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14/06/13 hellen in the sky with diamonds

Desci a Serra de Ouro Branco com a alma renovada e certo de que Hellen Dawson não se acanharia jamais para qualquer estrada que surgisse em nosso caminho. E assim fomos em direção a Diamantina MG através da BR040. Esse era um destino planejado a mais tempo e adiado por várias vezes porque o objetivo era alcançá-lo na companhia do companheiro Ajota, desde a vez que descemos de Brasília DF a Belo Horizonte MG lá em idos de 2009. Infelizmente não pude deixar passar essa oportunidade de tempo.
Para maioria que não entende ou simplesmente não faz a mínima ideia do que possa ser um ritual de passagem, não vai conseguir compreender porque se antes de subir a serra ainda titubeava com o novo fôlego de Hellen Dawson após as regulagens feitas com o pessoal da Garage Henn, agora tinha total confiança e conseguia sentir as reações da moto com muito mais precisão. Acredito que todos devem encontrar seu próprio rito e atravessar essa linha invisível.

Hora de ligar a vitrola!

E assim, divagando sobre essas estranhezas de si mesmo, vamos alcançando a saída para Curvelo MG e apontando a direção final para nosso destino. Naturalmente aproveitando alguns trechos de reta sem fim e sem trânsito para sentir que uma moto custom realmente não foi feita para andar em alta velocidade. Mas também fiquei bem próximo da sensação de estar num velho Supermarine Spitfire dividindo o céu de guerra com um Messerschmitt BF109.

altos planos

altos planos

Pegamos então um trecho da BR135 para em seguida avançar sobre a BR259 e finalmente fechar com a BR367. Enquanto isso ia raciocinando o quanto era engraçado não lembrar de nenhuma paisagem daquela de outros carnavais, fruto de viajar de carro ou ônibus. E isso é o interessante da viagem de moto, mesmo com todos os, digamos, revezes, passar numa estrada e guardar toda ela em sua memória, seus cheiros, cores, poeira e insetos que vão grudando na viseira, compensam o, digamos, desconforto.

então diamantina

então diamantina

Então Diamantina MG. Rodei um pouco pela cidade, ao menos onde o calçamento e ladeiras permitiram levar Hellen Dawson com segurança até parar para arrumar um local para dormir. “Ah! Fantini, porque não marcou antes aquele hotel com hidromassagem?” Porque aí não teria a oportunidade de conseguir um Hostel incrivelmente barato, confortável e com uma vista fantástica.

vista a perder de vista

vista a perder de vista

Diferente da época do carnaval do inferno, a cidade estava tranquila e sua paisagem bucólica de cidade histórica brigava praticamente de igual para igual com Ouro Preto MG, a não ser pelo fato de que os botecos daqui não tinham a mesma quantidade de estudantes ripongas que se encontra lá. Exceto se eu tenha parado nos botecos errados.

não adianta ter igreja, no carnaval o povo quer abraçar o capeta!

não adianta ter igreja, no carnaval o povo quer abraçar o capeta!

No sábado resolvi conhecer o tal Parque Estadual do Rio Preto que fica na cidade próxima de São Gonçalo do Rio Preto MG. O folheto já deixava claro: 15km de estrada de terra. Meus olhos até brilharam e Hellen Dawson já estava empoeirada mesmo.

sujeira leve

sujeira leve

a caminho do parque

a caminho do parque

quase na portaria

quase na portaria

Depois de 15km de paisagem de pequenas chácaras e pontes estreitas, chegaríamos na entrada do parque. O vigia da portaria me deu as boas vindas e me explicou rapidamente sobre o parque. Teria que seguir mais 5km onde encontraria a sede e o guia para comentar sobre mais detalhes. Eu havia achado o vigia meio desconfortável comigo e fiquei encucado com aquilo. Será que o cara não foi com minha cara e…
De repente me vi numa descida íngrime e vertiginosa que terminava numa curva fechada. Em seguida um bocado de camelos e aí areia fofa, mais camelos. Não satisfeito, sobe um barranco, agora sobe outro em curva, sobe mais, desce, atravessa uma ponte velha, mais uma. Vou ser sincero, não foi fácil e agora entendia o olhar carrancudo do vigia, não estava acreditando que eu ia mesmo passar nessa estradinha equilibrando 350kg entre duas rodas. Mas compensou, o parque é muito bonito. Pena que como cheguei tarde, perdi os passeios a pé guiados pelas trilhas e tive que me contentar com um almoço quilombola. Uma carne de lata típica de interior de Minas. Fino!

valeu a pena

valeu a pena

Como não inventaram teleporte ainda, aproveitei a energia do almoço para cortar de volta aquela estradinha através do parque. Perigosa, uma pena, tive que concentrar muito mais na pista do que apreciar a paisagem. Paciência. Aproveitei ainda mais um pouco da vida noturna bucólica e no domingo cedo apontei para Vitória ES.
A parte ruim depois que se roda relativamente muito pelas mesmas estradas é que vai se perdendo aquele gosto amargo da falta de direção e as angustiantes dúvidas sobre qual saída pegar neste ou naquele entroncamento. E naturalmente encher os olhos com paragens exóticas ainda desconhecidas. E assim estávamos na BR259, atravessando a região do Serro MG. Agora entendi porque senti tanto frio nos outros trechos que passei nos últimos quinze dias.
Não havia uma nova paisagem para se embasbacar e assim o frio chamava toda a atenção. Não era o caso agora. Mesmo os malditos desvios por dentro de cidadezinhas minúsculas com ruas de calçamento de fazer bater o fim de curso da suspensão, ou quase seguir numa rodovia errada por ter se confundido no meio das ruelas sem placa de outra cidadela, se perder em curvas jamais vistas até então, tudo isso prendia toda a atenção e nem liguei para o tanto que devo ter congelado atravessando serração e neblina.
E eventualmente tivemos uma tarefa indelegável que se tornou inadiável pouco após passar por Guanhães MG. Tem gente que leva uma bagulhada de tralhas em viagens: capa de chuva, luva para verão, luva para inverno, kit de ferramentas (que as vezes não sabe usar), vacina de pneu, bússola, rádio comunicador, pneu reserva. Mas esquece do essencial papel higiênico! Não que eu tenha que ter parado no acostamento, surgiu um posto providencial, mas quem disse que tinha papel no maldito banheiro? Cai alho! Então a única coisa que realmente não pode faltar no seu alforje é um rolo do velho e bom papel higiênico.
Daí por diante, a viagem ficou mais leve, o dia já avançava e após Governador Valadares tivemos a grata companhia do Rio Doce logo ali na beira da estrada. Pouco antes de atravessar a divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo, uma última parada em Resplendor MG. Pouco mais de 200km e chegaríamos em Vitória ES pela BR101.

