Prudens quid pluma niger secundum

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Tríade Sudestina

Sem vir aqui nas últimas semanas, mas me organizando para postar com um ritmo melhor!

Final de 2011 sem férias, trabalhei sozinho debaixo de chuva enquanto todos da empresa viajaram durante as férias coletivas. Mas a emenda foi melhor que o soneto: já é final de janeiro, as estradas estão um pouco mais vazias, a chuvarada já passou, e irei tirar a última semana do mês para fazer um roteiro que há muito desejo. Roteiro destes que a gente guarda na manga para uma semaninha de folga que aparece de sopetão. Dona Onça está revisadinha, sedenta por uns bons 1.600km.

O roteiro em questão foi denominado pelo mestre como A TRÍADE SUDESTINA

BH - SP - RJ - BH

Fernão Dias, Rio-Santos, BR 040

BH – SP – RJ – BH

Quase full-Sudeste: das capitais sudestinas, apenas Vitória ficará de fora. Gostaria de esticar até lá e beber boas doses com camarada Fantini, mas a quase-uma-semana é mais curta do que eu gostaria que fosse. 

Quase uma semana para visitar amigos: – Verônica, Hellton e Gigi, Melão e Mosca em SP; Renata, minha irmã mineiroca no Rio. Intensivo de aniquilação de saudade.

OS CAMINHOS

A Fernão Dias, parceirona de uma tocada só, me fará chegar em SP antes das 14h da próxima terça, dia 24/01. Minha atração por esta rodovia é enorme, mas nela restrinjo meu olhar ao asfalto, ao retrovisor, aos caminhões e sinalizações. Feita para chegar. Só podia mesmo ir para São Paulo.

Rio-Santos: a promessa de paisagens paradisíacas, a maresia em quase todo o percurso, o perigo das curvas e a possibilidade de pernoitar em uma cidade a beira-mar me fizeram desistir da Dutra (irmã bastarda da Fernão Dias) e seguir por Caradhras.

BR 040: Volta monótona, chata, muitos buracos de Juiz de Fora até BH. Com exceção da Serra e dos primeiros 70km após o Rio de Janeiro, a única coisa bacana da viagem de volta será um pão com filé completo no Roselanches.

Tentarei postar durante a viagem.

Abraços do Broto.

It´s a nice day for a ride!

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Blumenau – BH: Volta Solitária PT 01

De maneira inversa a uma lógica textual clássica (se é que nos preocupemos com isso neste espaço), neste meu primeiro texto sobre Blumenau 2011 irei mais concluir do que introduzir, descrever ou listar eventos de forma cronológica.

Não que exista um real motivo para isso. Talvez porque a viagem não acabou – Rafael Leander e Hermann John ainda estão na estrada, e o meu retorno prematuro e solitário fora previamente definido por compromissos profissionais. E apenas juntos conseguiremos uma descrição de tudo.

Se quiser ir mais além, e levar em consideração o texto do Gustavo Fantini (leia aqui), posso dizer que a viagem nunca acabará, já que “uma viagem só vale a pena se ela te transforma”.

Se uma viagem nos transforma, é porque ela se instalou em nosso corpo, alma e mente. Suas marcas não fogem pelo ralo junto à água suja a escorrer logo na lavagem que retira das motos o barro, a poeira de asfalto, o minério e os insetos esmagados.

O caldo grosso que escorre nos primeiros jatos de água é apenas a sujeira. Sujeira essa que pode sim revelar, após sua retirada, algum tipo de marca mais ou menos permanente – como um inesperado arranhão no tanque que estava misturado ao barro seco. E só.

As verdadeiras marcas em nós tatuadas por uma viagem capaz de nos transformar ultrapassam todas as camadas da pele. Devem envolver não só auto-superação (como já relatado aqui), mas proporcionar reflexões que superem as faixas do asfalto.

O caminho pode deixar marcas mais significativas do que o destino.

Belo Horizonte – Blumenau. Do nosso ponto de encontro para a partida até o albergue no qual nos hospedamos, nós percorremos 1.195km (pela marcação da minha moto). Destes, 590km até São Paulo, 190km até Registro, interior de SP, cidade na qual pernoitamos após a primeira jornada. De BH até SP a viagem fluiu muito bem. Sem sustos por parte dos barbeiros de plantão ou adversidades climáticas.

Já os 190km restantes até Registro (nosso ponto programadado para pouso), nos presenteou com um grande congestionamento e chuva razoavelmente fina nos quilômetros finais. O que não diminuiu os 780km de nossa primeira jornada.

