Prudens quid pluma niger secundum

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10/06/13 adeus à bezerra

Uma parede de neblina insistia em se manter a minha frente. Isso porque já havia avançado bem a BR381 Fernão Dias em direção a Bhz. Acredito que dava para ver aproximadamente uns 10 metros a frente e olhe lá.
Mas, Fantini, de São Paulo a Belo Horizonte é um trecho curto, poderia ter saído mais tarde e evitado o frio cortante da manhã. Bem, isso não estava nos planos de Sabbath, o gato, e eu preferia não ter um hemorragia interna sem explicação.
E se o motor funcionando em temperatura adequada foi a salvação no trânsito travado de São Paulo, agora na neblina gelada senti até saudade do tempo em que cozinhava os bagos em cima da panela de óleo abaixo do banco de Hellen Dawson. Até lembrei da primeira vez que peguei um tempo de inverno com a saudosa dona stefânia a noite, retornando de Bhz para Mariana, idos de 2009. Naquela noite parei umas três vezes e fiquei abraçado no motor em funcionamento antes que pegasse um pneumonia. É, há coisas mais perigosas na vida do que um gato metido a besta.
Cheguei em Bhz na hora do almoço e após rever mãe e descarregar as tralhas na casa do imperador, fui finalmente comprar um capacete novo. O velho zeus aberto companheiro de muitas desaventuras já apresentava sinais dos kms sob chuva, sol, frio, besouro e toda sorte de sujeira possível. Teve até um passarinho suicida que deu um razante na viseira certa vez.

Infelizmente não havia uma cor mais espalhafatosa

Infelizmente não havia uma cor mais espalhafatosa

Em seguida já estava convocando o povo do clã para homenagear nossa querida bezerra morta. Tentamos ir no Vintage 13, mas como era segunda, estava fechado. E assim ficamos no Amarelinho da Savassi mesmo.

Preocupado

Preocupado

Na terça fiquei por conta da família, já que na quarta tinha encaixado uma visita para o Flávio lá em Itaúna MG. Como Itaúna MG fica logo ali a uns 100kms, não tinha motivo para sair muito cedo e finalmente pude pegar um clima agradável para curtir a estrada.
Pena o trecho curto, descendo a BR381 Fernão Dias sentido São Paulo, para logo após a Serra da Pedra Grande em Igarapé MG, pegar a MG431 sentido MG050. Outra opção seria subir a BR262 após Betim MG e pegar a MG050 na altura de Mateus Leme, mas sempre prefiro o caminho da serra por ter uma sequência bacana de curvas.
Já encontrei com o Flávio no supermercado, abastecemos de cerveja e carne e pronto, mais dois dias de preocupação com a coitada da bezerra. Um ótimo adeus à bendita.
E até aqui basicamente pilotando por estradas cuja maioria eram mais que conhecidas, paisagens que apesar das repetidas vezes, não me canso nunca de rever. Sim, desde quinta, dia 30/05 entregue ao que o clima e o asfalto me oferecessem e aproveitando a recepção calorosa de todos os amigos e irmãos. Não sei bem o que dizer a respeito a não ser: experimente também.

#vem para estrada

#vem para estrada

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07/06/13 vamos beber a bezerra

Descendo a Bandeirantes a partir de Campinas sentido São Paulo, começo a pensar que tinha sido meio que besteira alterar a injeção da moto. Srta. Hellen Dawson ficou tão solta que de repente já estava acima do limite de velocidade sem esforço algum e isso estava começando a ficar divertido, mas ao mesmo tempo perigoso. Até porque ainda estava me acostumando com o novo regime de giro e potência.
Tem muita gente que vai então dizer, olha o Fantini, sempre tirando onda de motoqueiro doidão e agora se comportando como um frango d’angola pena branca. Isso porque já faz algum tempo que decidi respeitar os três limites:

A estrada – há estradas em que se pode andar no limite, pista livre e há estradas com mais curvas ou trânsito pesado ou asfalto ruim, em que se deve andar na boa.
A máquina – há motos em que se pode fazer curvas com precisão cirúrgica sem muito esforço ou que param com segurança e há motos em que é preciso um pouco mais de treino e domínio da sua dinâmica.
Você mesmo – tem dias em que está com todos os reflexos a flor da pele e tem dias em que o cansaço impede fazer movimentos simples como parar a moto no descanso com segurança.