divisa Minas - Espírito Santo

divisa Minas – Espírito Santo

Tivemos então desde o início em 30/05 até o final em 16/06: 4 estados, 18 dias, 25 rodovias, 60 horas de viagem, 42 cidades, 4.876km, todos os amigos, irmãos e família que visitei. Não precisou mais nada. Se bem que mais uns dias de folga dava para esticar um pouco mais. Deixemos para uma próxima oportunidade, enquanto houver amigos, moto e estradas que ainda não conhecemos, vamos tocando.

Vitória ES, Ibatiba ES, Abre Campo MG, Caeté MG, Belo Horizonte MG, Bom Despacho MG, Araxá MG, Santa Luciana MG, Uberlândia MG, Araguari MG, Catalão GO, Três Ranchos GO, Ipameri GO, Caldas Novas GO, Goiânia GO, Itumbiara GO, Uberlândia MG, Uberaba MG, Ribeirão Preto SP, Campinas SP, São José dos Campos SP, São Paulo SP, Campinas SP, São Paulo SP, Extrema MG, Pouso Alegre MG, Três Corações MG, Belo Horizonte MG, Itaúna MG, Itabirito MG, Ouro Preto MG, Ouro Branco MG, Sete Lagoas MG, Curvelo MG, Gouveia MG, Diamantina MG, São Gonçalo do Rio Preto MG, Diamantina MG, Presidente Kubitschek MG, Serro MG, Guanhães MG, Governador Valadares MG, Resplendor MG, Aimorés MG, Baixo Guandu ES, Colatina ES, João Neiva ES, Vitóra ES.

BR101, BR262, BR381, BR262, BR452, BR050, GO330, GO213, BR153, BR365, BR050, Rodovia Anhanguera, Rodovia Dom Pedro I, Rodovia Presidente Dutra, Rodovia dos Bandeirantes, Rodovia Fernão Dias, BR381, MG431, BR356, MG129, MG443, BR040, BR135, BR259, BR367, MG214, BR367, BR259, Rodovia Pedro Nolasco, BR101.

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13/06/13 renascimento

Ainda me restavam quatro preciosos dias de viagem e tendo conseguido organizar uma visita a praticamente todo mundo e passeado por estradas praticamente conhecidas, era momento de encontrar comigo mesmo e em seguida partir para o desconhecido logo ali após uma encruzilhada. Desculpe, mas depois que se descobre que “uma viagem só vale a pena quando ela te transforma”, acabamos por buscar novas fornalhas e malearmos nossa alma novamente.

Porque não colocar uma música na vitrola?

Mas antes era prudente pedir a benção (que se mostrou necessária em seguida) daquele que tem a pena preta. E assim, saindo de Itaúna MG, rumei para a entrada de Ouro Preto MG. A velha MG431 que liga Itaúna MG com a BR381 Fernão Dias ficava cada minuto mais distante a medida em que avançava sobre a BR356. Naturalmente que tivemos o velho e bom banho de lama de mineração dos caminhões que trafegam na região de Itabirito MG, nos ensina a sermos humildes.
No trevo entre Ouro Preto MG e Mariana MG pego direção desta última, mas apenas para descer um pequeno trecho de serra até o bairro de Bauxita (não é uma serra do rio do rastro mas tem lá suas traiçoeiras curvas) e de lá pegar a bipolar MG129 ou MG443, que já que não sabe qual sigla deve ter, carinhosamente mantemos sua nomenclatura original de Estrada Real. Um trecho de apenas 32km da estrada completa entre Ouro Preto MG e Ouro Branco MG.

passeio na estrada real com Broto Jr, bons tempos

passeio na estrada real com Broto Jr, bons tempos

Era ainda idos de 2009 quando passei aqui a primeira vez com a saudosa dona stefânia e não tendo culhões para subir para Lavras Novas MG (tem um trevo mais ou menos na metade do trecho), acabei resolvendo subir por um outro trevo, mais a frente que desembocaria num conjunto de antenas.
Imaginei, uai, antenas, deve ser um topo de morro legal com um vista boa e lá me enfiei, moto e tudo. O pedaço de asfalto não durou mais que 200m e me vi enfrentando pela primeira vez uma estrada de terra com uma moto custom. Muita gente teria torcido o nariz, mas lembrei do que significava o DACS para o clã e me embrenhei vereda adentro.

serra de ouro branco

serra de ouro branco

Eventualmente, após pegar um entroncamento errado aqui, outro ali, rodar meio que perdido e lembrando que não tinha tanto combustível assim, consegui acertar o caminho serra acima. Uma estradinha de terra para matar saudade de dorothéia, companheira dos tempos de trilha, com aqueles belos rasgos de enchurrada que insistiam em dividir a atenção com o horizonte mágico a minha volta.

vai dizer que não sentiria saudades também?

vai dizer que não sentiria saudades também?