Os 415km do dia seguinte foram marcados por tempestades, caminhões, roupas e botas encharcadas, capas de chuva rasgadas pelo vento. Sem contar nas serras que não levam o nome “azeite” de graça, na neblina e no frio cortantes, mesmo em uma tarde de céu claro.

Como disse, meu retorno foi prematuro. Após dois dias de viagem com Muamba e Hermann, passei três noites em Blumenau (o que renderá postagens futuras mais específicas). Chegamos à cidade no início da noite de Quinta (13/10), e parti sozinho para a viagem de volta no Domingo, dia 16/10. Acordei tarde e saí ainda sem café, por volta das 13h. Às 14h00, parei para almoçar na estrada. Aproveitei o buffet de saladas e comi apenas alimentos mais leves. Uma barra de cereal complementou o desjejum tardio.

O ideal em uma viagem dessas é parar o suficiente apenas para suas necessidades – desidratação e hidratação, como diz Fantini, e um lanche rápido para não pesar o estômago. Esticar as pernas, um alongamento leve, pronto. Mas, desta vez, eu prolonguei bem mais o pit-stop. Não foi algo consciente.

A saída de sopetão ainda não tinha permitido que minha ficha caísse, até então. Eu estava no início de uma viagem de 1.200km, na qual eu gastaria duas jornadas sobre a moto, atravessaria quatro Estados, enfrentaria estradas lotadas, caminhões e SUVs ensandecidos, muita, muita chuva, e sozinho. E não imaginava que o game mode VERY HARD seria realmente tenso. D.A.C.S. puro.

A ficha caiu ainda durante a refeição. O frio na barriga me causou leve enjôo, e preferi não comer o naco de carne que servi no prato. Muita coisa passou rapidamente pela minha cabeça naquele momento: chutar o balde, voltar para o albergue e continuar a viagem com os camaradas; despachar a moto e pegar um avião (calma, foi apenas uma brincadeira).

Me perguntei se realmente conseguiria. Me questionei se estava preparado fisicamente e, principalmente, psicologicamente. Não obtive respostas. Eu já sabia que estas encontraria apenas na estrada. Conferi rapidamente alguns apertos na moto, verifiquei a gambiarra que estava segurando a placa, montei Dona Onça e parti de vez.

Logo nos primeiros quilômetros de uma estradinha local que levaria até a BR 101 eu já tive o primeiro baque: a ausência dos companheiros à frente e nos retrovisores. Eu “puxei a fila” por quase todos os quilômetros da viagem de ida. Alí, Hermann e Muamba se alternaram na cobertura de nossa retaguarda. E saber que alguém em quem você confia e possui entrosamento está te “cobrindo” transmite uma segurança imensa durante o exercício da “função” de “batedor”.

Mas, como disse, naquele momento eu estava sozinho. (https://gallopreto.wordpress.com/category/tempo-e-viagem/)

Continua…


Sobre Alfenas e Superação

Não irei aqui tentar definir o que nos prende a determinado lugar. Pensarei mais no que nos motiva a conhecer outras terras, assumir que o mundo é vasto, mas sempre (ou não) com o pensamento fixo no ponto de onde partimos – precisamos sempre determinar uma referência baseada num esquadro, para então batermos o prumo e tirarmos o nível. Se pensarmos bem, mesmo a vastidão mais nebulosa pode estar a poucos quilômetros de distância. No caso do último final de semana, a exatos 335km (da porta de casa até a garagem da casa dos pais do Camarada Helton, em Alfenas).

Quinta-feira, 14 de julho de 2011. Recebo uma ligação interestadual do Camarada Helton me dizendo que sua sogra, digníssima mãe da querida Gisele – e que mora em BH – , havia confeccionado para mim um cachecol (nota de rodapé: quando estive em SP para buscar a moto, ambos me questionaram quanto a cor do então cachecol atual: “Precisava ser lilas???”). A Gisele é uma figura querida, a qual conheço faz pelo menos 14 anos e cultivo imenso afeto. O Helton eu conheci já casado com ela, e gostei dele de cara. Mas só recentemente pudemos nos aproximar mais. Fiquei realmente muito feliz com a ligação, e também com o carinho que acompanhou a notícia do cachecol, e perguntei a ele o que iria fazer no final de semana. Ele disse que estaria no dia seguinte indo para Alfenas, sua cidade natal e onde residem os seus pais. Praticamente me convidei, disse que seria  mais ou menos o meio do caminho entre SP e BH. Levei a garrafa de cachaça da boa como ingresso simbólico, e deixei para trás toda a programação já acertada do final de semana em BH.