Acreditem em mim, respeitar esses três limites, estar atento com o que ocorre na estrada, na máquina e em você, garante muito mais sua segurança que qualquer parafernália high tech de última geração. Lógico, use jaqueta, calça, coturno e capacetes bons e confortáveis. Mas o que quero afirmar é que não é preciso gastar uma pequena fortuna para ter segurança ao andar de moto.
E o trânsito de São Paulo numa sexta feira início da noite me faz esquecer as divagações e voltar a atenção aos carros a minha volta e as placas para encontrar o caminho. Aí você já imaginou a situação, moto custom, motor grande fritando sob suas pernas, quase uma vasectomia sem cirurgia e eu também fiquei imaginando.
Se você estava pensando que o melhor de acertar a injeção da moto era ter o motor entregando sua potência real, sinto em lhe informar que o motor trabalhando em temperatura adequada porque a mistura agora está correta é o melhor resultado que se pode esperar. Podia até continuar com a moto presa que nem ligava. Enfrentar o engarrafamento, sem ter tanta possibilidade de aproveitar os corredores porque a maioria só passava moto pequena, sem perder sua capacidade de ser pai um dia, é algo que nos deixa mais tranquilos.
Chego na casa do Hellton e ele empolgado me mostra a nova carteira categoria AB.
– Olha, agora eu tenho duas carteiras! Agora eu tenho duas carteiras e… o que está fazendo.

você tinha duas carteiras

você tinha duas carteiras

– Você tinha duas carteiras, hora de beber a velha com a bênção daquele que tem a pena preta, para se livrar de qualquer mal.

bebendo a carteira

bebendo a carteira

Ainda bem que ainda tinha heineken, já que o mequetrefe do Musquito que chegou em seguida repôs o estoque com skol. Cai alho, Musquito, cai alho! Além de morar em São Caetano que é longe, agora tem mais um motivo para não te visitar.  E assim fechamos a noite comemorando e bebendo a velha carteira do Hellton.
No sábado de manhã fomos dar umas voltas em lojas de motos usadas, o Hellton já tinha adiantado algumas opções e pediu minha opinião. Vimos algumas 125 para começar a brincar e pegar o jeito para coisa, na minha opinião, não é vergonha alguma, é que começando pequeno se pode avançar com calma e se adaptar a motos maiores passo a passo.
Em seguida pergunto se estávamos perto da Johnny Bordados.
– Uai, estamos. Porque?
– Vamos lá, quero ver se tem um esquema que estou precisando.

Johnny Bordados. Recomendo.

Johnny Bordados. Recomendo.

Chegamos e fomos muito mais que bem atendidos pela prestativa Anne, que apesar de só me conhecer por email reconheceu o brasão. Agradeci o respeito e pedi para ver se tinha o esquema que está procurando.
– Estou querendo fazer uma tarjeta, mais ou menos uns 20cm escrito aspirante.
– Sim podemos fazer, se puder esperar uns 30 minutos te entrego ainda agora.
– Perfeito, esperamos um pouco.
Nisso o gordinho do meu lado está pasmo.
– Para de tremer e me dá um abraço aqui, bem vindo ao DACS.

quase chorou

quase chorou

A noite já estávamos novamente comemorando e bebendo a velha carteira, afinal de que adianta ter moto se não tem irmãos e amigos em cada destino para fazer simplesmente isso, comemorar a amizade? Não, café da manhã não conta.
Ainda passei um agradável domingo na companhia do casal Tavares, tirando um pequeno contratempo com um restaurante que não servia carne. Finalmente o Hellton tem a oportunidade de comentar sua opinião sobre a morte da bezerra:
– Você não está percebendo o quanto este é um evento fatídico, a bezerra é o sustento daquela pobre família, produz leite, se pode fazer esterco com seu extrume, aí a bezerra vai e morre, a família fica desamparada. Isso não te preocupa?
– Sim, me preocupa demais, vamos beber a bezerra!
Em seguida já estava novamente descansando para partir para novo destino na segunda cedo. Não antes de um último vil dedo de prosa com Sabath, o gato.
– Cai alho! Qual a explicação lógica de você estar apalpando com as duas patas a minha barriga?

não sei se vou gostar da resposta

não sei se vou gostar da resposta

– Ora, Sr. Fantini, apenas verificando pontos fracos para causar um hemorragia interna, caso o senhor estenda por mais dias a sua estada em meus domínios.

cai alho!

cai alho!

Ainda bem que tinha outro destino no dia seguinte.