Praticamente um ano depois, eu acho, levei Nuanda lá também, ele ainda tinha a XT e ficou embasbacado de como eu conseguia subir naquela estrada com dona stefânia. Mas ao longo do caminho ele entendeu de onde tirava a motivação necessária para ir cada metro adiante. No topo do morro, apreciando a alvorada e além, decidimos oficializar que a Divisão de Ações Ciclísticas Sujas do Clã do Gallo Preto, ou DACS para os íntimos, deveria ser reconhecida onde estivéssemos, fosse asfalto ou terra.

estrada real

estrada real

E era essa tradição toda que Srta. Hellen Dawson tinha agora a sua disposição para não se mostrar acanhada a enfrentar uma estrada digna de suas antepassadas que estiveram na segunda guerra mundial (ou você realmente acha que naquela época tinha maxi big ultra mega blaster trail dos infernos?). Naturalmente que os 100kg ou mais a mais do que dona stefânia e também considerando que dessa vez tinha bagagem traziam um tempero para o trem.

subindo a serra

subindo a serra

ainda falta muito?

ainda falta muito?

há algo mais entre o céu e a terra

há algo mais entre o céu e a terra

no topo

no topo

E lá em cima chegamos, para a incredulidade de uma casal que descia num uno velho e parou para me perguntar se eu estava perdido enquanto tirava umas fotos.

Não havia como explicar para eles o quanto eu estava realmente me encontrando.

perdido?

perdido?


07/06/13 vamos beber a bezerra

Descendo a Bandeirantes a partir de Campinas sentido São Paulo, começo a pensar que tinha sido meio que besteira alterar a injeção da moto. Srta. Hellen Dawson ficou tão solta que de repente já estava acima do limite de velocidade sem esforço algum e isso estava começando a ficar divertido, mas ao mesmo tempo perigoso. Até porque ainda estava me acostumando com o novo regime de giro e potência.
Tem muita gente que vai então dizer, olha o Fantini, sempre tirando onda de motoqueiro doidão e agora se comportando como um frango d’angola pena branca. Isso porque já faz algum tempo que decidi respeitar os três limites:

A estrada – há estradas em que se pode andar no limite, pista livre e há estradas com mais curvas ou trânsito pesado ou asfalto ruim, em que se deve andar na boa.
A máquina – há motos em que se pode fazer curvas com precisão cirúrgica sem muito esforço ou que param com segurança e há motos em que é preciso um pouco mais de treino e domínio da sua dinâmica.
Você mesmo – tem dias em que está com todos os reflexos a flor da pele e tem dias em que o cansaço impede fazer movimentos simples como parar a moto no descanso com segurança.

Acreditem em mim, respeitar esses três limites, estar atento com o que ocorre na estrada, na máquina e em você, garante muito mais sua segurança que qualquer parafernália high tech de última geração. Lógico, use jaqueta, calça, coturno e capacetes bons e confortáveis. Mas o que quero afirmar é que não é preciso gastar uma pequena fortuna para ter segurança ao andar de moto.
E o trânsito de São Paulo numa sexta feira início da noite me faz esquecer as divagações e voltar a atenção aos carros a minha volta e as placas para encontrar o caminho. Aí você já imaginou a situação, moto custom, motor grande fritando sob suas pernas, quase uma vasectomia sem cirurgia e eu também fiquei imaginando.
Se você estava pensando que o melhor de acertar a injeção da moto era ter o motor entregando sua potência real, sinto em lhe informar que o motor trabalhando em temperatura adequada porque a mistura agora está correta é o melhor resultado que se pode esperar. Podia até continuar com a moto presa que nem ligava. Enfrentar o engarrafamento, sem ter tanta possibilidade de aproveitar os corredores porque a maioria só passava moto pequena, sem perder sua capacidade de ser pai um dia, é algo que nos deixa mais tranquilos.
Chego na casa do Hellton e ele empolgado me mostra a nova carteira categoria AB.
– Olha, agora eu tenho duas carteiras! Agora eu tenho duas carteiras e… o que está fazendo.

você tinha duas carteiras

você tinha duas carteiras

– Você tinha duas carteiras, hora de beber a velha com a bênção daquele que tem a pena preta, para se livrar de qualquer mal.

bebendo a carteira

bebendo a carteira

Ainda bem que ainda tinha heineken, já que o mequetrefe do Musquito que chegou em seguida repôs o estoque com skol. Cai alho, Musquito, cai alho! Além de morar em São Caetano que é longe, agora tem mais um motivo para não te visitar.  E assim fechamos a noite comemorando e bebendo a velha carteira do Hellton.
No sábado de manhã fomos dar umas voltas em lojas de motos usadas, o Hellton já tinha adiantado algumas opções e pediu minha opinião. Vimos algumas 125 para começar a brincar e pegar o jeito para coisa, na minha opinião, não é vergonha alguma, é que começando pequeno se pode avançar com calma e se adaptar a motos maiores passo a passo.
Em seguida pergunto se estávamos perto da Johnny Bordados.
– Uai, estamos. Porque?
– Vamos lá, quero ver se tem um esquema que estou precisando.

Johnny Bordados. Recomendo.

Johnny Bordados. Recomendo.

