo que não impediram de seguirmos viagem. Felizmente.

Principal atração em Gorkha é o antigo palácio do rei que unificou o Nepal, até então vários reinos separados, em um único reino de onde o país se originou.

⁃ Ah, Fantini, achei que a atração seria a fábrica da cerveja Gorkha que comentou.

⁃ Eu também, que decepção!

De Gorkha seguimos para Daman em outro topo de montanha. Assim pegamos mais um maravilhoso trecho de serra e estradas vicinais com suas curvas infinitas.

O único porém foi um desinfeliz de um policial que numa barreira improvisada pouco após sairmos de Gorkha, apesar de ter reduzido bem a velocidade, o desinfeliz me entra na frente da moto, de costas para mim, caminhando de boa. Na frenagem para evitar atropelar o boca aberta, os freios travaram e fui ao chão. Bom, só o susto e leve escoriação, com certeza teria sido mais grave se atropelasse o infeliz.

Em Daman, além de uma vista panorâmica da cordilheira do Himalaia, finalmente tivemos frio de verdade na viagem toda. Realmente novembro é uma boa época para visitar o Nepal, com temperaturas amenas na manhã e noite e dias ensolarados.

Daman foi a última cidade dessa peripécia asiática. Havia mais um destino, mas verificações prévias indicando falta de condições do trecho para transitarmos, nos obrigou a eliminar a opção da lista. Assim voltamos a Kathmandu em 25km de muita emoção, com direito àquele trânsito divertido de chegada de cidade, mas sem pavimento, sem placa, sem sinal. Se você acha a Marginal Tietê tenso, você ainda não conheceu esse trecho que faria Freddie Kruger se deliciar em opções para a hora do pesadelo. De qualquer maneira os 10 dias conduzindo a Royal Enfield nas mais diversas condições me deixou menos barriga verde e foi possível acompanhar o Sujan no trânsito caótico sem o perder de vista.

Nos dois dias que restaram da programação, aproveitei para fazer o Mountain Flight e pegar uma vista de cima do Himalaia, que espetáculo, e perambular pelas ruas do famoso bairro Thamel, lotado de lojas e mais lojas de bugingangas e lembranças. Fechamos a viagem com um boteco nesse bairro com mais uma banda tocando o bom e velho rock ‘n’ roll. Aí tira gosto de leve, algo similar ao nosso frango a passarinho, pego um pedaço de pimenta sem ver. Velho, até chorei. Ainda bem que tinha Gorkha.

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Mais de 24h de viagem entre Moçambique e Nepal, atravessando 4 aeroportos, 3 fusos horários, 14 dias, 9 cidades, 952km, um zilhão de curvas fechadas. Nepal, território anexado. RFEIM / CdGP / DACS.