06/06/13 bezerras me mordam!

A selva de pedra que é São Paulo a cada visita se torna ainda mais indefectível. Sempre se pode esperar que haverá trânsito, mesmo que seja numa quinta feira às 05:30 da matina. OK, trânsito ainda incipiente comparado com o que ocorre nos horários, digamos, mais comerciais (afinal já peguei trânsito aqui em pleno domingo a tarde), mas ainda assim surpreende nós, meros mortais, que vivemos em cidades mais provincianas.
Mas, Fantini, temos uma cidade 24hs, encontramos qualquer produto a qualquer hora. Isso, tenho que concordar, afinal como a cidade está sempre paralisada, realmente é preciso que o supermercado e a padaria estejam abertos em horários não ortodoxos, quando se consegue finalmente chegar em casa.
Só que meu destino naquele momento era outro. Desde a fatídica sexta feira santa, em que Srta. Hellen Dawson resolvera dar uma pane na bateria (somente porque o distinto aqui ficou com o farol ligado um bocado de tempo enquanto apanhava para montar o bagageiro) estava nos devendo uma visita a Garage Henn.

Garage Henn

Garage Henn

Nem era pela ladainha do Maia de que a moto ia andar mais, que dava para ganhar potência, que devia trocar até a rebimboca da parafuseta, que assim andaria mais que moto japonesa (opa, aposto que vai aparecer algum “entendido” para discutir, rsrs), mas queria somente e basicamente acertar a porcaria da mistura pobre de fábrica que a HD original tem para atender os limites de emissões e etc.
Nisso realmente invejo os amigos de carburadas, bastava regular eu mesmo o maldito carburador, mas com essa maldita injeção, era preciso remapear e por mais simples que isso parece depois que se ver fazer, o melhor é sempre levar em quem conhece e assim rumamos para Campinas SP pela Bandeirantes.
Sim, você que está rindo aí já imaginando: “nossa, será que o Fantini que tanto comenta do frio na estrada neste mês de junho, vai comentar da serração da Bandeirantes?”. Pode continuar rindo, porque não vou comentar. Frio do capeta!
Cheguei um pouco antes da hora da oficina abrir, o que permitiu tomar um café e comer um misto quente enquanto o Paulinho não aparecia.

– Você que é o Fantini?
– Sim.
– Você não é doido igual o Maia, é?
– Não, pode ficar tranquilo.

Revisão dos 32.000km

Revisão dos 32.000km

Depois de discutir as peripécias do Maia e decidir que não iria trocar a rebimboca da parafuseta, deixamos a moto para fazer a revisão dos 32.000km e no dia seguinte faríamos o remapeamento.

– Nossa, Fantini, para que gastar dinheiro com essa moto velha, 32.000km, nossa, que pena hein, que ano é? Não, não me diga, 500km por ano, bem, tem uns 60 anos, é? Você adaptou a injeção?

Deixei o “entendido” conversando sozinho e aceitei o convite do Paulinho para conhecer a cidade. Na verdade ele precisava verificar se achava um portão melhor para a câmara do dinamômetro e lá fomos parar num ferro velho tosco como sempre tem que ser. O Paulinho achou o portão que queria, mas estava sem dinheiro na hora.

– Uai, camarada, não seja por isso, eu te dou o portão e estamos quites no serviço da moto lá.

E assim, mais uma vez o motoqueirismo mostra sua verdadeira face, da camaradagem e da ajuda mútua. Ainda o acompanhei na compra de outras traquinagens tipo “do-it-yourself” que iria instalar lá na tal câmara do dinamômetro. E nisso temos que dar o braço a torcer para o camarada, humildade e simplicidade em pessoa.
A revisão terminou no final do dia e o remapeamento somente no dia seguinte. Resolvemos comemorar o portão novo num pub famoso de Campinas que fiz o favor de esquecer o nome. Mas, não tem erro, basta ir no que estiver mais cheio, é esse. E mais uma vez fico surpreso com a circularidade da vida.