Chegamos e fomos muito mais que bem atendidos pela prestativa Anne, que apesar de só me conhecer por email reconheceu o brasão. Agradeci o respeito e pedi para ver se tinha o esquema que está procurando.
– Estou querendo fazer uma tarjeta, mais ou menos uns 20cm escrito aspirante.
– Sim podemos fazer, se puder esperar uns 30 minutos te entrego ainda agora.
– Perfeito, esperamos um pouco.
Nisso o gordinho do meu lado está pasmo.
– Para de tremer e me dá um abraço aqui, bem vindo ao DACS.

quase chorou

quase chorou

A noite já estávamos novamente comemorando e bebendo a velha carteira, afinal de que adianta ter moto se não tem irmãos e amigos em cada destino para fazer simplesmente isso, comemorar a amizade? Não, café da manhã não conta.
Ainda passei um agradável domingo na companhia do casal Tavares, tirando um pequeno contratempo com um restaurante que não servia carne. Finalmente o Hellton tem a oportunidade de comentar sua opinião sobre a morte da bezerra:
– Você não está percebendo o quanto este é um evento fatídico, a bezerra é o sustento daquela pobre família, produz leite, se pode fazer esterco com seu extrume, aí a bezerra vai e morre, a família fica desamparada. Isso não te preocupa?
– Sim, me preocupa demais, vamos beber a bezerra!
Em seguida já estava novamente descansando para partir para novo destino na segunda cedo. Não antes de um último vil dedo de prosa com Sabath, o gato.
– Cai alho! Qual a explicação lógica de você estar apalpando com as duas patas a minha barriga?

não sei se vou gostar da resposta

não sei se vou gostar da resposta

– Ora, Sr. Fantini, apenas verificando pontos fracos para causar um hemorragia interna, caso o senhor estenda por mais dias a sua estada em meus domínios.

cai alho!

cai alho!

Ainda bem que tinha outro destino no dia seguinte.


19/05/13 cavaleiros medievais

Antes de continuar, porque não colocar um som na vitrola?

A um tempo atrás eu havia comparado nossa atitude de viajar rincões afora numa moto a aquela dos cavaleiros medievais, que portando seus cavalos atravessavam reinos e alcançavam terras distantes.
Quando retornavam, traziam algo além das cicatrizes e peles calcinadas pelas intempéries que enfrentavam. Traziam também a experiência de ter vivenciado outras paragens, outras culturas, e de seus relatos dessas terras maravilhosas, nascia o fascínio que os aldeãos (que nunca teriam a oportunidade de conhecer um mundo além de suas cercas) nutriam por estes cavaleiros e que se tornou sua maior imagem que nos passam tantos contos e histórias.

Motoqueiros ou cavaleiros medievais?

Motoqueiros ou cavaleiros medievais?

Ao menos é o que me vem a cabeça para tentar explicar porque causamos o mesmo facínio nas pessoas. Sim, muitos irão questionar o porque de suportarmos tanto desconforto que uma viagem de moto proporciona (na verdade é exatamente o contrário, já comentei sobre isso), mas sempre ficam nos olhando com aquela cara de “gostaria também de ter a oportunidade (coragem) de ultrapassar minhas cercas e me lançar ao desconhecido”.
Dito isso, retorno a uma discussão técnica que tenho vivenciado com o Maia. Ele um “novato” que já fez viagens que até deus duvida no pouco tempo de moto e sendo um ex-pacato professor de direito, defende o direito que todo e qualquer indivíduo tem de adquirir o que bem entender e ainda utilizar ou não utilizar tal bem da maneira que achar mais adequada. Sim, fiz esse rodeio todo para comentar a respeito do que torna alguém motociclista (ou motoqueiro como tenho preferido ultimamente), na minha mais humilde opinião.
Comprar o veiculo e se fantasiar ao bel prazer de uma forma que mais me parece inconscientemente criada por modelos de marketing e por este fascínio que comento acima (e as vezes pouco ou nada a ver com o indivíduo), na minha humilde opinião não torna alguém motoqueiro. Bom, talvez motociclista, sim aquele que faz questão de se destacar de pobres almas que não tem a mesma oportunidade de usar moto somente por prazer e sim para ganhar o suado pão.
E até bem pouco tempo atrás não tinha tal consentimento, mas das discussões com o Maia, acredito que aqueles que vivem de criticar o comportamento deste ou daquele motociclista ou motoqueiro, seja pela oportunidade de usar marca A ou B de moto, seja  por usar para ir na padaria, pequenos eventos ou levar na oficina em outro estado também não sejam motociclistas ou motoqueiros.
Cai alho, Fantini! Então o que diabos você acha que te faz motociclista ou motoqueiro?

Nós e outras figuras que causam fascínio

Nós e outras figuras que causam fascínio

Serei sincero, eu mesmo não tinha certeza. Só soube num dia em que peguei a saudosa dona stefânia a partir de Mariana MG onde morava na época e sai por aí. Comecei em Bhz (porque tinha compromissos da pena preta), em seguida voltei para Ouro Preto MG só para passar no trecho da estrada real até Ouro Branco MG, a partir da BR040 fui a Petrópolis RJ. Num posto em Entre Rios RJ, o frentista me indicou um encontro em Rio das Flores RJ.

Estrada Real

Estrada Real

– Pega essa estrada aqui na divisa entre Minas e Rio e segue uns 50km. – me aconselhou.
Cheguei já no inicio da noite. Parei no posto da cidade e me aproximei de outros motociclistas que ali estavam.
– Bão? Aqui onde é o encontro? Sabem de lugar para dormir aqui?
Me olharam de cima a abaixo.
– Mas você está sozinho? Veio de onde?
Contei por onde tinha passado.
– Você é doido? me questionaram completamente atônitos.
– Não, sou motoqueiro (a bem da verdade, eu disse que era motociclista).
Estava batizado.
Assim, voltando ao assunto, se você ainda não se lançou ao desconhecido estrada afora, sem destino definido, com o único e simples intuito de curtir o que a viagem lhe apresentar e assim ganhar algumas cicatrizes e calcinações na pele. Sem ter sua alma acrescida por novas experiências em paragens nunca vistas. Me desculpe, amigo, mas você não tem o direito de tomar para si o fascínio que os antigos cavaleiros medievais criaram nos aldeões.


Blumenau – BH: Volta Solitária PT 01

De maneira inversa a uma lógica textual clássica (se é que nos preocupemos com isso neste espaço), neste meu primeiro texto sobre Blumenau 2011 irei mais concluir do que introduzir, descrever ou listar eventos de forma cronológica.

