Prudens quid pluma niger secundum

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Próximo do céu escarlate: 15/09/19 Saga a Sakya

Hoje sim seria um trecho de 350km, acho que eu é que estou confundindo tudo. As 07:15 estávamos a postos para o café, para podermos pegar estrada por volta de 08:00.

Mudando um pouco a estratégia de proteção contra o frio, resolvi colocar uma segunda luva por baixo da luva térmica, o motivo é que descobri que a costura da mesma não veda bem o vento e isso explica alguns momento em que senti mais frio nas mãos.

Para a cabeça, o buff (aquele pano tubular multiuso que se coloca no pescoço e pode puxar para a cabeça foi muito útil, principalmente este que comprei com proteção contra vento. Somente que não me dei conta de que deixei meu “pequeno” nariz exposto ao sol. Se a região é famosa pela temperatura mais fria, o sol calcina. Então vou usar a balaclava para esquentar a cabeça e assim o buff pode tampar melhor o nariz.

Pouco antes do café, uma chuva rápida deu aquele banho de água fria na turma. Pegar chuva no meio da estrada nem é tão sofrido, eventualmente ela acaba e até chegar ao destino, você já está seco, agora começar a viagem debaixo de chuva normalmente tira qualquer um do sério. Ainda bem que foi só uma rajada e em uns 10mins parou.

De qualquer maneira o dia começou bem frio por causa da umidade, enquanto subíamos a serra, foi uma sábia decisão colocar mais proteção contra o frio.

Pegamos uma variação entre subir serra, descer serra, pegar estrada contornando o rio no pé da serra e assim fomos cada um do seu ritmo. A questão de viajar em grupo é essa, é impossível manter o grupo coeso, já que cada um vai no seu ritmo e o distinto aqui sempre ficando para trás por parar para tirar fotos.

E assim íamos com paradas estratégicas a cada 50km para juntar todo mundo novamente. Numa dessas paradas, após explicações do guia que haveria um checkpoint da polícia ao final de 60km, sai todo feliz na frente para ter tempo de parar para alguma foto sem ficar tanto para trás. Não andei nem 1km, um novo checkpoint em construção e só não passei direto porque o policial que não estava à vista me gritou lá da guarita improvisada. Não teve problema.

Outra vantagem das paradas era ter a oportunidade de acertar alguma coisa na moto. A minha por exemplo estava engasgando e foi um grande esforço conseguir vencer a primeira serra, como imaginei, o filtro estava um pouco saturado para a condição de ar rarefeito. Se tivesse jogado remédio contra mal de altitude no tanque, de repente não teria problema.

A estrada passa por paisagens lindas e se não tirei tantas fotos quanto normalmente faço é porque não podia perder tanto a galera de vista e porque tirar fotos usando dois pares de luvas gasta uns bons 10min entre parar a moto, descer, tirar as luvas, achar os ângulos, voltar para moto, botar as luvas e voltar para a estrada. O outro impeditivo era a falta de bons pontos de acostamento para uma parada segura.

E nisso podemos afirmar que os demais veículos fazem lambança. Se você acha que em Moçambique é ruim porque tem uma turma que dirige no meio da pista, parecem que os colegas asiáticos tem o mesmo conceito. Isso torna ultrapassagens relativamente perigosas e haja buzina para o caboclo a frente voltar para a pista.

Mais ou menos na metade do caminho paramos para abastecer e o posto estava lotado, o guia resolveu rodar mais 60km até a próxima cidade, nada de mais. Faltando uns 20km, a moto deu reserva. Lembrei das várias vezes em que tive pane seca no meio da estrada e agradeci que a chave não estava virada para reserva e ainda tinha algum combustível.

Paramos primeiro para um almoço em um restaurante chinês, novamente o guia escolheu o banquete. Quando achei que era comida demais, o povo comeu praticamente tudo, incrível!

Na hora de sair, surgiu uma chuva fina. Durou enquanto abastecemos e um pouco mais ao longo da estrada. Após uns 20km, pegamos uma estrada vicinal em direção a Ancient City of Sakya.

