Prudens quid pluma niger secundum

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01/06/13 a morte da bezerra pt03

Você acorda com os primeiros raios solares atravessando a cortina de seda, mas o quarto ainda está com pouca claridade e a cama macia e confortável convida para mais um cochilo. Realmente foi uma excelente escolha a recomendação do colega do café da manhã de sábado. Nem parece que viajou de moto, o corpo está descansado. Poderia fazer isso a cada três meses. Deixa o médico descobrir que rodou de moto! Melhor já planejar o próximo evento, vamos abrir o tablet e usar o wifi do hotel para conferir.
– Nossa, Fantini, confortável isso hein? Mas, peraí, que cara virada é essa?
Como um bom blues, sábado acordei com aquela sensação de que nem devia ter saído da cama e que todos os demônios poderiam rir da minha cara que festejaria com eles. Talvez não devesse ter tomado aquela última latinha. Teria sido melhor tomar mais umas duas ou três e teria chegado junto com o desinfeliz do Batman e não teria que passar parte da madrugada do lado de fora do portão.

Escreva seu próprio blues

Escreva seu próprio blues

É meu amigo, uma viagem de moto é ingrata, não há hotéis de luxo, não há conforto, nem decepção.
Olho para o Nelsão e já começo a rir.
– Ôôô, mineiro atrevido, que foi?
– Cai alho, Nelsão. Você tirando maior onda de que estava tomando absolut. Que porra de garrafa de natasha vazia é essa no seu alforje?
– Ôôôôôôôôôôôôôôô!!!!
Trinquei!
O Batman já havia dado a dica de subirmos para Caldas Novas GO, então comecei a juntar as tralhas. Por volta de 11:30 já estávamos com tudo pronto. E o tempo nublado fechando.
Nelsão ainda insistiu para ratear o café, mas negociamos o churrasco do dia anterior que pagamos na casa do pessoal do Mojorider. Então, duas estadias com café da manhã, saíram pela bagatela de zero reais. Bem melhor que o hotel de luxo de sabe lá quantas estrelas estrelares.
Despedimos e fomos rumo a Catalão GO que atravessamos com o objetivo de pegar o caminho para Ipameri GO através da GO330 e em seguida rumar para Caldas Novas GO pela GO213. O tempo continuava nublado o que deixava a temperatura agradável. Afinal os dois heróis aqui estavam sentindo o peso da madrugada insone. Paramos para abastecer ainda em Catalão GO e beber uma água com gás foi providencial.
Então a estrada. Olha-se para um lado e fazenda a perder de vista, olha para o outro lado e mais fazenda que não tem fim. Atravessamos quilômetros sem ver qualquer tipo de aglomeração que significasse que havia alguma coisa ali além de pastagem e plantação. Aí como já estava deixando bem claro, veio a chuva. Sem dó e sem piedade.
Como o Batman foi mais prevenido, já saiu com a capa de chuva. Eu como sempre teimoso, estava sem. Pensei em acenar para parar e botar a capa, mas depois lembrei que ela se encontrava junto do forro térmico da jaqueta.
– Lá em Vitória, Fantini?!?
– Isso mesmo. Cai alho.
Ainda bem que os novos pneus, um par de Michelin Commander (não ganho para fazer propaganda, mas o pneu é bom) cumpriram seu papel no asfalto razoável, cheio de poeira fina que com a chuva formou aquela fina lama. Somente tive um susto numa reta em pequeno declive em que errei a aceleração e a roda traseira destracionou. Nada impossível de corrigir, mas era melhor esquecer a calça e botas encharcadas e ficar mais atento.
– Mas Fantini. Cordura costuma segurar um pouco a água.
Mas viajei com dois pares de calça. Um jeans para a estrada e um jeans para passear onde estivesse. Aliás, chamo a atenção que apesar de estarmos no início da epopeia de 15 dias, trouxe apenas uma sacola pequena, o que daria para sobreviver uma semana sem precisar lavar a muda de roupa. Sim, é preciso ser fiel as origens. Enquanto isso, Batman mostrava que para carregar tanta bugiganga, era preciso mais que um cinto de utilidades.

Não é fácil ser herói

Não é fácil ser herói

Chegamos no condomínio onde ele tinha apartamento, saímos para providenciar a cerveja e o café da manhã.
– Padrinho, vamos ficar aqui na piscina do condomínio mesmo.
Não quis discutir, afinal era visita, mas talvez um dos tais parques fosse uma boa pedida.

foi um clube parecido com este que ele chamou de piscina

foi um clube parecido com este que ele chamou de piscina

Ainda bem que não insisti, pois o diabo do condomínio tinha um clube privativo completo. E por incrível que possa parecer, dois ogros de barba por fazer, sujos de viagem, com um isopor de cerveja conseguiram chamar a atenção.
– Padrinho, você parece amuleto, vou te convidar para vir aqui de novo.
– Ah, não, não! Pára! É mentira. É mentira!
Trincamos!

para que sabe se lá quantas estrelas?

para que sabe se lá quantas estrelas?