Não que exista um real motivo para isso. Talvez porque a viagem não acabou – Rafael Leander e Hermann John ainda estão na estrada, e o meu retorno prematuro e solitário fora previamente definido por compromissos profissionais. E apenas juntos conseguiremos uma descrição de tudo.

Se quiser ir mais além, e levar em consideração o texto do Gustavo Fantini (leia aqui), posso dizer que a viagem nunca acabará, já que “uma viagem só vale a pena se ela te transforma”.

Se uma viagem nos transforma, é porque ela se instalou em nosso corpo, alma e mente. Suas marcas não fogem pelo ralo junto à água suja a escorrer logo na lavagem que retira das motos o barro, a poeira de asfalto, o minério e os insetos esmagados.

O caldo grosso que escorre nos primeiros jatos de água é apenas a sujeira. Sujeira essa que pode sim revelar, após sua retirada, algum tipo de marca mais ou menos permanente – como um inesperado arranhão no tanque que estava misturado ao barro seco. E só.

As verdadeiras marcas em nós tatuadas por uma viagem capaz de nos transformar ultrapassam todas as camadas da pele. Devem envolver não só auto-superação (como já relatado aqui), mas proporcionar reflexões que superem as faixas do asfalto.

O caminho pode deixar marcas mais significativas do que o destino.

Belo Horizonte – Blumenau. Do nosso ponto de encontro para a partida até o albergue no qual nos hospedamos, nós percorremos 1.195km (pela marcação da minha moto). Destes, 590km até São Paulo, 190km até Registro, interior de SP, cidade na qual pernoitamos após a primeira jornada. De BH até SP a viagem fluiu muito bem. Sem sustos por parte dos barbeiros de plantão ou adversidades climáticas.

Já os 190km restantes até Registro (nosso ponto programadado para pouso), nos presenteou com um grande congestionamento e chuva razoavelmente fina nos quilômetros finais. O que não diminuiu os 780km de nossa primeira jornada.

Os 415km do dia seguinte foram marcados por tempestades, caminhões, roupas e botas encharcadas, capas de chuva rasgadas pelo vento. Sem contar nas serras que não levam o nome “azeite” de graça, na neblina e no frio cortantes, mesmo em uma tarde de céu claro.

Como disse, meu retorno foi prematuro. Após dois dias de viagem com Muamba e Hermann, passei três noites em Blumenau (o que renderá postagens futuras mais específicas). Chegamos à cidade no início da noite de Quinta (13/10), e parti sozinho para a viagem de volta no Domingo, dia 16/10. Acordei tarde e saí ainda sem café, por volta das 13h. Às 14h00, parei para almoçar na estrada. Aproveitei o buffet de saladas e comi apenas alimentos mais leves. Uma barra de cereal complementou o desjejum tardio.

O ideal em uma viagem dessas é parar o suficiente apenas para suas necessidades – desidratação e hidratação, como diz Fantini, e um lanche rápido para não pesar o estômago. Esticar as pernas, um alongamento leve, pronto. Mas, desta vez, eu prolonguei bem mais o pit-stop. Não foi algo consciente.

A saída de sopetão ainda não tinha permitido que minha ficha caísse, até então. Eu estava no início de uma viagem de 1.200km, na qual eu gastaria duas jornadas sobre a moto, atravessaria quatro Estados, enfrentaria estradas lotadas, caminhões e SUVs ensandecidos, muita, muita chuva, e sozinho. E não imaginava que o game mode VERY HARD seria realmente tenso. D.A.C.S. puro.

A ficha caiu ainda durante a refeição. O frio na barriga me causou leve enjôo, e preferi não comer o naco de carne que servi no prato. Muita coisa passou rapidamente pela minha cabeça naquele momento: chutar o balde, voltar para o albergue e continuar a viagem com os camaradas; despachar a moto e pegar um avião (calma, foi apenas uma brincadeira).

Me perguntei se realmente conseguiria. Me questionei se estava preparado fisicamente e, principalmente, psicologicamente. Não obtive respostas. Eu já sabia que estas encontraria apenas na estrada. Conferi rapidamente alguns apertos na moto, verifiquei a gambiarra que estava segurando a placa, montei Dona Onça e parti de vez.

Logo nos primeiros quilômetros de uma estradinha local que levaria até a BR 101 eu já tive o primeiro baque: a ausência dos companheiros à frente e nos retrovisores. Eu “puxei a fila” por quase todos os quilômetros da viagem de ida. Alí, Hermann e Muamba se alternaram na cobertura de nossa retaguarda. E saber que alguém em quem você confia e possui entrosamento está te “cobrindo” transmite uma segurança imensa durante o exercício da “função” de “batedor”.

Mas, como disse, naquele momento eu estava sozinho. (https://gallopreto.wordpress.com/category/tempo-e-viagem/)