Aliás mesmo com o tempo úmido de manhã e essa chuva fina agora, a temperatura baixa faz o olho secar bem e incomoda um pouco. Talvez uma viseira tipo de motocross resolva, apesar que nem quando fazia trilha eu usava por achar incômodo. De qualquer maneira considerar que ao invés de trazer os óculos escuros mais fechados que tenho para viajar de moto, trouxe somente os óculos de dia a dia, não sei até que ponto pode ter contribuído.

Quando achei que a estrada velha para Sakya seria um trecho longo numa estradinha de interior, lá vem o governo chinês e transforma numa super estrada. Ficou até mais fácil chegar logo na cidade e no hotel. Como chegamos cedo as 16:15 (considerando que avisaram que chegaríamos por volta de 18:00), tivemos tempo para um City tour.

Fomos correndo para o Monastério, uma construção enorme, porque as 17:00 haveria a famosa dança do monges. A apresentação parecia mais uma espécie de ensaio, pois estavam bem descoordenados com o mestre que puxava a dança e o compasso com um tambor de cerimônia. Sofrida era a vida dos responsáveis por tocar as grandes cornetas, se berrante já é difícil, imagina um cornetão de 2m de comprimento! Outro ponto interessante, um outro mestre ia junto com o mestre do tambor, só que segurando um bastão adornado de penas de pavão que ele balançava no compasso do tambor. Eu fiquei curioso porque até agora não vi pavão nenhum por aqui.

A construção do monastério é bem interessante e estava tentando imaginar a data de construção, só depois perguntei para o catalão se o guia havia comentado e ele me disse que era algo em torno do século 9 ou 10. Quando ia soltar um “incrível essa construção estar de pé até hoje”, acrescentou que durante o período da Revolução Cultural Chinesa, houve danos gerais e a construção original foi reformada. Também vi alguns sinais de modernizações como água encanada e eletricidade.

Voltamos para o hotel para tomar aquela merecida ducha e aguardar a hora do guia levar para o jantar, deixa eu adivinhar, restaurante chinês.

Falando em chinês, que povo que gosta de colchão duro, praticamente uma tábua com uma cobertura de edredom, incrível, parece que todo hotel será assim agora.

Só para tirar onda, o guia nos levou num restaurante tibetano. Explicou que a diferença é que não tem carne de porco ou frango, que os chineses comem. Já os hindus não comem carne bovina e assim não tem na cozinha nepalesa. Fora os veganos que não comem carne nenhuma. Que confusão.

O preparo da refeição foi longo, basicamente arroz, macarrão, vegetais, pedaços de carne, divididos em ensopados, cozidos e fritos. Para quem queria só fazer uma refeição leve e ir tirar um cochilo para o dia seguinte, realmente foi demorado. Deu saudade do velho e bom espetinho de churrasco e uma long neck gelada.

Enquanto esperávamos a comida, nosso guia explicou com mais detalhes o dia seguinte. Se você é fã de controles, tem que fazer essa viagem de moto. Vamos sair cedo de Sakya para Shigatse (por volta de 180km) com o objetivo de chegar antes do almoço (danou as fotos ou vou ter que me impor um ritmo mais forte) para fazermos uma inspeção nas motos no órgão oficial.

Na sequência vamos para o hotel e aguardamos o retorno do almoço de outro órgão oficial, onde faremos verificação de nossa documentação e exames clínicos. O objetivo é fechar isso na parte da tarde e assim no dia seguinte seguir para Lhasa num trecho que deve gastar por volta de 6h. Se não der certo, faremos na manhã do dia seguinte e a turma já combinou de almoçar o mais rápido possível e dar um tiro para Lhasa de tarde. Considerando que anoitece por volta de 20:00, não vejo problema. Aliás não vejo problema algum, exceto o almoço demorar demais. Veremos.

Veja a peripécia de ontem aqui. Continue comigo nessa viagem aqui.


Próximo do céu escarlate: 14/09/19 Kyirong a Saga

Apesar do quarto do hotel ser bem ajeitado, o colchão era meio duro. Quem sofreu mesmo foi o catalão que está dividindo o quarto, me mostrou o colchão dele e parecia uma tábua.