– Fantini, você toma joaquim daniel?
– Uai, claro, não dispenso jamais.
– Então pega aí. O Maia que trouxe de presente.

gentileza gera gentileza

gentileza gera gentileza

Cai alho! O cara gastou tanto aqui que precisa esticar as prestações e rolar a dívida, e aí tem que mimar o credor. Olho com mais cuidado para garrafa, um legítimo Joaquim Gente Fina e, peraí, cai alho! Conheço esse Joaquim, havia dado para o Maia para pagar o que bebemos todo em Prado BA e olha só. Rsrsrs! Sim, gentileza gera gentileza, melhor ainda quando se trata do Joaquim Gente Fina. Nem precisa dizer o tanto que a noite foi boa.

preparativos

preparativos

No dia seguinte Srta. Hellen Dawson já estava sendo devidamente estuprada até o limite enquanto o breguete lá de remapeamento, o tal TTS Mastertune para quem queira saber, ia fazendo as leituras e equalizando os dois cilindros e corrigindo a mistura.

taca fogo na namaguideraz!

taca fogo na namaguideraz!

Três séries de ajustes depois, finalmente o motor pode respirar aliviado e entregar sua potência original e não aquela merrequinha estrangulada de fábrica. Mas sinceridade, tenha em mente que os freios das custom em geral e da HD inclusive não são aquela maravilha e seja consciente.

já dá para alcançar as japonesas

já dá para alcançar as japonesas

– Consciente? Você fala sobre os três limites e.. Fantini, Fantini, peraí!!!

Depois de uma voltinha de teste, despeço do Paulinho e equipe da Garage Henn, realmente mais que recomendado, não só pelo serviço impecável, mas pela pessoa que o camarada é. E isso faz toda a diferença. Fora que me custou apenas um portão usado. Fino!

Ligo para o Hellton:

O Fantini me ligou

O Fantini me ligou

– Frangolino, separa o colchão aí que estou chegando.
– Sério?! Bezerras me mordam!!!


05/06/13 enquanto a bezerra continua morta

São 05:30 da manhã e a esposa acorda de sobressalto com o grito do marido:
– Ele vem! Ele vem!
– Meu deus, calma, quem vem?
– O Fantini, o Fantini vem para São Paulo!
– Mas como você sabe? Ele não estava em Goiânia?
– Programei meu celular para acompanhar as publicações dele no facebook. Já vou até mandar uma mensagem no whatsapp para saber quando ele chega.
– Meu bem, vamos voltar a dormir? Vamos.

A parte divertida de uma longa viagem de moto, mesmo com paradas estratégicas para visitar os amigos e descançar o corpo, é que o clima sempre te surpreende. Eu acreditava que não seria possível passar mais frio quanto o que passei a praticamente uma semana atrás, subindo na quinta de Vitória ES para Três Ranchos GO. Estava enganado.
Enquanto avançava a BR153 com destino à divisa de Goiás com Minas Gerais, para seguir para Uberlândia MG e de lá pegar a BR050 em direção a São Paulo, a espessa neblina da madrugada cortava a jaqueta, a segunda pele, minha pele e calcinava meus ossos. Vejo a saída para Caldas Novas GO e praguejo por estar indo em outra direção.
Aí lembro que não havia abastecido na noite anterior e olho o hodômetro. Tinha ainda garantido 50km de autonomia e assim fui neblina adentro. 40, 45, 49km, nada de posto, quer dizer, passei uns três que estavam no sentido contrário da rodovia. Cai alho, Fantini! E porque não atravessou a pista? Bom, pista dupla com retas infinitas tem suas vantagens. A desvantagem é a mureta central ou uma vala de todo tamanho. Fora a teimosia de não pegar o retorno porque tinha retorno para o posto, mas não tinha retorno para voltar. Fora que estava frio igual na terra do capeta e queria evitar qualquer manobra brusca.
Aos 51km o posto apareceu, minha salvação. Quer dizer, salvaria a autonomia. Com essa temperatura, parar é até pior, porque o corpo esquenta novamente e quando se volta para a estrada, o choque térmico é ainda mais forte. Tudo bem, podem rir do fato de ter deixado o forro da jaqueta para trás lá em Vitória ES. Mais algumas sequências de nada com coisa alguma na paisagem em volta, a solidão tomando conta de seu ser e a divisa de estados surge junto com a ponta do sol para mostrar que sim, você está vivo e não atravessando alguma ponte através do Rio Aqueronte.