Continua…


04/06/11 visita ao juquinha

Quase teríamos um bonde antológico subindo para Serra do Cipó para um bate e volta sugerido pelo Hermano João a mais tempo. Tudo combinado, deixei os apetrechos organizados para partir sábado de manhã de Mariana para Bhz. Toda vez me lembro do comentário de um camarada a meu respeito: “Fantini, você é o único cara que eu conheço que viaja para viajar de moto”. Ele tem razão, toda vez que combino com alguém, tenho que me deslocar primeiro, para depois realmente passear.
Para o diabo! Mesmo o conhecido trajeto pela MG356 cortando o caminho para Ouro Preto, somado ao aumento de volume de trânsito com a interdição da saída da BR262/381 em Bhz com a queda da ponte sobre o Rio das Velhas, ou o frio cortante que fazia às 07:00 da matina, não impedem de considerar o deslocamento inicial parte do passeio.
E ainda aproveitei, já que o trecho é conhecido, para aprimorar o contorno de curvas com a utilização de contra-esterço e controle da aceleração. Se você ainda não faz isso e acha que é só subir numa moto e pronto, considere aproveitar todo e qualquer trecho para treinar e aprimorar sua condução. Seu anjo da guarda agradece.
O Nuanda já tinha avisado que compromissos de trabalho haviam reduzido seu fim de semana a somente o domingo. Mas foi chato receber a mensagem do Broto Jr indicando que não poderia vir mais devido a falecimento de um parente. Não pode nem se apresentar no tradicional café da manhã na padaria em frente ao Condomínio JK na Rua Timbiras – tradicional porque era de lá que partíamos para as trilhas e nossa farra na lama.
A atendente perguntou ao Nuanda se queria beber alguma coisa e ele: “pode deixar, vou pegar uma coquinha”. Voltou com um pet de 2 litros. Cai alho!
Partimos eu e Hermano João em direção a Lagoa Santa. Perguntou se iríamos pela Pedro I, mas sugeri irmos pela Cristiano Machado mesmo, até porque precisava abastecer porque meu passeio tinha iniciado a 130km atrás. O trânsito na Praça Raul Soares e depois no pequeno trecho da Andradas / Teresa Cristina até o Complexo da Lagoinha foi tranquilo. Na Cristiano Machado, o que incomoda mesmo é a obrigação de manter a velocidade no máximo a 60km/h. Não rende.
Pegamos a Linha Verde (antiga MG10) e assim pudemos sentir o vento no peito e o cheiro de asfalto. Apesar das críticas e das reclamações inerentes de quem foi expulso da região da Savassi para os lados de cá, ainda acho que o Centro Administrativo Trancredo Neves é uma obra a ser aplaudida pela sua beleza. Acho que um dia vou marcar um passeio só para tirar umas fotos com o imponente conjunto servindo de pano de fundo.
Chegamos a Lagoa Santa e me lembrei de sua aparência de cidade satélite pacada da época em que trabahava na região a bem mais de 9 anos atrás. Hoje tomada pela explosão imobilária de condomínios verdes e pelo trânsito de sitiantes de fim de semana, sua travessia para finalmente pegar a estrada para Serra do Cipó é um certo incômodo. Não importa, o destino justificava qualquer incômodo.
Serra do Cipó. O clima, a beleza natural, as corredezas sobre pedras do rio logo na entrada da região, a imponente serra. Um espetáculo a parte. Uma pena que seria somente um bate e volta, aqui merece um bate e fica para aproveitar o movimento noturno (tinha até um boteco que teria um show de jazz). Bom, mas aí lembrei do trânsito em Lagoa Santa na saída no domingo, rsrsrs e achei melhor o bate e volta saindo no sábado num horário atípico ao rush.
Subimos um trecho da serra para tirar fotos nos mirantes. Não é só as fotos que se tira. É também de se tirar o fôlego! Não, não tivemos que empurrar as motos por pane seca (abastecemos na saída de Bhz), mas a vista é maravilhosa e o mar de morros se estende até aonde a vista alcança.
Já era mais de meio dia e achamos prudente almoçar para voltar em seguida, pois havia a festa junina do Thiago Aguiar a noite. Resolvemos pegar o frango com quiabo a R$10,00 na Taberna do Léo. Recomendo demais. Eu e Hermano João comemos, comemos, empurramos comida para dentro e ainda sobrou. E além de farto, delicioso. Nada a se comparar com a minguada refeição em Honório Bicalho de outras desaventuras.
Mas além do ótimo prato e excelente atendimento, o ponto alto seria a chegada de três pseudos em suas máquinas cromadas e personalizadas com peças originais de fábrica. Tinha um que ostentava jaqueta, capacete, calça, bota, camiseta, bandana e até cueca da marca. Sinceridade, está para nascer gente mais caricata! É capaz de nunca terem pegados um viagem longa, afinal a discussão deles era que a jaqueta esquentava demais. Cai alho! Se eu fosse contar que já torrei debaixo de sol quente para em seguida atravessar 100km debaixo de chuva era capaz de me dizerem que isso não é motociclismo. Rachei! Mas gosto é gosto.
Após o kilo e alguns comentários sobre uma possível visita a Blumenau na Oktober Fest, voltamos e a estrada novamente nos apresentou sua singela combinação de fundo azul escuro com linhas amarelas e brancas. Às vezes numa reta a se perder de vista, em outras logo se perdia o que havia adiante no contorno da curva, até que o belo horizonte surgisse a nossa frente.
Beleza, mas e o Juquinha? Esqueceram de visitá-lo, não? Pois é, não achamos o dito cujo, teremos que voltar a Serra do Cipó outro dia.


13/03/11 muito além da alvorada

Há um certo estranhamento toda vez que pegamos a estrada. Afinal porque viajamos? Qual a nossa necessidade? O que realmente nos impulsiona? Nada mais injusto que questionar a um motociclista porque enfrentamos tanto “desconforto”? O próprio conceito de conforto é variável. Conforto transcende simplesmente uma cabine refrigerada, música em sistemas de dvd multimídia e toda a parafernália de segurança passiva e ativa de um automóvel se quisermos comparar friamente os dois meios de transporte mais individuais. Cabe o parênteses que viagens em ônibus coletivo podem ser muito interessantes quando se está em um grupo animado. Mas voltando a palavra conforto, muitos de nós motociclistas afirmarão categoricamente que o cheiro do asfalto, da poeira, do mato em volta, o calor, o frio, a chuva, mosquitos, besouros e toda a sorte de estímulos que recebemos diretamente no peito (e na fuça para os adeptos do capacete aberto) é incrivelmente confortável. Mas ao diabo, como? Pegunta o incauto leitor. Bem, isso tem haver com a experiência, o ser humano é um ser que precisa experimentar para desenvolver, para sentir-se vivo. Nosso cérebro se alimenta de estímulos e sensações. Quanto mais, mais o cérebro se desenvolve e isso quem diz são os textos científicos, não este humilde cronista. Portanto a experiência é o conforto. Assim nada mais confortável que tomar um banho de lama daquele maldito caminhão a frente porque ainda não houve janela para ultrapassá-lo. Nada mais confortável que sentir a neblina gelada até os seus ossos enquanto tenta dissernir o trajeto no meio do branco insólito. Nada mais confortável que dividir os infortúnios, desaventuras e sim as bonanças de cada viajem realizada com os amigos. No final, usando a propaganda de certo sabão em pó, a vida é para ser vivida e as estradas para serem enfrentadas. Para toda a sujeira e até estrume de vaca que vier a te atingir, basta um bom banho. Este fim de semana, após longo hiato, fiz uma curta viagem de Mariana a Bhz na sexta a noite e depois retornei no domingo pela manhã. A mesma estrada, a mesma distância, porém o simples fato de ir num sentido e depois ao contrário e o próprio horário (a ida a noite e o retorno logo pela manhã) trouxeram conforto extraordinário e experiências complexas. Não teria vivido tão intensamente a viagem se estivesse em outro meio de transporte mais “confortável”. Lembro até de dormir no banco de carro ao estar de passageiro e perder a paisagem. Mas de moto sempre podemos ver o pôr do sol ou a alvorada e muito além. Mas porque realmente pegamos a estrada? Nenhum motociclista será capaz de explicar com palavras (eu bem que me esforcei aqui), porém venha conosco e veja com seus próprios olhos.