Como sempre deixamos uma parte da cortina aberta, uma certa hora da madrugada acordei com um luz estranha vindo da rua e custei a entender que a variação entre verde, amarelo e vermelho era o bendito do sinal lá da esquina, bem na altura da janela do quarto. Caramba, me senti no apartamento fuleiro do Moloch (veja a graphic novel Watchmen).

Na sequência foram os chineses ou tibetanos, agora já não sei mais, que aproveitaram a sexta para sábado para ficar na rua até tarde. Povo barulhento igual escape aberto de moto numa falação infinita, daí a pouco quando acordei mesmo por volta das 06:30, os cornildos continuavam lá na rua falando alto até virar do avesso. Que isso!

O banheiro era legal por ser aquele estilo que temos no Brasil de pia, privada e chuveiro tudo junto. O único porém é que a privada era daquela bacia turca no chão e a porcaria do chuveiro apontada bem em cima. A sorte foi que consegui girar o tubo e mirar o chuveiro em outro quanto para conseguir espaço para tomar banho.

Após o café da manhã, tivemos uma espécie de manhã livre em Kyirong, a super cidade do interior, uma vez que sairíamos apenas após o almoço. O guia explicou sua estratégia para podermos descansar bem, pois teríamos o primeiro contato com altitude próxima dos 5.000m.

Além disso indicou a necessidade de pegar mais permissões para garantir nossa passagem na estrada, realmente há muitos controles aqui. Para se ter uma ideia, deixamos nossos passaportes na recepção ontem e até agora não recebemos de volta, enquanto fazem registro na polícia local.

Saindo após o almoço e com a expectativa do guia de fazermos o trecho de 350km em umas 5h (acho que vou gastar mais ao parar para tirar fotos), devido ao fuso que acompanha Beijing, como percebemos ontem, escurece bem tarde e ainda chegaremos com dia claro.

A volta pela cidade se resumiu a dar uma volta nos dois quarteirões ao redor do hotel e ver as lojas de coisas normais, nenhum imã de geladeira à vista, e visitar o monastério budista local. O monastério é bem interessante e fizeram um super praça bem em frente com um super telão gigante. Bem vindo a China.

Efetivamente saímos por volta de 14:00 e distância passou para 180km e após rodar numa estrada maravilhosa, eu espero que a gente esteja em Saga.

A estrada começou no pé do vale e se na cidade em que estávamos se via montanhas verdes e um clima mais úmido, agora aos poucos vou dando lugar a um clima seco e montanhas que mais pareciam pilha de estéril (termo de mineração). Um visão inusitada, porque havia um rio correndo no pé desse vale e a estrada ia margeando o mesmo, paisagem bem interessante e diferente de tudo que já tinha visto até então.

Seguimos até um checkpoint militar que foi praticamente zero de dificuldade pelo tanto de recomendação que o guia havia feito. O legal que nesse ponto havia uma cidadela antiga com aquela arquitetura milenar, não tivemos tempo de ir lá conferir para melhores ângulos de foto.

Daqui por diante seguíramos até o ponto mais alto dessa estrada, subindo num zigue-zague divertido. A paisagem também ganhou pouco mais de verde até alcançarmos 5.230m de altitude.

O frio apertou um pouco e a preocupação com o mal de altitude foi zero, uma vez que já estava tomando o remédio fazia dois dias conforme dica do peruano.

A partir deste ponto mais alto continuamos na estrada descendo aproximadamente 10km até um altiplano, onde pegamos uma saída à esquerda em direção a Saga. Logo na sequência paramos para um lanche e café quente para recuperar do frio.

Houve uma pequena serra novamente com os zigue-zagues divertidos e novamente um altiplano. Quase chegando na cidade, houve um desvio por um trecho de cascalho e terra, nada demais. Paramos para abastecer logo que voltou o asfalto e na sequência chegamos no hotel. Sim, o guia confirmou, chegamos em Saga.

Está razoavelmente frio e andamos a pé até um restaurante chinês, onde o guia escolheu uma coletânea de pratos. Nem deu tempo de tirar uma foto, porque a medida em que os pratos chegavam, a galera atacava. Estava muito bom.

Veja a peripécia de ontem aqui. Continue comigo nessa viagem aqui.