Arrumei a “mochilinha” como diz Mr. Mumu, me programei rapidamente e, no sábado de manhã, saí de BH rumo a Alfenas. Enchi o tanque, peguei a Amazonas sentido Contagem / Betim (depois 381, depois Fernão Dias) e só parei para abastecer em Perdões, após exatos 205km. Pode parecer pouca coisa, mas, se existe algo que aprendi recentemente, é que a superação é solitária. Explico: você nunca supera outras pessoas – você só deve superar a si mesmo. Na vida, o esquadro que gera o alinhamento do prumo e do nível é a sua consciência, sua trajetória. Exatamente o lugar no qual nós devemos nos concentrar. Eu nunca havia ficado 2h30 sem parar sobre a moto. Muito menos percorrido tal distância sem parar. Por mais simples que possa parecer, toda autosuperação é valorosa, e por isso eu gritei um “U-hu” bem gritado logo após sair do posto de abastecimento. Enquanto isso via, sob a viseira escura do capacete, o sol do meio do dia torrando o asfalto de uma das dezenas ou centenas excelentes curvas da Fernão Dias.

A manhã pedia aquela frase já recorrente nos meus posts: “It´s a nice day for a ride”. Mas todo o contexto ajudava. Na sequência fiz uma parada mais demorada, e finalizei os 335km em 4h e 30, acho. No final já nem contei tanto. A estradinha que sai de Lavras rumo a Alfenas é também acima dos padrões – só se deve prestar atenção aos motoristas imprudentes, à falta de acostamento, ao gado e aos cachorros suicidas que teimam em surgir latindo do meio do mato na direção de uma moto a 130km p/h.

Sobre Alfenas nem irei comentar muito: Sul de Minas, fazendo nesta época calor agradável durante o dia e frio durante a noite. A família do Helton é sensacional, me acolheu excepcionalmente, e tive o prazer de compartilhar com eles horas e horas de conversas sobre os mais variados assuntos. Sem falar na degustação de pimentas!

Enquanto o Hellton não pega a moto...

A primeira falha no parco planejamento da viagem veio ainda no domingo cedo (e ainda bem que veio!!): eu deveria ter saído de lá por volta das 13h, no máximo. No entanto, um passeio descompromissado pela manhã na agradável feira de domingo da cidade me atiçou os instintos, e não resisti em, alí mesmo e com ajuda de todos, pensar num cardápio para o almoço e já comprar os ingredientes a preços impensáveis de tão baixos se compararmos com BH. Com isso todos se reuniram para cozinhar, e acabei saindo tarde (16h) da cidade.

Às 18h15 havia percorrido 170km, e, sinceramente, até então eu tinha certeza de que conseguiria tocar a volta até BH no mesmo ritmo da ida, mesmo precisando percorrer metade da distância à noite. No entanto, dois deslizes em duas curvas relativamente bestas me fizeram assumir que uma limitação realmente me atrapalha (quando falo de pilotar moto): o meu astigmatismo realmente compromete muito a minha direção noturna. Não tive outra opção a não ser pousar no meio do caminho. Como diz o Fantini, sou motociclista mas não sou louco!!! Mas foi divertido, e não entrarei em maiores detalhes por sairem um pouco do tema. No entanto, este volta à tona (ou ao tema) quando penso na terra desconhecida que conheci por acaso e que me deu abrigo.

Segunda, 5h30 da manhã. Acordo, me armo e pego novamente a estrada – já cheia de caminhões insanos, que me travam e obrigam a diminuir o ritmo, mas nada demais – pelo menos para alguém que, mesmo ainda com muito a aprender, aprendeu com os camaradas e na estrada que prudência é fundamental. E aí vale uma observação com cara de conclusão:

A sobrevivência na estrada não deveria passar por asfaltos esburacados, motoristas imprudentes, carretas entrando do nada e sem avisar na sua frente para ultrapassar a 130km p/h caminhões que já estão a 110km p/h, pseudos “qualquer coisa” em suas Tucsons que sobem uma reta vagarosamente a 80km p/h e aceleram para 150km quando você, prudentemente, empreende sobre eles uma ultrapassagem. Isso tudo é o que eu vejo nas estradas (acima da média em termos de projeto e conservação quando falamos de Brasil – nada perto dos relatos do Camarada Fantini). Mas é uma realidade.

Ao mesmo tempo, se não citarmos isso tudo, não poderíamos chamar de sobrevivência. Pode parecer piegas, mas, sempre que sei que um amigo está na estrada, não torço para que ele não encontre essas situações – torço para que ele as encontre sim, mas também que sempre as supere. Ou melhor, que supere a si mesmo e cada vez mais as tire de letra.