05/02/11 enquanto isso

Enquanto isso, tendo uma estrada, uma moto, amigos para visitar e lugares em que ainda não estivemos, vamos tocando.


25/06/10 de volta ao dentista

A região da Estrada Real, que concentra as cidades históricas de Minas da época do ciclo do ouro, tem um clima muito interessante no inverno. Por incrível que pareça faz calor durante o dia, a ponto de incomodar ficar exposto ao sol. Já à noite, a temperatura cai bruscamente e, ao arrepio de alguns amigos meus, faço uso do velho e bom cachecol. Considerando esse clima e não podendo perder o Tiradentes Motorfest no fim de semana (afinal seria um revival da primeira viagem com dona stefãnia), me programei para encontrar com amigos de Bhz, Nuanda, Ebin e Broto Jr, no sábado de manhã e descer para o dentista por volta de 09:00 no Posto Chefão na saída para o RJ. No final do dia subiria para Itaúna, pois também estava devendo uma visita (só tem quase um ano) a outro amigo, Flávio, que mora lá. Sexta logo cedo, aguardando reunião no escritório da empresa em Bhz (a unidade que trabalho fica em Mariana e nem precisa comentar que sai de madrugada de carro para estar cedo em Bhz), me aparece mensagem do Nuanda: “Fui”. Ca ialho, pensei, foi para onde diabos? Liguei para perguntar, não atendeu, mesmo depois de três tentativas. A resposta só vim a saber no meio da reunião com outra mensagem dele: “Tiradentes está demais, gente bonita e chopp da Krug. Se eu fosse você viria agora também”. A vantagem de nossos amigos e que podemos maldizê-los sem que isso gere qualquer intriga, portanto maldito Nuanda, isso lá é mensagem que se manda para alguém que está no meio de uma reunião discutindo um bocado de assuntos, menos moto? Depois ainda insistiu: “Já arrumei um quarto barato para passar a noite. Vem hoje mesmo”. Cai alho, vou dizer que foi um dos dias mais longos que já passei no escritório. Nem o interlúdio com aquela pelada que a seleção fez contra Portugal salvou. Finalmente 17:00 e estou livre. Livre? Bom, livre para voltar para Mariana. Uma ducha rápida (na verdade um chuveiro quente porque já estava frio), separa o essencial na bolsa de sissy-bar, três cuecas, quatro pares de meia, moleton, cachecol (lógico) e umas duas mudas de roupa. Armadura no corpo e pé na estrada. Já eram umas 20:00 quando sai de Mariana em direção a Tiradentes. Tanto o trecho da Estrada Real entre Ouro Preto e Ouro Branco e depois a interligação entre Congonhas e São João Del Rey, são estradas lindas com uma paisagem merecedora de muitas fotos. Bom, isso de dia, a noite e nesta época do ano, eu me perguntava se seria possível o Motul 5100 deixar de ser sintético e dona stefânia voltasse a ferver debaixo das minhas pernas como na época do Yamalube. Tudo bem, tudo bem, não serei tão rabugento, a lua cheia estava linda e era a cereja do bolo. OK, do sorvete. Em compensação acho que estou preparado para qualquer incursão ao Sul do país. Fora que companheiro cornija ficou lá encolhido, praguejando o frio, e nem me incomodou. Mais de 22:00 e chegava em São João Del Rey. Confirmei com o Nuanda onde encontrá-lo em Tiradentes e para lá fui, pela estrada velha mesmo, para o arrepio dos meus ossos que na conjunção do frio com os solavancos realmente pareceu que partiriam a qualquer momento. Tudo bem, o abraço do velho amigo ao encontrármos resolveu o problema. Tiradentes estava demais e principalmente a tenda da Krug Beer estava demais. Podem nossos amigos paulistas exaltar o Pinguim ou nossos companheiros cariocas aplaudir a Devassa, mas Krug Beer é cosa nostra! Chopp perfeito. Fora o camarada na voz e violão que estava muito engraçado com um repertório bem variado, passeando por vários clássicos. Ficamos lá com uma galera que o Nuanda conheceu durante o dia, pessoal muito bacana que vieram de speed. Antes disso, ainda vi o Tuí e o Alexandre Moreira lá na tenda da Motostreet. Por volta das 02:30 consideramos que já era hora de dar um tempo, mesmo porque o show acabara. No caminho para ir embora, não é que vemos novamente o Alexandre, agora acompanhado do Russo. Conseguiram nos segurar até depois de 04:00 da matina contando as peripécias do Russo para sair de Riberão Preto até Tiradentes. Não sei como ele conseguiu, mas deu uma boa volta por dentro da Lagoa de Furnas (até usou balsa), ficou perdido em estrada de terra, uma piada. Estava com a menina que conheçou em Riberão da época do passeio Dragueiro em Jardinópolis. Dois ótimos camaradas. Sábado de manhã, por volta de 07:30 fui agraciado com uma ligação do serviço bem no meio do meu sono embelezador. Informação sobre como estava o andamento de uma obra da empresa. A boa educação me impediu de falar que não queria saber daquilo naquele exato momento, mas foi uma informação pertinente. Segundo tempo de sono, 09:30 liga o Ebin: “Aqui, o Broto Jr não apareceu, como fazemos?”, “Larga a franga para trás” respondi e desliguei. Novamente a vantagem dos amigos é que podemos desligar na cara que ninguém deixa de te pagar cerveja por causa disso. Acordei mesmo por volta de 10:00. Banho e a surpresa de um super café na porta do quarto. Até que a “pousada” que o Nuanda arrumou era muito fina. No outro quarto tinha uma camarada com uma BMW, gente fina, mas não guardei o nome. Voltamos para o encontro e daqui a pouco esbarro com o Peninha, que estava meio com pressa e desapareceu na multidão. Mais um pouco e lá está o Ajota perdidão no meio do povo. Grande Ajota, companheiro de estrada e de muito encontros. Me confidenciou que já estava de olho numa moça de Goiânia. “Mas, Ajota, e a moça de Uberlândia?”, “Fantini, motociclista gosta de uma estrada, temos que ter vários destinos”. Realmente ele tem razão. Demos uma volta pelo evento e como eu disse o calor do dia começou a incomodar. Nenhuma notícia do Ebin ainda. Liguei, fizeram um pit-stop em São João Del Rey. Encontramos novamente a galera de speed de ontem. Vim a saber que uns deles queria mais que todo mundo se fodesse, explico, é dono de motel. Pouco depois de 14:00 despedimos do pessoal, dei um último abraço no Ajota e eu e Nuanda pegamos estrada. Ele tinha compromisso em Bhz e eu ainda tinha mais um asfalto até Itaúna. De dia a vista da estrada entre são João Del Rey e Congonhas é um espetáculo, viemos até num ritmo mais lento, lembrei-me do PE-49. Fomos assim até pouco depois de Lagoa Dourada, onde aceleramos o ritmo pois havia ficado um pouco tarde para nossos objetivos finais. Como ainda estava sem almoço um pequena parada em Congonhas para um pão de queijo. Despedi do Muamba, apesar que ainda dividiríamos a BR040 até o Anel Rodoviário, onde eu desceria para a Cidade Industrial e depois pegaria a Fernão Dias e ele desceria direto para Bhz pela Nossa Senhora do Carmo. Já sozinho na Fernão Dias, passei pelo velho caminho de sempre até Itaúna, passando por Igarapé e depois Itatiauçu. Quando parei para reabastecer na saída de Bhz, o frio já começara a cortar e melhorei minha condição térmica com um cachecol (sim, já deve ter alguém comentando: “cai alho de cachecol, Fantini”, mas faz muita diferença no frio). Cheguei na casa do amigo Flávio e a festa de aniversário da filha dele já estava bombando. O bom foi rever a Michele, uma amiga lá de Itaúna, linda como sempre. Aliás ela estava muito arrumada no vestido de festa e o brutamontes de jardim aqui (no alto dos meus 1,67m) com a armadura toda imunda por uma chuva de barro que tomei de uma carreta na estrada. Um cena típica de qualquer ser motoandante. Muita cerveja depois e ao fim da festa, lá estava eu capotado na cama improvisada na sala da casa. Tudo perfeito. Assisti aos dois excelentes jogos do domingo. Alemanha e Inglaterra, para mim até o momento o melhor jogo da Copa, e Argentina e México. Em seguida despedi do Flávio e família, missão Itaúna cumprida. Novamente a solidão do asfalto em direção a Mariana. Solidão? Lá estava eu com dona stefânia e companheiro cornija, este impagável e novamente praguejando o frio. Emprestei para ele o cachecol.