Divisa Goiás - Minas Gerais em direção ao trevão

Divisa Goiás – Minas Gerais em direção ao trevão

Logo em seguida há um trevão onde se pode seguir direto para entrar em São Paulo pela estrada que chega a Barretos SP (ninguém recomenda) ou pegar um trecho da BR365 até Uberlândia MG e lá pegar a BR050 (que vira Anhanguera em SP) passando por Ribeirão Preto SP, caminho mais recomendado e por onde fui. E continuou o frio, Fantini? Alguém deve ter perguntado. Sim, continuou lá em Goiás, porque agora começava a esquentar de tal maneira que era impossível acreditar que a poucas horas atrás poderia encontrar um pinguim passeando no acostamento que não acharia estranho.

o sol voltou

o sol voltou

Já passam de 11:00 da manhã. O sujeito está inquieto, reunião tensa na empresa, saca o celular.
– Co jest kurwa? Jesteśmy w spotkaniu! Chcesz stracić piłki!? (1) – esbraveja o chefe polonês.
– Calma chefe, preciso saber do Fantini. Como assim?!? Nenhuma resposta dele, vou mandar outra mensagem.

Entre Campinas SP e Valinhos SP, durante uma parada de abastecimento, resolvo conferir a hora para acompanhar o avanço da viagem e comentar no facebook que estava correndo tudo bem. Vejo umas três mensagens no face e outras cinco no whatsapp. Da mesma pessoa:
“Assim que puder, me liga”
“Chegando em São Paulo, me avisa”
“Já providenciei cerveja”
Bom essa última interessou e respondi um educado: “pensarei no seu caso”, até porque tinha compromissos da pena preta. Mas como havia aberto o celular, resolvo conferir o mapa também, esses trem high tech de hoje facilitam a vida, e vejo que com um pequeno desvio de 150km poderia dar um abraço no velho rabugento lá de São José dos Campos SP e assim peguei a Rodovia Dom Pedro I e segui para lá.
Cheguei ainda no final da tarde, a casa estava com cara de vazia. A moto na garagem, mas o carro não. Isso é sério? O velho é só gogó mesmo! Vejam, compra essa moto enorme só para tirar foto dela enquanto lava na garagem. E depois sai para passear de carro! Trinquei! Pego o celular para ligar para ele e já sacanear até a 3a geração, quando lembro que lá em Três Ranchos GO, uma falha sem explicação apagara a memória de contatos. Trem high tech mão na roda, o cai alho! Ainda tentei conseguir o número de telefone por outras vias, mas acabo descobrindo que ele estava em Jundiaí SP, próximo de onde eu havia pegado o desvio. Paciência.
Pego a Dutra de volta para São Paulo SP e de repente o calor desaparece e encontramos de volta a sensação de estar indo em direção ao Tártaro. E assim novamente a viagem de moto lhe apresenta a sua maior lição: não importa quem você seja, o clima não se interessa por sua insignificância e vai se apresentar do jeito que melhor o convier, indiferente a sua vontade. Se acostume com isso ou venda a moto e compre um sofá e uma televisão full HD.

em direção ao tártaro

em direção ao tártaro

Após ficar perdido pela enésima vez para pegar a saída para Av. Paulista, acho o endereço de onde tinha meu compromisso e o trecho de hoje estava finalizado depois de uns 1.100km e por volta das 19:30. Ligo para o Hellton.

– Fala, que bom que ligou, já estava preocupado. Já está aqui na porta de casa?
– Não.
– Uai, mas está a caminho?
– Não.
– Está perdido de novo?
– Errei o caminho, mas já achei o endereço aqui.
– Endereço? Não vai vir para cá?
– Não.
– Como assim? COMO NÃO?!?
– Sossega, a bezerra continua morta.

(1) Que porra é essa ? Estamos em reunião ! Quer perder as bolas ?!?


28/03/13 a aventura so começa quando algo da errado

Havia já algum tempo que devia uma visita ao Helton, companheiro do clã que mora em São Paulo. A mais ou menos um mês atrás deixamos marcado para o feriado da Semana Santa. Ficou ainda mais tranquilo de ir quando descobri que a empresa resolveu, além da sexta feira, abrir uma folga também na quinta. Perfeito.
Nisso o Maia estava naquele frenesi danado, o que comumente chamamos de fogo no brioco, para acertar o recém adquirido mastertune. E ainda tinha cismado de passar para o tal estágio dois lá com o Paulinho Henn em Campinas.
– E o que diabos é estágio dois? questionei.
– Coisa simples, se troca o comando de válvulas.
– Cai alho.
Realmente concordo que a mapa de injeção original das HDs é muito ruim (coisa para atender legislação de consumo e emissões), o que praticamente mata o motor de 1600cc. E assim tive a idéia de aproveitar o ensejo e fazer o remapeamento da srta. Hellen Dawson.
Nuanda, velho companheiro de batalhas barrentas e a sua maneira responsável por hoje existir o DACS no clã (falo sobre isso novamente numa próxima oportunidade), ainda pretendia fazer uma surpresa ao aparecer do nada lá em Sampa. Pronto, estava tudo organizado.
Srta. Hellen Dawson vinha de um banho de loja considerável, pois aproveitando o par de sapatos novos da Michelin, resolvi dar uma geral na pintura, cromados e rodas. E lá se foi polimento em tudo, modéstia as favas ficou muito bom o serviço na Ayso Motos. Além da nova tatuagem providenciada com o Mestre Marcio Langer. Melhor que isso somente cromando tudo novamente como fez o Chassis com sua Shadow (e essa ficou igual zero km, linda).