E assim ficamos o fim de semana em Caldas Novas GO. Piscina, água quente, vista agradável, cerveja gelada, botecos legais a noite. Tinha até o bauru da fórmula secreta de família. Comecei a me preocupar.
– Com o que Fantini?
– Uai! Com a morte da bezerra!

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31/05/13 a morte da bezerra pt02

Tudo que você espera após uma longa viagem de moto, quem sabe atravessar uns 200km, nossa, muita coisa hein, entre dois municípios próximos, é encontrar a cama quente e arrumada após um belo banho quente naquele hotel com o máximo de estrelas que você marcou com antecedência. Um luxo, recomendado por aquele amigo do café da manhã de sábado porque os croissants do desjejum são divinos.
E você, Fantini, se preocupa em marcar o hotel?
– Hotel? Preocupar?
Por volta de 02:00 da manhã o Nelsão deu o grito porque achava que a gente já tinha tomado muita cerveja de graça e que como ele tinha providenciado uma casa emprestada, se a gente quisesse abrigo, era para ir naquele momento.
O som da televisão no talo por volta de 10:00 da manhã me acordou de supetão e quase bati a cabeça no topo da beliche. Lembrei de uma velha música que preza: “até parece fácil acordar às dez, quando a ressaca me pegou de vez”.
– Cai alho, Nelsão, tá surdo?
– Era para ver se vocês acordavam de vez.
O pão de forma, presunto e queijo, esquentados na chapa elétrica, e a coca cola gelada não se comparavam ao sabor divino do croissant do hotel de sabe se lá quantas estrelas. O pão e a coca tinham um sabor bem melhor.
– Aqui, depois temos que ver o rateio aí do café. – implicou o Nelsão.
– Rateio? Rateio de que? E a honra da minha ilustre presença?
– Ôôô Batman! Esse mineiro é muito atrevido!
Saimos para encontrar com o pessoal do Mojoriders que veio de Catalão GO e estavam numa casa próxima, não sem antes dar uma volta pela cidade.

Recepção fina do Mojoriders

Recepção fina do Mojoriders

– Ôôô mineiro, essa sua moto faz barulho demais.
– Sossega aí, Nelsão.
– Ôôô! Você é muito atrevido!
– Rsrsrsrsrs.

Como um escape pequeno vai fazer barulho?

Como um escape pequeno vai fazer barulho?

Improvisamos um churrasco enquanto o pessoal preparava uma feijoada lá na casa que estavam. Em seguida chegou o Edson Mamão, companheiro do Nelsão.
– Mas você veio mesmo de Vitória ES num tiro só? Ah, não, não! Pára! É mentira. É mentira!
Nem precisa comentar que esse foi nosso mote para tudo que a gente achava um absurdo.
Passamos uma tarde mais que agradável, com pessoas fantásticas, apesar que em certo momento, a coisa ficou tensa e queriam arrancar nossos dentes. Afinal eram dentistas.
– Sabe, Fantini, se tirar esse molar aí e botar um aparelho.
Cai alho! Eu que não quis arrancar os dentes nem quando o Ghan quis me ensinar sobre a felicidade interior. Quanto mais para botar aparelho. Deixa eles tortos mesmo.
Mas o ponto alto foi ver o exímio, o grande, o fantástico, o campeão, ele, sim, ele, Nelsão, o mestre da sinuca. Teve que ir embora com a viola dentro do saco e o rabo entre as pernas após perder feio para os anfitriões. Isso porque era impossível imaginar o Nelsão perder pelo tanto que ele disse que jogava. Trinquei.
– Ôôô! Você é muito atrevido!
– Rsrsrsrsrs.
O evento a noite foi mais do mesmo. Exceto pela cena hilária do Mamão tentando nos acompanhar no gole. Coitado. Parece que teve problemas com o famoso tique de ligar para namorada quando já atravessou todo o mercado negro de Bagdá. Mestre Grilão é categórico: “Filho, sábio aquele que desliga o celular durante a gandaia”.
Nelsão levou ele embora mais cedo e resolvi esticar mais um pouco com o Batman. Aliás, cadê o desinfeliz, sumiu. Tomei mais uma latinha, rodei o evento e nada. Cai alho! Bom, deve ter ido também, vou nessa.
Você já deve estar imaginando aquele banho quente, não? Eu também, mas me deparei com o portão do condomínio completamente fechado, sem controle, sem porteiro, sem cerveja. Acabei cochilando do lado da moto por volta de uns 30 minutos ou mais até que o desinfeliz do Batman aparecesse em seguida com o controle. Depois ele me explicou que foi por um bom motivo.