16/05/2010 breve comentário

Sempre repudiei aqueles incapazes de vencer os próprios vícios. Seja bebida, cigarro ou entorpecentes mesmo, esses vícios malignos, assim como os jogos de azar e ainda outros pequenos vícios. Não aceitava alguém ser incapaz de viver a vida sem esses subterfúgios. Quando comecei a andar de moto ainda com pequenas cilindradas até meu acidente sobre duas rodas, também não conseguia compreender o fascínio que tal veículo desperta em nós. Só a partir do momento em que enfiei o pé na lama fazendo trilhas com dorothéia e em seguida enfrentei mais de 1.000km de asfalto com dona stefânia passei a sentir o agravante poder do vício. É estranho e angustiante sentir falta da terrível vertigem de se equilibrar em pêndulo numa curva mesmo em baixa velocidade ou ainda a témivel sensação de vazio sobre os pés ao pular um mísero murundum de terra. Essa saudável labirintite artificial causada pelo andar de moto consegue ser mais forte que qualquer outro elemento para tornar alguém adicto. E nem falei dos outros meros mortais que comos nós se deixam levar por essa maligna maquinaria por rincões afora e que por acaso cruzam nosso caminho e ali deste improvável encontro nasce instatânea empatia. Alguns ainda ousam a singela e verdadeira amizade. Deveriam fazer leis proibindo o uso incidental de uma moto, deveriam banir este sonho amargo de nossos corações, deveriam avisar aos incautos o seu poder sedutor. Sua insensata capacidade de perverter a alma humana a se deixar levar pelos conselhos cornijas. Não, meu amigo, não sou mais capaz de abandonar esse vício. Sou fraco para tal e lhe rogo, não se deixe levar por seus encantos. É uma armadilha.