Hellen Dawson e sua nova tatuagem

Hellen Dawson e sua nova tatuagem

Na quarta a noite deixei tudo montado e organizado. Quer dizer, apanhei para montar de volta a grelha do bagageiro, pois seu encaixe não bate com o do banco novo. Era acordar cedo na quinta, 04:30 da matina para ser preciso e zarpar rumo à paulicéia. Toda a parafernália de proteção que se tem direito, já que estava chovendo lá fora, viro a chave central, desligo o mata motor, todas as luzes de espia se acendem e se apagam indicando tudo sob controle. Só dar a partida e ouvir a música do escape curto (outro mimo comprado para a menina recentemente).
Então Fantini, só dar a partida. Fantini? A partida.
– Estou tentando! Cai alho! Estou tentando!
Uma, duas, três. A parafernália de proteção começa a pesar e a segunda pele que deveria manter o frio distante começa a se tornar uma sauna. Olha aqui, olha acolá, dá a partida e um “tec-tec-tec” elétrico e maldito do lado esquerdo abaixo do banco. E nada. Bom e isso porque na noite anterior estava funcionando de boa. Cai alho!
Pensei em desmontar a parte elétrica para verificar o que era, provavelmente pelo tipo de sintoma o relé de partida ou a bateria (fiquei com o farol ligado montando a maldita grelha), mas o suor escorrendo dentro do capacete e a frustação daquela melindrada de Srta. Hellen Dawson, empacando feito uma mula de carga só porque estava chovendo, me fez negar tudo aquilo que acredito, subir em casa, tirar toda a couraça, tomar uma ducha, vestir uma bermuda e ir com a Noviça Rebelde, a picape que tomou lugar da antiga Picareta.
Já estava na altura do Rio quando vi a mensagem do Nuanda confirmando que a dragstar dele também havia apresentado problema. Só que mecânico, carburador afogando e moto sem força na alta. Já pensei no giclê de alta. Depois não consegui falar com ele para saber se precisava de ajuda. Isso porque estava na BR101 vindo de Vitória e ele descendo a BR262 (Fernão Dias) a partir de Bhz. E qual o problema? Se precisasse, atravessava no meio das estradinhas vicinais e salvava ele lá onde estivesse. Ou então poderia acabar de negar de vez o que consideramos ser o clã e botar fogo na fúnebre flâmula.

fúnebre flâmula

fúnebre flâmula

E o Maia? A essa altura lá na oficina em Campinas estava se divertindo botando fogo do escape e fazendo o Joaquim Daniel dançar ao som do velho e bom V2. Filho de uma boa mãe!
Cheguei em Sampa e, como sempre, me perdi para chegar na casa do Helton. E olha que não é tão difícil assim chegar na casa dele em Vila Mariana. Depois de errar três vezes porque fui confiar mais no GPS do que na minha memória, instinto e placas (sim, todas indicavam perfeitamente o caminho se tivesse seguido), uma hora depois encontrava com os dois irmãos.
Estendemos a fúnebre flâmula e pronto, um posto avançado do conclave marajoense estava formado. A RFEIM existe onde um membro do clã estiver. O Musquito, outro companheiro que também resolveu morar na selva de pedra nos acompanhou noite adentro, dividindo nossas histórias e mentiras e muita Heineken. Quer dizer, o franga do Musquito trouxe skol.
Como sexta era feriado, decidimos que não tinha muito o que fazer quanto a moto do Nuanda, até porque não tinha ferramentas para verificar o maldito carburador. Começamos a verificar as opções que tinhámos, um reboque de volta a Bhz ficaria muito caro. Mas caro mesmo era demover Nuanda de voltar com a moto naquele estado. Não era seguro.
– Não vou deixar em oficina aqui não, preciso da moto no dia a dia.
Com muito custo conseguimos convencê-lo que poderia pegar a Honda Biz emprestada do Gustavinho.