30/05/13 a morte da bezerra pt01

O que se pode dizer sobre uma viagem de moto que já não tenha sido dito? Alguém sempre tem uma dica, qual moto é melhor para isso, qual moto melhor para aquilo, o que levar, que tipo de roupa usar, quantos quilômetros se avançar por dia e inúmeras outras amenidades que se encontra por aí na opinião dos mais entendidos de plantão e comentaristas de revistas especializadas no assunto.
Talvez aquele camarada que você encontre no café da manhã todo sábado, lhe passe recomendações fundamentais de segurança e indumentária, qual a maneira correta de conduzir a motocicleta e, pasmém, um código completo de sinalizações para indicar o que há de perigo na pista quando se anda em comboio.
E você, Fantini, se preocupa com esse tipo de coisas?
– Desculpe… falou comigo?
– Sim, você não se preocupa com…
– Ah! Sim, estou muito preocupado. Preocupado com a morte da bezerra!
E olha que o Helton, nosso novo aspirante, comentou bastante sobre este evento fatídico, mas deixa isso para quando chegarmos em São Paulo.
– São Paulo! Vai rodar bem então.
– Talvez, mas primeiro vamos para Goiás.
– Goiás?!?

Divisa Minas - Goiás por Araguari

Divisa Minas – Goiás por Araguari

Eu já estava a caminho de Uberlândia MG, após passar o trevo de Araxá MG. Vinha desde Vitória ES quando sai quinta por volta de 05:45 da matina. Estava prestes a ter uma pane seca quando finalmente surgiu uma cidadezinha chamada Santa Luciana MG. Estava difícil controlar a mão trêmula e congelada pelo vento e umidade da chuva fina, quase uma névoa, que vinha me acompanhando desde a divisa entre Espírito Santo e Minas Gerais.
Como era uma chuva bem fina, não chegava a molhar o asfalto, somente ia umedecendo a roupa a ponto de que a sensação de frio chegava ao limite do intolerável. A segunda pele tentava fazer seu papel em vão e comecei a imaginar a oportunidade de comprar um colete de lã fino para usar sob a jaqueta.
Comecei a rir, afinal a jaqueta tem um forro térmico. Um forro térmico que ficou em Vitória ES, dentro da caixa no armário onde está desde que mudei para o clima infernal do litoral capixaba e arredores. Cai alho!
Cheguei em Uberlândia MG por volta de 18:30 conforme previsto. O Aurélio Batman que me aguardava em Três Ranhos GO já estava conhecendo meio mundo no encontro lá (o que nos proporcionou um bocado de cervejas grátis, diga-se de passagem). Mas como é que um camarada anda mais de 1.000km em apenas 13 horas?

Encontro em Três Ranchos GO

Encontro em Três Ranchos GO

Bom, como sai cedo, consegui encaixar a subida da serra até Realeza MG com o trânsito de mineiros descendo de Bhz para a praia. Daí em diante não peguei trânsito praticamente algum, o que dá para fazer a viagem render bem. E também tem a facilidade de já conhecer a estrada, uma vantagem que só tem quem usa sua moto para ir além das esquinas do bairro. Recomendo.
O último trecho entre Uberlândia MG e Três Ranchos GO, pelo contrário, era completamente desconhecido. Conferi o mapa, passaria por Araguari MG, divisa e Catalão GO. Mas uns 200km. Fichinha para quem já tinha feito 1.000km? Mais ou menos pois a partir de 18:30 já havia escurecido bem e para quem já passou por isso, sabe o quanto é ingrato viajar de moto a noite quando o céu está nublado. É um bréu do cai alho! E em estrada desconhecida, melhor ir “na manteiga” como recomenda Mestre Grilão.
Por volta de 21:30 cheguei em Três Ranchos GO e já fui direto para o encontro. Mal parei Hellen Dawson e já tinha um caboclo cabeludo me gritando.
– Porra, padrinho! Veio mesmo. Vem cá mostrar para esses caras aqui que você veio mesmo.
Grande Aurélio Batman. Figura, nos conhecemos em 2009 num outro encontro em Goiânia GO. Preciso professor da arte dos embates. Nunca esquecerei sua técnica de posicionamento estratégico em botecos.
Já tinha conhecido meio mundo do evento. Tudo bem que meio mundo do evento não passava de meia dúzia de gatos pingados. Primeiro evento em cidade pequena é assim mesmo. Mas garantiu boas risadas e muita cerveja.

O pessoal aqui prefere jetski

O pessoal aqui prefere jetski

E aí vem o Nelsão, incrédulo.
– Você não veio de Vitória ES hoje não. Não tem como.
– Uai, é tranquilo, basta acordar cedo, pegar a moto e seguir a direção até aqui.
Na verdade acho que ninguém acreditava que um camarada fosse capaz de rodar mais de 1.000km em um dia, na verdade somou uns 1.300km (quase um iron butt sem fazer muita firula que fazem por aí), somente para encontrar um velho amigo. Bom, se você também não acredita, venda sua moto e procure outro passatempo. Pois é disso que é feito motociclismo, rodar e encontrar amigos. Nada mais.