A honda biz do Gustavinho

– Essa eu queria filmar e…
– Helton, cai alho! Sossega!
Incomodei o camarada Nishida, grande Nishida, para saber se conseguia algum mecânico próximo. Arrumou logo três opções e ainda verificou novamente um reboque para Bhz. Realmente o coração é muito maior que a pessoa. Se bem que ele é baixinho igual eu. Rsrs.
Na sexta a noite fomos encontrar com a Nina, capitã das fumos que vieram de Bhz para o Lollapalooza, e fomos parar lá na tal Vila Madalena. Como estava todo mundo virado de viagem (no caso delas) e cachaçada (a gente), não sobrevimemos ao segundo buteco. É a vai idade. Antigamente durávamos no mínimo três butecos. Mas vai lá.
No sábado cedo, ok, quase cedo, já estávamos na GO a procura de uma oficina para deixar a dragstar do Nuanda. Isso porque as opções que o Nishida passou, coitado, furaram o olho do japonês e estavam fechadas. Pergunta daqui e de lá, descobrimos uma oficina que poderia atender, mas ficava para o lado da Av Cruzeiro do Sul. Não me perguntem detalhes, já viram lá no início que não consigo chegar nem em Vila Mariana sem ficar perdido. Bom, basta indicar que é a Podium Motos. O pessoal foi muito cordial, mas a atendente foi cética.
– Só poderemos olhar a moto segunda.
Eu pensando menos mal, já que conseguimos uma oficina, Nuanda com uma lágrima nos olhos e o Helton já ia zoar novamente a história da Honda Bis. Cai alho! Sossega Helton!
Fomos caçar algo para tapar a fome, não tinha mais o que fazer. Quando já estava acabando o exagerado pastel de 30cm da lanchonete que não lembro o nome, já lá de volta para os lados de Vila Mariana, o telefone do Nuanda toca.
– Ah! Sim, é o Rafael, tá, sério, tá, então tá. Daqui uma hora? Tá, então tá.
– Nem precisa falar, pela sua expressão é da oficina, só falta dizer que a moto está pronta? perguntei.
Olha só, eu sou muito pé atrás com São Paulo. Acho o custo de vida, a tensão do dia a dia atribulado, o trânsito caótico, bom, o conjunto da obra algo que não me agrada. Mas descobrir que uma oficina desmonta o carburador, limpa, regula, monta de novo e entrega num intervalo de três horas (ou menos), isso porque era sábado após um feriado, me faz queimar a língua.
Não é que a moto ficou boa. Alguém vai dizer que a gente deveria ter resolvido por conta própria. Sim, concordo, mas como já havia dito, não possuíamos as ferramentas para tal. Os puristas que nos perdoem.
Resolvido a pior parte, vou saber do Maia se estava tudo bem.
– Velho, instalei um freio novo já que você reclamou que o original não estava muito adequado para a nova potência da moto.
– Mas como assim, era só regular, não precisava trocar.
– É que agora a Lily Monster passa dos 200.
Desliguei o telefone. E pensar que até um mês atrás o cara era um pacato professor universitário.
No domingo cada um caçou seu rumo. Nuanda subiu para Bhz e eu desci a Dutra para o Rio para em seguida pegar a BR101. O Helton acho que ainda estava dormindo quando cheguei em Vitória. O Maia? Velho deve ter chegado no dia anterior ao ultrapassar a barreira do tempo e o espaço. Cai alho!
Srta. Hellen Dawson estava lá impassível. Perdeu a oportunidade de receber fôlego novo com o remapeamento da injeção, mocinha maldita. Mas é assim mesmo, a aventura só começa quando algo dá errado. Se bem que preferi todas as vezes que algo deu errado no meio da viagem e não antes de começá-la.


08/04/12 não se experimenta no sofa da sala

CdGP DACS

Já passava de 20:00 da noite de domingo quando finalmente cheguei em Vitória ES. Comecei a refletir sobre a viagem. Havia saído de São Paulo SP às 06:30 da manhã com um tempo frio que qualquer um consideraria continuar na cama, enquanto eu ali na infinitude da estrada. Atravessando o Rio de Janeiro RJ, já no calor de meio dia, porque tinha errado a saída da Dutra para a Av. Brasil, pude conhecer a cidade nada maravilhosa, com seus cortiços, ruas estreitas e gente estranha, tão diferente daquelas que insistem em nos mostrar na televisão. No final da tarde já ultrapassava a fronteira em direção ao Espírito Santo, somente para descobrir que muitos resolveram fazer o mesmo que eu, enfrentar a estrada no feriado. Enfrentei eles, o trânsito e a estrada noite adentro.

Viajar de moto não é algo que se experimenta sentado no sofá da sala olhando o tempo passar pela janela. Você decide literalmente experimentar o tempo, o espaço e toda a sorte ou infortúnios que a viagem resolver lhe proporcionar. Sua única participação é atravessar a estrada que liga um destino ao outro.

Helton e Gisele não deram muita bola para meu auto convite: “Camaradas, estou indo para Sampa, separem o sofá para mim”. Começaram a argumentar sobre planejar a visita e tal e… “Camaradas, basta cerveja na geladeira e Buddy Guy na vitrola.”. Dois dias antes de retornar, na sexta cedo já avançara um bom pedaço do Rio de Janeiro. Me lembrei da última vez que estive aqui, subindo a Serra das Araras, dona stefânia bufando o óleo velho e o filtro saturado de um teste de 10.000km. Vou dizer que aquela vez foi sofrida.

E tudo para estar com o Ghan num encontro em Penedo RJ. E como tinha um tempo que não visitava o velho amigo, achei por bem ligar para ele quando estivesse em terras bandeirantes. Se estivesse em casa, passaria para dar um abraço. A essa hora, o povo do clã que resolveu descer de Belo Horizonte MG – Agnelli, Fábio, Rachel, Rubens – já estava em peso na casa do Helton, churrasco na alta preparado pelo Bruno e eu na terceira parada já na Dutra após Rio de Janeiro RJ comendo uma esfirra. Sim, a estrada é ingrata. Mas eu gosto de esfirra.

O Ghan estava em casa e me recebeu em prantos:
– Fantini, KCT! Essa maldita prótese dentária! Não dá mais para me divertir arrancando os dentes com o alicate.
– Uai, se quiser te empresto aquele soco inglês que você me deu lá no Tibet. Resolve na hora.

Agradeci o café e o bom papo e continuei viagem até Vila Mariana, São Paulo SP, onde o povo do clã já estava em outra órbita. Ao menos me acompanharam em duas cervejas. Um grande feito considerando o castelo de latinhas vazias encostado na churrasqueira. Como diz o Nuanda: “esse povo bebe demais…”.

No sábado cedo convenci todo mundo a me acompanhar na General Osório. Tinha duas missões: a) comprar “uns trem” para dona stefânia e b) encontrar com os DOGs de Sampa. A missão (a) foi resolvida em pouco tempo e após visitar meia dúzia de lojas. Já a missão (b), bem, o desinfeliz do Ramone me passa um telefone que estava desligado. Para ajudar a loja da Warrior mudara de endereço e acabei não achando ela. Depois vim a saber que os camaradas não só ficaram me esperando como até me procuraram por lá. Agradeço a preocupação do grande Nishida e do Prof. Hirai por até me ligarem para saber se eu estava vivo. Sim, eu estava, foi somente um completo desencontro.

Depois de uma lasanha de almoço devidamente preparada pela Gisele (o Helton jura que foi ele quem fez), discutir políticas públicas com o Dr. Agnelli e o Dr. Rubens e todo mundo entrar em estado vegetativo para fazer a digestão, resolvi retomar a discussão filosófica da visita anterior com Sabbath, o gato, e seu novo companheiro, Led, o outro gato.

– Sr. Fantini, novamente em minha morada. Vejo que trouxe outros intrusos. Muito irritante.
– Sr. Sabbath, vejo que agora tem um companheiro de morada. Quem é o macho dessa história?
– Malditos humanos!!! Não se tem sossego nessa bagaça!!!
– (rachei)^3!!!

Mais tarde a turma insistiu para tomar mais uma última cerveja de despedida. Declinei. Precisava dormir para retornar no dia seguinte.

Pouco mais de 2.000km, 3 estados, não sei quantas cidades, ao menos 7 climas diferentes, um vazamento de óleo no retorno. Somente para se estar com os amigos. Não se experimenta isso sentado no sofá da sala olhando a paisagem passar pela janela.